Márcia Carmo publicou no Brasil 247 um artigo intitulado A fuga de Flávio Bolsonaro e o isolamento de Milei no qual apresenta uma interpretação bastante distorcida da situação política latino-americana. Segundo a jornalista, Javier Milei estaria isolado entre os presidentes da direita por não ter reconhecido imediatamente a vitória de Lula nas eleições brasileiras. O argumento é tão frágil que basta observar o mapa político do continente para perceber o problema: quem está na defensiva é a esquerda, não a direita.
A autora transforma um episódio diplomático em demonstração de força política. O fato de presidentes de direita reconhecerem a vitória eleitoral de Lula não significa que tenham abandonado suas posições, muito menos que estejam se aproximando politicamente da esquerda. Governos de orientações políticas opostas mantêm relações diplomáticas, negociam acordos comerciais e reconhecem os resultados eleitorais uns dos outros. Isso não os transforma em aliados.
A pergunta que deveria orientar a análise é outra: qual é a situação da esquerda na América Latina? E a resposta não é nada parecida com a imagem otimista apresentada por Márcia Carmo.
A América Latina atravessa uma mudança importante na correlação de forças. A direita conquistou governos em países fundamentais, como Argentina, Chile, Bolívia, Colômbia e Peru. Equador e Paraguai também estão sob governos desse campo político. O resultado é uma presença amplamente majoritária da direita e da centro-direita na região.
A reeleição de Lula não altera essa tendência. É justamente uma exceção dentro de uma onda conservadora que avançou sobre o continente. Não há, portanto, motivo para apresentar o reconhecimento da vitória brasileira por parte de governos direitistas como uma derrota política de Milei.
A jornalista também menciona o reconhecimento da vitória de Lula por Nayib Bukele, de El Salvador, como se isso representasse algum tipo de constrangimento para Milei. Mas Bukele não se tornou um aliado da esquerda por cumprimentar o presidente brasileiro. Sua política continua sendo a de um governo de direita, com uma política aberrantemente repressiva.
O problema da análise de Márcia Carmo é ainda mais grave porque ela ignora a situação dos próprios governos de esquerda. O caso venezuelano é especialmente revelador.
A Venezuela representa uma experiência muito mais à esquerda do que o governo Lula. Entretanto, atravessa uma situação de enorme defensiva diante do imperialismo norte-americano. Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, em uma operação que representou uma agressão direta à soberania venezuelana. Desde então, o governo de Delcy Rodríguez enfrenta uma pressão brutal dos norte-americanos, com negociações e concessões em áreas fundamentais, inclusive no controle e na comercialização do petróleo venezuelano.
A situação é tão grave que o próprio governo norte-americano passou a interferir diretamente nos rumos da economia e da política do país. O imperialismo conseguiu impor condições que dificilmente seriam imaginadas em um período de maior força do chavismo.
Esse é o quadro que deveria merecer atenção de uma jornalista interessada na correlação de forças latino-americana. A Venezuela, muito mais à esquerda do que o governo brasileiro, encontra-se em uma situação de recuo diante dos Estados Unidos. Não se trata de uma particularidade venezuelana, mas de uma demonstração da ofensiva imperialista contra os países da região.
O governo brasileiro é um exemplo dessa política de adaptação. Márcia Carmo apresenta Lula como uma espécie de referência de resistência diante da direita continental. Mas qual é a política efetiva de seu governo?
Lula já recuou diversas vezes diante de Donald Trump. Quando os Estados Unidos impuseram tarifas contra produtos brasileiros, o governo procurou resolver o conflito por meio de negociações e concessões diplomáticas, evitando qualquer enfrentamento consequente. A orientação foi buscar um entendimento com a Casa Branca, mesmo diante de medidas unilaterais que atingiam diretamente a economia nacional.
O governo brasileiro insiste em apresentar essa política como defesa da soberania. Na prática, porém, trata-se de uma tentativa de conciliar os interesses nacionais com as exigências do imperialismo, sem romper com os mecanismos de dominação econômica e política exercidos pelos Estados Unidos.
A política econômica interna segue a mesma orientação de adaptação aos interesses do grande capital. O governo mantém o arcabouço fiscal, estabelece limites para os gastos públicos e submete os investimentos sociais à busca do equilíbrio das contas. O próprio Ministério da Fazenda anunciou a continuidade do esforço fiscal e a necessidade de novos cortes de despesas para os próximos anos.
A realidade é que Lula não representa uma alternativa de enfrentamento ao imperialismo. Seu governo procura administrar o capitalismo brasileiro dentro dos limites impostos pelo grande capital financeiro e pelas relações de dependência com os Estados Unidos. A política de ajuste fiscal não é um acidente, mas uma expressão dessa orientação.
O isolamento que importa não é o de um presidente que demora a cumprimentar outro. É o isolamento político das forças populares, que não encontram nos governos que se dizem de esquerda uma política consequente de combate ao imperialismo e à burguesia.





