O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central interrompeu a sequência de cortes da taxa básica de juros e manteve a Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade, na quarta-feira (4). A decisão ocorreu poucos dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e contrariou a expectativa predominante entre os analistas, que previam uma redução de 0,25 ponto percentual.
O momento escolhido chama a atenção. Antes e durante a campanha eleitoral, os juros caíram cinco vezes. Encerrada a eleição, o Banco Central, presidido por Gabriel Galípolo, interrompeu as reduções. A sequência levanta a hipótese de que os cortes tenham ocorrido para favorecer a reeleição de Lula e que, encerrada a votação, os banqueiros voltaram a impor suas exigências.
A hipótese ganha importância diante da proximidade entre Galípolo e o presidente. Indicado por Lula para dirigir o Banco Central, Galípolo é um aliado do governo e seu nome chegou a ser mencionado como possível ministro da Fazenda.
Cinco cortes antes da eleição
De junho de 2025 a março de 2026, a Selic permaneceu em 15% ao ano, o nível mais elevado em quase 20 anos. Em abril, o Copom iniciou as reduções, em meio à queda da inflação. Depois de cinco decisões nesse sentido, a taxa chegou a 13,75% justamente durante a disputa presidencial.
A redução dos juros favorece o consumo e os investimentos, pois tende a diminuir os custos de financiamento das empresas e das famílias. Juros em queda eram uma notícia conveniente para a campanha de Lula, embora a taxa continuasse altíssima.
Passada a votação, a justificativa mudou. O Banco Central apontou incertezas cambiais, o fenômeno El Niño e expectativas de inflação acima da meta para interromper os cortes. O órgão não indicou quando voltaria a reduzir a Selic.
Em comunicado, o Copom reconheceu que a economia atravessa uma desaceleração mais intensa e que a taxa de juros é “substancialmente contracionista”. Mesmo assim, concluiu que a situação exigia “serenidade e cautela” na condução da política monetária.
A inflação acumulada em 12 meses, medida pela prévia do IPCA, chegou a 4,62% em outubro, acima do limite de 4,5% fixado para a meta. O índice do mês foi de 0,32%, beneficiado pela queda das contas de luz. O boletim Focus projetava inflação de 5,22% para o fechamento de 2026. Mas juros elevados não impedem uma seca, não interrompem uma guerra nem ampliam a oferta de produtos.
A conta fica com os trabalhadores
A manutenção da Selic nesse patamar representa uma vantagem para os grandes credores do Estado. Parte dos títulos da dívida pública tem remuneração vinculada à taxa básica; quanto maior ela for, maiores tendem a ser os pagamentos sobre esses papéis. Entre seus detentores estão bancos, fundos de investimento e outros grandes proprietários de capital.
O tratamento dispensado aos trabalhadores é o inverso. A taxa elevada encarece empréstimos, financiamentos e o capital de que as empresas precisam para produzir. O resultado é uma economia com menos estímulo ao investimento, ao emprego e ao consumo. O próprio Banco Central reduziu a previsão de crescimento do País em 2026 para 1,8%. As instituições consultadas pelo Focus esperavam apenas 1,76%, ante 1,85% quatro semanas antes.
Mesmo com a economia em desaceleração, o Banco Central preservou a remuneração dos credores.
A interrupção dos cortes também coincide com a mudança de discurso econômico após a eleição. Durante a campanha, o governo procurou conquistar votos com promessas e medidas de apelo popular. Com o quarto mandato assegurado, as pressões por ajuste fiscal, aumento de impostos e contenção das despesas públicas ganham espaço e Lula cede.
A população pagará com o crédito caro, menos empregos e uma política fiscal voltada a aumentar a arrecadação e conter despesas. Enquanto isso, os credores continuarão recebendo juros elevados sobre a dívida pública.
A situação é especialmente reveladora porque o PT passou anos responsabilizando Roberto Campos Neto, indicado por Jair Bolsonaro, pelos juros elevados. Agora o Banco Central é comandado por um homem escolhido por Lula, mas a política continua favorecendo os banqueiros. A troca de presidente da instituição não alterou esse fato.
Os cinco cortes realizados antes da eleição e a interrupção imediatamente posterior não bastam para provar uma negociação eleitoral. Isso não torna a coincidência irrelevante. É possível que setores do capital financeiro tenham considerado conveniente a vitória de Lula, desde que o governo continuasse a assegurar seus ganhos.
O resultado já está diante da população: a eleição terminou, a redução dos juros parou e o governo inicia o novo mandato sob pressões para restringir despesas e elevar a arrecadação. Se a queda da Selic ajudou a reeleger Lula, os banqueiros agora dão sinais de que pretendem cobrar pelo apoio. E cobrar com juros.




