Aqueles que se apresentaram como grandes combatentes do fascismo e que passaram semanas fazendo campanha pela reeleição de Lula já guardaram a viola no saco. Neste domingo (1º), a União Nacional dos Estudantes (UNE) convocou manifestações em 11 estados e no Distrito Federal sob o lema “Brasil com S”. Os atos haviam sido planejados inicialmente para comemorar a vitória de Lula, mas foram reorientados para protestar contra o exílio de Flávio Bolsonaro. O resultado foi uma mobilização insignificante diante da propaganda feita pela esquerda durante a campanha eleitoral.
Em São Paulo, o ato começou às 12h, na praça Roosevelt, com dezenas de pessoas. No Rio de Janeiro, na Candelária, a manifestação também foi várias vezes menor do que as realizadas antes do segundo turno. O suposto movimento de massas que teria tomado conta do País durante a campanha desapareceu tão logo terminou a disputa eleitoral.
O ministro Guilherme Boulos, do PSOL, havia declarado à Folha de S.Paulo que o governo precisaria governar também com as ruas e as redes sociais. Na mesma entrevista, denunciou uma suposta “chantagem do mercado” em torno do ajuste fiscal e afirmou que os cortes deveriam atingir privilégios, não os trabalhadores. O ato de domingo, entretanto, mostrou o tamanho da disposição dessa esquerda para colocar em prática o discurso.
A esquerda pequeno-burguesa ainda fala do ajuste fiscal porque o assunto está em evidência, mas praticamente nada se diz sobre a política de privatizações do governo Lula. Tampouco existe uma campanha consequente contra a repressão policial e os ataques aos trabalhadores. A esquerda que se apresentou como grande força antifascista durante a eleição não pretende combater a política do governo que ajudou a eleger.
O caso dos Correios é bastante esclarecedor. Em 2023, Lula retirou a empresa do Programa Nacional de Desestatização, no qual Bolsonaro havia incluído a estatal. A medida foi apresentada como uma interrupção da privatização. Três anos depois, porém, a direção dos Correios contratou o escritório Pinheiro Neto por R$7,097 milhões para estudar a transformação da empresa em sociedade de economia mista e uma possível oferta de ações na Bolsa.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia declarado que não tinha problema em discutir a divisão das atividades dos Correios com empresas privadas, por meio de joint ventures e outras parcerias.
]Na saúde, a política é semelhante. O chamado Hospital Inteligente, anunciado pelo Ministério da Saúde como uma iniciativa de modernização do SUS, será administrado por uma Organização Social de Saúde, o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente do Brasil (ITMI). Criada em março de 2026, a entidade recebeu a gestão do projeto, cujo contrato prevê R$1,95 bilhão em quatro anos.
Na Petrobrás, a participação privada também continua sendo um problema. A empresa terminou o primeiro semestre de 2026 com US$16,6 bilhões de lucro líquido. Apesar disso, a riqueza produzida pelos trabalhadores brasileiros continua sendo destinada aos acionistas particulares.
E onde está a esquerda que fez campanha contra o fascismo? Onde estão os dirigentes que diziam que milhões de pessoas haviam tomado as ruas para defender a democracia? Não há mobilização proporcional contra a entrega dos Correios, contra a privatização da gestão de hospitais públicos ou contra a transferência da riqueza da Petrobrás para investidores particulares.
O motivo da paralisia fica ainda mais evidente quando se observa a composição política da campanha de Lula. A apresentadora Angélica declarou voto no petista e afirmou que encontrou inspiração nos jovens que foram às ruas durante a eleição. Seu marido, Luciano Huck, entretanto, já havia defendido abertamente a privatização da Eletrobrás. Em 2021, classificou a operação como “corretíssima”.
Não há contradição nisso. A direita que apoiou Lula não deixou de ser defensora dos interesses dos capitalistas. Simplesmente considerou que, naquela eleição, o petista era o candidato mais adequado aos seus interesses. A questão é que setores da esquerda se juntaram a essa mesma política e passaram a apresentar a aliança eleitoral como uma grande mobilização antifascista.
Uma campanha consequente contra as privatizações, a política econômica e a repressão do Estado colocaria esses setores em oposição ao próprio governo que sustentaram nas urnas. Por isso, preferem falar genericamente em chantagem dos banqueiros e pressão do mercado, como se Lula fosse apenas uma vítima das circunstâncias.
O ato da UNE mostrou o resultado dessa política. A mobilização que supostamente havia levado milhões de pessoas às ruas não conseguiu reunir um público expressivo nem mesmo para comemorar a vitória eleitoral e protestar contra Flávio Bolsonaro. A campanha terminou, e os dirigentes que prometiam manter o povo mobilizado não têm uma política de luta para oferecer.





