Venezuela

Novo ministro do Exterior de Delcy é um antichavista convicto

Ex-dirigente da oposição assume a diplomacia venezuelana em meio a concessões ao imperialismo e recebe o chanceler do governo Lula em Madri

A presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, nomeou, em 29 de outubro, Oliver Blanco para o Ministério das Relações Exteriores. Aos 34 anos, o novo chanceler tem uma trajetória de militância contra o chavismo na Acción Democrática (AD), partido golpista da burguesia e de oposição aos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. A escolha ocorreu em meio à aproximação de Caracas com Washington, após o sequestro de Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro.

Em 3 de novembro, Blanco reuniu-se em Madri com Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do governo Lula. O encontro, realizado à margem da XXX Cúpula Ibero-Americana, foi anunciado pelo Itamaraty no X. A reunião chama a atenção pela posição brasileira durante o governo Maduro: Lula havia recusado o reconhecimento do resultado da eleição venezuelana de 2024 e seu governo se opôs à entrada da Venezuela no BRICS.

Segundo perfil publicado pela CNN en Español em 31 de outubro, Blanco foi secretário de Organização Juvenil da AD e, em 2012, chefiou a campanha de Diego Arria nas primárias da oposição. Em 2016, tornou-se diretor de Comunicações da Assembleia Nacional, então controlada pelos adversários de Maduro e presidida por Henry Ramos Allup, dirigente do mesmo partido.

Durante as guarimbas (protestos violentos com linchamentos de chavistas) de 2014, Blanco acusou o governo de enganar os jovens com promessas não cumpridas. Em 2016, classificou a situação venezuelana como “inconstitucional”. A CNN informa que, em 2021, ele ainda se apresentava como integrante da AD. Sua passagem pela oposição, portanto, não foi uma divergência ocasional.

Blanco marcou distância do chavismo ao entrar no Ministério das Relações Exteriores, em fevereiro deste ano, como vice-ministro para Europa e América do Norte. “Não milito no partido do governo”, declarou, segundo a agência EFE. Em julho, foi promovido a primeiro vice-ministro. Nesse período, participou de negociações sobre energia com os Estados Unidos.

Ao nomeá-lo chanceler, Delcy Rodríguez reconheceu seu passado político. Segundo a imprensa presidencial venezuelana, descreveu Blanco como um profissional que “teve militância partidária na oposição”. Ele substituiu Félix Plasencia, que ocupava o posto havia três meses e passou a dirigir os Assuntos Internacionais da Presidência, encarregado de trabalhar pela recuperação do ouro venezuelano retido no Banco da Inglaterra.

Ao assumir, Blanco declarou estar “orgulhoso de acompanhar a presidente encarregada neste processo de transformação democrática”. Também defendeu uma diplomacia orientada para “resultados concretos” e oportunidades de investimento, conforme a EFE. A expressão “transformação democrática” é significativa: durante anos, a oposição e Washington se valeram da farsa da defesa da “democracia” para derrubar Maduro, apoiado pela maioria do povo.

Entregar a diplomacia a um político da direita é mais uma demonstração da guinada à direita do governo Rodríguez. A nomeação não foi um fato isolado. Desde janeiro, o chavismo vem realizando mudanças importantes nas relações com o imperialismo norte-americano e com os principais aliados históricos da Venezuela, como Irã, Palestina e Cuba.

A reação dos Estados Unidos à escolha de Blanco foi positiva. John Barrett, encarregado de negócios norte-americano, felicitou o novo chanceler e manifestou a intenção de avançar no chamado “plano de três fases” dos Estados Unidos para a Venezuela. Isso não demonstra que os norte-americanos tenham determinado sua nomeação, mas indica que a escolha foi recebida favoravelmente pelo imperialismo.

A reunião com Mauro Vieira também deve ser examinada à luz da conduta brasileira. Após a eleição presidencial de 2024, Lula não reconheceu a vitória anunciada de Maduro. Em outubro daquele ano, o Brasil se opôs ao ingresso venezuelano no BRICS, durante a reunião de cúpula em Kazan, na Rússia.

O veto brasileiro contribuiu politicamente para o isolamento internacional da Venezuela num momento de pressão dos Estados Unidos. Lula abandonou Maduro diante da ofensiva norte-americana.

O governo Lula se recusou a apoiar Maduro em questões decisivas, mas abriu um contato ministerial com a diplomacia de Delcy Rodríguez depois da nomeação de um antigo opositor para chefiá-la. O comunicado do Itamaraty não informa acordos fechados em Madri nem permite concluir que as relações tenham sido plenamente normalizadas.

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