Florestan Fernandes Jr. descobriu o nascimento de um mundo melhor. Em artigo publicado nesta quarta-feira (4) no Brasil 247, As vitórias contra Trump e Bolsonaro sinalizam um novo mundo, apresenta a derrota republicana nas eleições norte-americanas e a reeleição de Lula como o anúncio de uma era de paz e democracia. Prevê ainda o renascimento da ONU e uma onda mundial de mobilização popular.
O problema é que os democratas norte-americanos são o principal partido do imperialismo. Lula venceu a corrida presidencial, mas o bolsonarismo saiu fortalecido da eleição legislativa. A ONU continua subordinada aos interesses de sempre. Florestan transforma derrotas de determinados políticos em derrotas da classe dominante, sem explicar o que os capitalistas perderam exatamente.
Os democratas, campeões da paz?
Florestan afirma que os norte-americanos votaram contra as guerras, o racismo e a ordem mundial unipolar. Os democratas conquistaram as duas casas do Congresso neste 3 de novembro, mas o resultado expressa o desgaste de Trump, atingido pela carestia e pela guerra contra o Irã.
Trump prometeu encerrar as guerras intermináveis dos EUA. Ao atacar o Irã, contrariou parte de sua própria base e ofereceu munição eleitoral aos adversários. Pagou o preço de sua capitulação à política do imperialismo e do grande capital financeiro.
Mas por que a vitória dos democratas significaria paz? Joe Biden, por exemplo, ampliou o apoio militar à Ucrânia, reforçou o cerco à China e abasteceu “Israel” com armas durante o massacre dos palestinos. Seu partido é um dos principais executores da política imperialista.
Se os democratas retomarem a Casa Branca e continuarem essa política, as condições que produziram Trump não desaparecerão. Poderá, isso sim, fazer surgir um candidato ainda mais à direita.
A alegação de que as urnas rejeitaram a supremacia branca tampouco é demonstrada. Racismo e perseguição aos imigrantes não se resumem a Trump.
Lula ganhou, os banqueiros também
Lula derrotou Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, mas o PL elegeu 121 deputados, contra 70 do PT, conquistou 19 cadeiras em disputa no Senado e seis governos estaduais. O partido bolsonarista ampliou sua força no Congresso. Não é a direita liquidada que Florestan acredita enxergar.
A vitória também não rompeu os compromissos do PT com os capitalistas. A equipe de Dario Durigan prepara novos apertos nas despesas e superávits primários maiores. Mudanças sancionadas por Lula poderão retirar até R$ 16,6 bilhões da saúde e da educação em 2027, segundo estimativas.
O PT amplia seus acordos com a direita, enquanto os credores da dívida pública seguem protegidos. Onde está a derrota dos banqueiros? Eles continuam cobrando juros e exigindo cortes.
A eleição de Lula é um fato; sua transformação em vitória sobre a burguesia é uma invenção.
Agora a ONU salvará o planeta
O entusiasmo do articulista chega ao ponto mais espantoso quando afirma que a derrota de Trump é “uma excelente notícia para a Organização das Nações Unidas”. Segundo ele, o organismo poderá recuperar seu papel na formação de uma ordem internacional pacífica e democrática. Isso não tem nenhum contato com a realidade.
Em abril de 2024, sob Biden, o Conselho de Segurança examinou a admissão da Palestina como membro pleno. Doze países votaram a favor, dois se abstiveram e só os Estados Unidos votaram contra. O veto impediu a aprovação. Em novembro, Washington vetou uma resolução pelo cessar-fogo em Gaza apoiada pelos outros 14 integrantes do Conselho.
A ONU não tem poder para obrigar os EUA a abandonarem sua política ou impedir os ataques de “Israel”. Nem impediu a criminosa invasão ao Iraque, ou tantos outros crimes do imperialismo.
A confiança do jornalista nas instituições burguesas não é novidade. Em 2023, ele afirmou absurdamente sobre o Supremo Tribunal Federal que “o único pilar que se manteve firme na defesa da Constituição e do estado democrático de direito foi o STF”. Chegou a justificar que a Corte avançasse sobre as atribuições dos outros poderes.
No Brasil, esses setores da esquerda aplaudem prisões e cassações de adversários, esquecendo que os mesmos instrumentos podem amanhã atingir sindicatos, grevistas e organizações populares.
Primeiro o STF salvaria a democracia; agora a ONU salvará o planeta. Florestan atribui às instituições do regime burguês uma função contrária à realidade.
Mobilização popular ou apoio ao governo?
Florestan também celebra “uma onda de mobilização popular” e mistura movimentos de natureza completamente diferente.
Na França, estudantes enfrentam a polícia de Emmanuel Macron e se unem a trabalhadores contra os cortes sociais. As centrais convocaram greve geral para 5 de novembro. Os manifestantes lutam justamente contra um governo tratado como alternativa democrática à extrema direita.
E no Brasil? A UNE convocou atos para comemorar a reeleição de Lula e atacar Flávio Bolsonaro. As manifestações de 1º de novembro ocorreram em diversas cidades, mas tiveram público reduzido, o que obrigou a entidade a não divulgar estimvativa de participantes.
Florestan comemora ainda que a mobilização ultrapasse “ideologias partidárias”. Por quê? Um partido é expressão política da luta de classes. Os trabalhadores precisam de organização, direção e programa. O apartidarismo só favorece a burguesia.
Em junho de 2013, a direita aproveitou o discurso contra os partidos para hostilizar bandeiras de esquerda e intervir em manifestações iniciadas por reivindicações populares. A ausência de direção deixa o caminho livre para as forças mais organizadas.
Florestan apresenta a ascensão da extrema direita latino-americana como resultado da atuação de Trump e Marco Rubio. A ofensiva, no entanto, é anterior a ambos. Em 2009, Manuel Zelaya foi derrubado em Honduras, sob Barack Obama. No Brasil, derrubaram Dilma Rousseff, e o mesmo aconteceu em outros países.
O imperialismo não nasceu com Trump nem morrerá com a derrota de seu partido.
Florestan encerra declarando que o futuro não pode pertencer aos “autocratas, aos senhores da guerra e aos donos do dinheiro”. Faltou explicar como a vitória de partidos financiados pelo capital produziria essa transformação.
É a velha fórmula da frente ampla: vota-se num candidato burguês para barrar outro e adiam-se as reivindicações populares para não atrapalhar o eleito.
No mundo maravilhoso de Florestan, os democratas trazem a paz, a ONU enfrenta o imperialismo, o STF protege as liberdades e Lula derrota os banqueiros. No mundo real, as guerras continuam, o bolsonarismo sai maior da eleição legislativa e o governo prepara cortes sociais. A mudança não virá da vitória de um representante da burguesia sobre outro, mas da luta independente da classe trabalhadora.





