Enquanto a direita organizava canais e alcançava milhões de pessoas, setores da esquerda pediam ao Supremo Tribunal Federal (STF) que silenciasse seus adversários. Agora que descobriram a utilidade das redes, querem fazer do combate às plataformas sua principal tarefa política.
É a contradição de José Correa Leite em O letramento digital forçado da esquerda brasileira, publicado nesta quarta-feira (4) na revista Movimento, que ali celebra a campanha digital de Lula, mas conclui que “temos que colocar o combate às big techs no centro de nossa política”.
Não houve nenhum extraordinário letramento. A esquerda governista apenas passou a utilizar melhor uma tecnologia que a direita entendeu muito antes, pois um simples celular permite fazer propaganda, organizar militantes e chegar a milhões de pessoas sem depender dos grandes jornais.
Em lugar de disputar a opinião pública, recorreram aos juízes
Durante anos, a denúncia das fake news serviu para justificar bloqueios de contas e investigações sobre opiniões políticas. A direita crescia nas redes; a esquerda pequeno-burguesa, em vez de ampliar sua propaganda, pedia a intervenção de Alexandre de Moraes.
Em junho de 2022, Moraes determinou o bloqueio dos perfis do Partido da Causa Operária (PCO) no Twitter, Instagram, Facebook, Telegram, YouTube e TikTok diante do silêncio da maioria da esquerda, que jura defender a democracia. O STF manteve a medida em novembro, por nove votos a dois. Um partido legalmente constituído ficou sem acesso aos principais meios de divulgação digital por causa de suas posições políticas. Diferentemente dos “democratas”, as próprias plataformas recorreram contra a decisão, advertindo sobre a censura genérica de conteúdos lícitos.
É óbvio que se um ministro pode fechar as contas de um partido inteiro, poderá fazer o mesmo com um sindicato ou jornal.
O fato é que a Internet barateou a comunicação de massas. Trabalhadores podem divulgar greves, denunciar patrões e contestar as campanhas da imprensa burguesa. A esquerda deveria defender esse direito, não entregar ao Estado o controle da palavra.
Milícia digital para uns, exército para outros
A incoerência de Correa Leite fica evidente quando ele elogia o “Exército do Lula”, organizado pelo deputado André Janones. O canal distribuía orientações para compartilhar conteúdos, multiplicar mensagens e atrair apoiadores. Segundo o articulista, chegou a ultrapassar 10 milhões de inscritos às vésperas da eleição.
Quando a direita faz isso, recebe o nome de “milícia digital”. Quando Janones organiza milhões de pessoas para difundir a campanha petista, temos um exemplo de educação política de massas. O que mudou foi o método ou a candidatura beneficiada?
Em 11 de outubro, Kassio Nunes Marques suspendeu o canal a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. Janones denunciou alegando que “a censura já começou”. Após decisões conflitantes no TSE, o canal voltou ao ar.
A suspensão atacava a liberdade de expressão. Os que apoiaram a repressão à propaganda bolsonarista só perceberam o perigo quando foram atingidos. Mas faz anos que PCO vem advertindo que entregar aos juízes o controle das eleições cria uma arma contra todos.
O debate sobre mentiras eleitorais revela a mesma hipocrisia. Circulou durante a campanha a afirmação falsa de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A história utilizava um projeto de 2007, sem participação de Flávio, arquivado no ano seguinte. Setores da campanha petista exploraram o boato enquanto denunciavam a suposta indústria de mentiras da direita.
Correa Leite elogia também A guerra à Santa, documentário de outubro sobre religiosos ligados ao bolsonarismo. Embora seja diferente do boato, integra a exploração eleitoral da mesma controvérsia religiosa.
A mentira não foi inventada pelo Facebook
A obsessão com as fake news faz parecer que a manipulação política nasceu com a Internet. A grande imprensa burguesa mentiu durante séculos, organizou campanhas contra governos e movimentos populares e ajudou a justificar guerras. As falsas alegações sobre armas de destruição em massa no Iraque, utilizadas para justificar a invasão norte-americana de 2003, não foram produto de um algoritmo do Instagram.
A grande imprensa brasileira apoiou o golpe de 1964 e a derrubada de Dilma Rousseff em 2016. Os defensores da censura, entretanto, não propõem fechar a Folha de S. Paulo ou O Globo. Preferem atacar os espaços onde a população pode falar sem depender desses jornais.
Há uma provocação antiga que diz: “não compre jornais, minta você mesmo”. A mentira política não é novidade. Quem é alvo de uma falsidade deve poder contestá-la e a contra. Entregar aos tribunais o poder de definir a verdade oficial serve para proteger a censura, não para combater a mentira.
Um fascismo novo a cada semana
Para Correa Leite, as redes constituiriam o “aparelho ideológico do tecnofascismo”. Os usuários seriam “adestrados” e teriam sua atenção “sequestrada”. O articulista chega a comparar a utilização de aparelhos celulares à difusão do ópio pelo imperialismo britânico na China.
A despeito dos algoritmos, os trabalhadores não são folhas em branco. Suas convicções também nascem das condições materiais de vida, da experiência política, do trabalho e das organizações de que participam.
A direita também ganhou votos porque o PT governou em aliança com capitalistas e decepcionou parte do eleitorado. Culpar o algoritmo permite fugir do balanço dessa política de conciliação.
Depois de “tecnofeudalismo”, surge “tecnofascismo”. O fascismo, regime histórico de repressão contrarrevolucionária, passa a designar qualquer empresa de tecnologia. O neologismo substitui a análise das classes sociais.
Contra os monopólios, não contra a liberdade
As empresas de tecnologia são monopólios capitalistas, exploram dados e podem favorecer interesses políticos. Mas tomá-las como inimigo central da esquerda significa combater apenas um setor do capital.
Mesmo que a Meta fosse desmembrada, os bancos, a indústria armamentista e a imprensa burguesa conservariam seu poder. Combater uma empresa não é derrotar o capitalismo.
É o mesmo mecanismo da frente ampla: inventa-se um inimigo absoluto, chamado de fascismo, para justificar a aliança com partidos burgueses apresentados como democráticos. Na questão digital, aponta-se para as plataformas e desaparecem os demais centros de poder do imperialismo.
O correto é defender um programa democrático específico que garanta sigilo das comunicações, transparência dos algoritmos, possibilidade de transferir contas entre plataformas, fim das barreiras impostas pelos monopólios e controle das redes pelos próprios usuários. É uma política contra a concentração do poder econômico e contra a censura, não uma autorização para os tribunais decidirem quem pode falar.
A campanha de 2026 mostrou que a esquerda sabe utilizar as redes para organizar milhões. A lição seria ampliar essa capacidade e defender a liberdade de expressão, inclusive dos adversários. Correa Leite conclui o contrário e apenas quer combater as plataformas.
Enquanto a direita aprendeu a disputar a opinião pública com os recursos disponíveis, a esquerda pequeno-burguesa gastou anos pedindo socorro ao STF. Agora que finalmente resolveu fazer propaganda, continua procurando alguém para censurar. Os trabalhadores precisam de organização política e de todos os meios possíveis para defendê-la, não de mais um juiz vigiando o que escrevem e compartilham.




