A economista e professora da USP Leda Paulani publicou no Brasil 247 o artigo O levante da sociedade civil, no qual atribui a reeleição de Lula a uma mobilização espontânea de estudantes, militantes digitais e cidadãos contrários a Flávio Bolsonaro. A eleição teria sido uma vitória de Davi contra Golias, do coletivo contra o individualismo neoliberal e do povo contra os interesses materiais mais poderosos do País.
A explicação deixa de fora precisamente os grupos que detêm o poder econômico e político. A autora menciona manifestações, panfletos, caronas e redes sociais, mas não examina por que setores importantes da burguesia, da imprensa e dos partidos tradicionais trabalharam pela reeleição.
A classe dominante desaparece. Surge em seu lugar a entidade abstrata chamada “sociedade civil”. Nela cabem banqueiros e bancários, patrões e assalariados. Apresentá-los como parte do mesmo levante dissolve o antagonismo de classe numa celebração sentimental. A eleição, porém, não foi um seminário sobre a recuperação do espírito comunitário. Foi uma disputa pelo controle do Estado capitalista.
Quem acompanhou a campanha viu a composição da frente que sustentou Lula. Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, apareceu como garantia de continuidade para o empresariado. Um manifesto de apoio reuniu Rubens Ricupero, Aloysio Nunes, Miguel Reale Júnior e Eduardo Giannetti. Na propaganda eleitoral, o general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, atacou o bolsonarismo. Fátima Bernardes fez um apelo ao eleitor que não se identificava com o PT. Onde está a insurreição operária nessa coligação?
Também é preciso falar da Globo. Paulani escreve que a grande imprensa teria protegido o adversário de Lula, como se a campanha não tivesse contado com a projeção de artistas ligados à emissora. Atrizes, apresentadores e personalidades da televisão declararam apoio ao presidente ou comemoraram sua vitória.
O contraste é ainda mais evidente no Judiciário. Paulani descreve o presidente do TSE como partidário de Flávio, mas silencia sobre a ação do STF após a eleição. Ainda no domingo da votação, a Polícia Federal pediu medidas restritivas contra o candidato derrotado. Alexandre de Moraes determinou a entrega e o cancelamento de passaportes e a proibição de deixar o País. A PF alegou risco de saída e investigações em andamento; Flávio contestou a medida. Qualquer análise séria teria de discutir seus fundamentos e sua oportunidade política. Não poderia apresentar o Judiciário como um aparelho exclusivamente favorável ao bolsonarismo.
A reação da imprensa também deveria interessar a uma economista. No dia 26 de outubro, a Folha publicou editorial dizendo que Lula ganhava uma nova chance de corrigir seu governo. No dia seguinte, discutia as exigências do mercado financeiro. O Globo noticiava a composição da equipe ministerial e a imprensa registrava a aproximação com a direção do Congresso.
Paulani invoca Pierre Dardot e Christian Laval para anunciar uma vitória contra o “sujeito neoliberal”. Mas o que foi derrotado do neoliberalismo? O arcabouço fiscal permanece em vigor. Os banqueiros continuam exigindo superávit, juros e contenção de despesas. Alckmin prometera a empresários que Lula perseguiria o superávit fiscal. Nenhum teórico francês pode substituir o exame da política econômica do governo.
A tarefa da esquerda não é converter uma frente ampla em triunfo moral da humanidade, mas explicar quem a sustenta e a quem seu governo deve prestar contas. Sem isso, o anunciado triunfo sobre o neoliberalismo terminará, mais uma vez, com os trabalhadores pagando a conta.




