O governo Lula assinou, em 20 de outubro, um contrato de gestão com uma organização privada para a implantação do chamado Hospital Inteligente do Sistema Único de Saúde (SUS), que será construído no complexo do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). O acordo, firmado pelo Ministério da Saúde, comandado por Alexandre Padilha, prevê um orçamento de aproximadamente R$1,95 bilhão nos primeiros quatro anos e beneficia uma entidade criada apenas sete meses antes da assinatura.
A organização escolhida foi o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente do Brasil (ITMI), presidido pela cardiologista Ludhmilla Hajjar. Seu CNPJ foi registrado em 4 de março de 2026, quatro meses antes da divulgação do resultado do chamamento público que selecionou a entidade.
O empreendimento também contará com um empréstimo de US$320 milhões, equivalente a aproximadamente R$1,76 bilhão, concedido pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, presidido pela ex-presidenta Dilma Rousseff.
A entrega de atividades de gestão do novi hospital a uma organização social de saúde (OSS) já havia sido denunciada em agosto pela Associação dos Docentes da USP (Adusp). Enquanto o governo apresentou o empreendimento como um avanço tecnológico do SUS, os professores denunciaram a transferência de serviços financiados pelo Estado para uma associação privada formada especialmente para disputar o contrato.
O Chamamento Público nº 14/2026 estabeleceu um contrato de gestão com duração de dez anos, prorrogáveis. Segundo os dados publicados pela Adusp, o edital prevê desembolsos de R$505,1 milhões no primeiro ano, R$923,4 milhões no segundo, R$455,1 milhões no terceiro e R$45 milhões no quarto. Os valores anuais divulgados somam R$1,9286 bilhão, enquanto o montante global foi apresentado como R$1,95 bilhão.
O ITMI venceu a concorrência com 63,41 pontos, superando a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), que obteve 57,34. Outras duas participantes foram desclassificadas. O resultado preliminar foi publicado no Diário Oficial da União em 24 de julho.
A direção do ITMI reúne professores da Faculdade de Medicina da USP que ocuparam importantes cargos públicos. Além de Hajjar, participam da entidade o ex-reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr., o ex-secretário estadual da Saúde Giovanni Guido Cerri e Tarcísio Eloy Pessoa de Barros Filho, ex-diretor da Faculdade de Medicina e vice-presidente da Fundação Faculdade de Medicina (FFM), entidade privada.
A própria Hajjar apresentou ao Ministério da Saúde o projeto do Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), nome oficial do Hospital Inteligente. Posteriormente, tornou-se presidente da organização que venceu a seleção para apoiar sua gestão.
A Adusp denunciou o procedimento em nota publicada em agosto:
>“Não deixa de ser estarrecedor, mesmo no admirável mundo novo do neoliberalismo, que o Ministério da Saúde tenha decidido confiar a gestão do novo equipamento a uma ‘organização social de saúde’; que Ludhmila tenha constituído uma ‘pré-OSS’, o ITMI, com o intuito de disputar a gestão do projeto; que dito ITMI tenha sido declarado vencedor do chamamento público; e que outros três docentes da FM-USP com passagem por importantes cargos públicos, inclusive um ex-reitor, se disponham a fazer parte da empreitada privatizante.”
A escolha também fortalece a participação de entidades privadas na administração de serviços ligados à USP. A Fundação Faculdade de Medicina, da qual participa um dos dirigentes do ITMI, já atua na gestão de serviços do Hospital das Clínicas. A presença dessas fundações foi um dos motivos das mobilizações estudantis realizadas no primeiro semestre.
O projeto anunciado pelo Ministério da Saúde prevê a construção de um hospital com aproximadamente 800 leitos, sendo 250 de emergência, 350 de UTI e 200 de enfermaria. A unidade terá 25 salas cirúrgicas, capacidade estimada para 27 mil cirurgias anuais e poderá receber até 190 mil internações por ano.
O início das operações está previsto para o segundo trimestre de 2029.
Segundo o governo, o hospital utilizará inteligência artificial para auxiliar no acompanhamento dos pacientes, organizar a ocupação dos leitos e identificar antecipadamente possíveis complicações clínicas. O projeto também prevê ambulâncias conectadas à rede 5G, prontuários eletrônicos integrados e leitos que poderão ser adaptados de enfermaria para UTI.
Durante a assinatura do contrato, Padilha defendeu a participação de instituições privadas na incorporação das novas tecnologias ao SUS.
“O que tem de mais moderno, o que tem de mais avançado, com evidência científica consolidada, tem que estar no Sistema Único de Saúde. E é importante fazer com que a incorporação tecnológica da inteligência artificial, da ultra conexão dos equipamentos, da melhor gestão dos dados, seja liderada pelo SUS. De forma compartilhada com o setor privado, com a saúde complementar, com a indústria, mas liderada pelo SUS.”
A política de transferência de recursos públicos a instituições privadas não se limita ao Hospital Inteligente. No mesmo dia da assinatura do contrato, o Ministério da Saúde renovou os acordos do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS) para o período de 2027 a 2029.
Sete hospitais privados participarão do programa, entre eles Sírio-Libanês, Einstein e Hcor. Segundo o governo, as instituições terão imunidade tributária estimada em R$3,95 bilhões no triênio, 18,6% acima do período anterior.





