Brasil

Lula convida apoiadores de Flávio para o governo

PP, União Brasil e Republicanos já admitem negociar com o governo que os petistas apresentaram como a salvação contra o fascismo

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu gabinete

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma ampla reforma ministerial para seu quarto mandato, que começará em janeiro de 2027. A reorganização da Esplanada deverá envolver negociações com o PP, o União Brasil e o Republicanos, partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. Menos de uma semana depois da vitória de Lula, lideranças dessas legendas já sinalizaram disposição para retomar as conversas com o Palácio do Planalto.

As informações foram publicadas neste domingo (1º) pelo R7, pela Jovem Pan e pelo jornal O Globo. Segundo os veículos, Lula pretende modificar boa parte de sua equipe, acomodar antigos ministros derrotados nas eleições e distribuir cargos entre os partidos que deverão integrar sua base parlamentar.

A negociação com o Centrão ocorre depois de uma campanha na qual o PT e seus aliados apresentaram a disputa contra Flávio Bolsonaro como uma batalha entre a democracia e o fascismo. Terminada a eleição, os partidos que apoiaram o candidato do PL passaram a ser considerados para participar do governo da chamada frente ampla.

A reforma será a segunda grande alteração da equipe ministerial em menos de um ano. Entre março e abril, 18 cargos mudaram de comando porque seus titulares deixaram o governo para disputar as eleições. Na maioria dos casos, Lula nomeou integrantes das próprias equipes para substituí-los.

Antes dessas mudanças, o PT ocupava 11 dos 38 cargos ministeriais. Outros sete estavam nas mãos de representantes do MDB, PSD, PP e Republicanos. O PSD contava com Carlos Fávaro, Alexandre Silveira e André de Paula. O MDB tinha Jader Filho e Renan Filho, enquanto André Fufuca representava o PP e Silvio Costa Filho, o Republicanos.

Segundo o R7, a negociação com essas legendas deverá definir se Lula preservará os espaços que já ocupavam ou se exigirá compromissos mais claros de apoio no Congresso. A questão ganhou importância depois das eleições, que deram ao PL a maior bancada do Senado a partir de 2027.

A reportagem informou que lideranças do PP, União Brasil e Republicanos sinalizaram disposição para voltar a negociar com o governo, mas não identificou quais dirigentes fizeram essas manifestações.

Casa Civil e Fazenda são as principais disputas

Entre os cargos mais importantes em discussão estão a Casa Civil e o Ministério da Fazenda, atualmente comandados por Miriam Belchior e Dario Durigan, respectivamente.

O senador Camilo Santana (PT-CE), que deixou o Ministério da Educação para atuar na campanha presidencial, é um dos principais cotados para a Casa Civil. Sua participação no segundo turno aumentou sua influência junto a Lula. Fernando Haddad, derrotado na disputa pelo governo de São Paulo, também é mencionado, embora tenha perdido espaço nas articulações.

Segundo O Globo, Haddad passou a ser considerado para o Ministério das Relações Exteriores. Pessoas próximas ao ex-ministro afirmaram, porém, que ele também cogita voltar a dar aulas na Universidade de São Paulo e permanecer fora do governo.

Na Fazenda, os nomes mais citados são os de Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente da República, e Rafael Fonteles (PT), governador reeleito do Piauí.

Fonteles recebeu 70,9% dos votos válidos no primeiro turno. Sua eventual nomeação exigiria que deixasse o governo estadual, que seria assumido pelo vice, Washington Bandeira.

O governador, entretanto, negou na quinta-feira (29) ter conversado com Lula ou com qualquer outro interlocutor sobre a possibilidade de assumir um cargo no governo federal. Também afirmou desconhecer uma eventual visita do presidente ao Piauí para discutir o assunto.

A Jovem Pan informou, com base em fontes do governo, que Durigan não deverá continuar à frente da Fazenda. A escolha de seu sucessor ocorre sob pressão do capital financeiro. Segundo O Globo, Fonteles passou a ser cotado um dia depois da vitória de Lula, quando a Bolsa registrou forte queda e os capitalistas cobraram garantias sobre a condução da política fiscal.

Derrotados nas eleições poderão voltar ao governo

Vários antigos ministros que perderam as eleições também poderão receber cargos no novo governo.

Simone Tebet (PSB), derrotada na disputa pelo Senado em São Paulo, é considerada uma das candidatas a retornar ao primeiro escalão. Segundo a Jovem Pan, Lula pretende reconhecer sua participação na campanha presidencial, especialmente no segundo turno. A pasta que ela poderia assumir ainda não foi definida.

Tebet chegou a ser mencionada para uma futura vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), mas essa possibilidade perdeu força. A ministra Daniela Teixeira, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), seria considerada uma candidata com maiores possibilidades de aprovação pelo Senado.

Gleisi Hoffmann (PT), Marina Silva, Carlos Fávaro e Márcio França (PSB) também ficaram sem mandato depois das eleições. Renan Filho, derrotado em Alagoas, está na mesma situação. Entre os antigos ministros eleitos estão Rui Costa e André Fufuca, que conquistaram vagas no Senado, e Jader Filho, Silvio Costa Filho, Anielle Franco e Sônia Guajajara, eleitos deputados federais.

O PSB pretende ampliar sua participação na Esplanada. Segundo a Jovem Pan, o partido espera controlar pelo menos dois ministérios e tem interesse especial na pasta da Ciência, Tecnologia e Inovação, atualmente ocupada por Luciana Santos, do PCdoB.

O principal nome mencionado para o cargo é João Campos, presidente nacional do PSB. Ex-prefeito do Recife, Campos foi derrotado por Raquel Lyra (PSD) na disputa pelo governo de Pernambuco. A legenda deverá apresentar sua indicação nas primeiras negociações formais com Lula.

A frente ampla depois das eleições

A composição do quarto governo Lula demonstra a contradição da política eleitoral defendida pelo PT. Os partidos que foram apresentados como aliados do fascismo durante a campanha poderão receber ministérios poucas semanas depois da votação.

PP, União Brasil e Republicanos continuam representando os mesmos interesses dos grandes capitalistas que defendiam antes da eleição. Seu apoio a Flávio Bolsonaro não impediu que passassem a negociar com o presidente reeleito.

A política do PT, portanto, não consiste em combater esses setores da burguesia, mas em procurar um acordo com eles para assegurar a sustentação parlamentar do governo.

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