A reeleição de Lula está produzindo na esquerda governista uma euforia que pode custar caro aos trabalhadores brasileiros. Intelectuais, jornalistas e dirigentes petistas apresentam a derrota de Flávio Bolsonaro como um acontecimento histórico que teria interrompido a ascensão da extrema direita na América Latina e abalado o próprio imperialismo norte-americano. A impressão é que uma eleição presidencial teria resolvido os principais problemas políticos do País.
No artigo O levante da sociedade civil, publicado no Brasil 247, a economista Leda Paulani afirma que a vitória de Lula simbolizou uma derrota da ascensão da extrema direita em escala mundial. A autora acredita que a mobilização eleitoral brasileira pode modificar o panorama político internacional.
A conclusão revela a incapacidade da esquerda pequeno-burguesa de aprender com suas próprias experiências. O bolsonarismo não acabou. A direita não foi destruída. Donald Trump continua na Casa Branca. E os problemas que permitiram ao bolsonarismo conquistar uma enorme influência sobre a população brasileira permanecem praticamente intactos.
Não faz muito tempo, os mesmos setores comemoravam que Lula havia dobrado Trump, que o presidente norte-americano havia sido derrotado diplomaticamente e que a ofensiva imperialista contra o Brasil tinha fracassado. A realidade encarregou-se de demonstrar o contrário.
Em julho de 2025, Trump anunciou tarifas de 50% contra produtos brasileiros, vinculando expressamente a medida à situação de Jair Bolsonaro. Naquele mesmo mês, seu governo aplicou sanções contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky. As sanções foram retiradas em dezembro, mas a articulação dos bolsonaristas com os norte-americanos não terminou.
Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca. Pouco depois, os Estados Unidos classificaram o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, conforme defendia o senador. Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo continuaram pressionando pela retomada das sanções contra Moraes.
Ou seja, enquanto os governistas comemoravam uma suposta derrota definitiva de Trump, os bolsonaristas construíam uma relação política com o governo norte-americano, obtendo medidas concretas e utilizando o peso dos Estados Unidos para pressionar o Brasil.
Agora, novamente, a esquerda governista anuncia o fim do bolsonarismo. A experiência anterior deveria recomendar um pouco mais de prudência.
É verdade que Trump não realizou, até agora, uma intervenção de grandes proporções em favor de Flávio após a eleição. Mas por que isso deveria ser interpretado como demonstração de força do PT?
O próprio governo norte-americano atravessa uma crise política. Trump chegou às eleições legislativas de 3 de novembro com sua popularidade em queda, enfrentando oposição crescente e problemas econômicos internos. Pesquisa do Pew Research Center divulgada em outubro apontou apenas 30% de aprovação ao presidente.
Além disso, Trump continua dispondo de instrumentos econômicos, diplomáticos e políticos para pressionar o Brasil. Flávio Bolsonaro encontra-se nos Estados Unidos, onde possui aliados influentes. O governo norte-americano autorizou sua entrada e não havia reconhecido formalmente a vitória de Lula até o final de outubro.
Mais importante ainda é observar o resultado das próprias eleições brasileiras.
Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, correspondentes a 48,21% dos votos válidos. Ficou a pouco mais de quatro milhões de votos de Lula. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara, além de 19 senadores e seis governadores.
Que espécie de derrota definitiva é essa?
Se o bolsonarismo estivesse politicamente liquidado, não teria demonstrado uma força eleitoral dessa magnitude. A derrota presidencial não eliminou suas organizações, seus parlamentares, seus governos estaduais, sua influência sobre setores das Forças Armadas e das polícias, nem suas relações internacionais.
O que aconteceu foi uma derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro, não o desaparecimento do movimento político que o sustenta.
A confusão entre as duas coisas serve para esconder o problema fundamental: o PT não possui uma política capaz de derrotar o bolsonarismo em suas bases sociais.
Sua principal arma não é a mobilização independente dos trabalhadores, nem uma política de enfrentamento aos capitalistas. É a polícia, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal.
Em vez de combater o bolsonarismo politicamente, a esquerda governista deposita suas esperanças nas decisões de Alexandre de Moraes, nas investigações policiais, na cassação de direitos e nas prisões.
Quanto mais o bolsonarismo é tratado exclusivamente como um problema policial, mais seus dirigentes conseguem apresentar-se diante de seus apoiadores como vítimas de perseguição.
Poucos minutos depois do resultado eleitoral, a Polícia Federal já solicitava medidas restritivas contra o candidato derrotado. Moraes determinou a entrega dos passaportes. Agora, o candidato derrotado encontra-se no exterior, denunciando o Judiciário brasileiro e buscando apoio internacional.
A população brasileira não tem qualquer motivo para identificar Alexandre de Moraes ou os ministros do STF com a defesa de seus interesses. São representantes de um dos poderes do Estado burguês, responsáveis por decisões que atingem diretamente a vida política do País.
Acreditar que esse aparelho eliminará a extrema direita é uma ilusão. A Justiça não vai substituir a luta política dos trabalhadores.
O bolsonarismo sairá fortalecido dessa experiência. Seus dirigentes podem transformar medidas judiciais em denúncias de perseguição, organizar campanhas em defesa de seus integrantes e conquistar apoio entre setores descontentes com o governo.
O problema se agrava porque o PT não oferece uma alternativa social à direita.
A tarefa não é comemorar uma derrota imaginária do inimigo, mas construir uma política capaz de combatê-lo efetivamente. E isso só será possível com a mobilização dos trabalhadores contra a burguesia, não com sua subordinação ao Estado, aos banqueiros e aos tribunais.





