Moisés Mendes publicou no Brasil 247 um artigo no qual procura explicar a situação política da família Bolsonaro por meio de uma interpretação bastante peculiar: os Bolsonaro estariam destruindo a própria extrema direita porque seriam grosseiros, trapalhões, extravagantes e incapazes de sustentar os personagens que representam. O jornalista chega a defender que o legado da família seja contado como uma espécie de comédia política, uma história de fracassos e vexames que terminaria na folclorização do bolsonarismo.
O problema dessa análise é que ela substitui a política pela moral. Em vez de examinar as relações sociais que sustentam a direita, sua base de apoio, seus interesses de classe e as condições políticas que permitem sua existência, Mendes prefere fazer uma avaliação dos modos da família. É como se a força de um movimento político pudesse ser medida pela elegância de seus representantes.
A grosseria dos Bolsonaro, entretanto, não é nenhuma novidade, muito menos uma característica exclusiva da família. Trata-se de um comportamento amplamente disseminado na direita brasileira. Seus representantes não são conhecidos pela elegância no trato com adversários, trabalhadores, jornalistas ou qualquer setor da população que considerem inimigo.
Seria preciso, portanto, explicar por que o comportamento dos Bolsonaro deveria ser considerado uma anomalia capaz de comprometer toda a extrema direita. O próprio campo político que Mendes aparentemente pretende defender está repleto de figuras que empregam os mesmos métodos. Governadores, parlamentares, empresários e representantes das instituições não precisam pertencer à família Bolsonaro para recorrer à intimidação, à arrogância e à violência verbal. Basta assistir a qualquer debate de Geraldo Alckmin, na época em que era do PSDB, contra Lula.
A burocracia petista tampouco pode ser apresentada como um exemplo de refinamento político. O governo e seus representantes estão longe de constituir um contraponto moral à direita. A relação de integrantes de diferentes governos e setores políticos com o Banco Master, por exemplo, mostra isso.
Mendes também apresenta como evidência da decadência bolsonarista a sucessão de derrotas eleitorais e o fracasso da “tentativa de golpe”. Mas uma derrota política não significa necessariamente a destruição da força social de um movimento. A extrema direita continua existindo porque não depende exclusivamente da família Bolsonaro. Ela possui vínculos com setores empresariais, com parcelas do aparelho de Estado, com setores religiosos, com o latifúndio e com uma parcela expressiva da população. Ridicularizar seus representantes não elimina nenhuma dessas relações.
Há ainda uma questão que o jornalista praticamente ignora: os Bolsonaro não estão simplesmente atravessando um processo espontâneo de degradação. São alvo de uma ofensiva política e judicial que precisa ser considerada para compreender sua situação. A prisão de Jair Bolsonaro, as restrições impostas à sua atuação política e as medidas que atingem seus familiares e aliados constituem elementos centrais da luta política nacional.
Mendes prefere interpretar as reações da família como uma sequência de vexames. Entretanto, aquilo que um setor da população enxerga como comportamento ridículo pode ser apresentado por outro como resistência a uma perseguição. Essa diferença de interpretação é fundamental.
A imagem de alguém enfrentando o poder das instituições pode ser explorada politicamente, sobretudo quando existe uma desconfiança disseminada em relação ao Judiciário e ao funcionamento do regime.
Há dados concretos que mostram que essa dimensão não pode ser descartada. Em pesquisa Datafolha divulgada em julho de 2026, 59% dos entrevistados consideraram que Alexandre de Moraes agiu mal ao proibir Flávio Bolsonaro de visitar o pai, contra 36% que avaliaram positivamente a decisão.
Em agosto, levantamento Genial/Quaest também identificou uma reação expressiva à proibição da visita: 52% dos entrevistados consideraram a decisão errada, enquanto 41% a aprovaram. Entre bolsonaristas, a percepção de “exagero institucional” chegava a 92%. Portanto, há um fenômeno político que não pode ser explicado pela simples transformação dos Bolsonaro em personagens de comédia.
O artigo de Mendes chega a outra contradição. Ao mesmo tempo que afirma que a família perdeu força por suas atitudes, reconhece que ela continua contando com o apoio de Donald Trump e que os grandes grupos econômicos, setores da imprensa e organizações políticas contribuíram para sua ascensão. Ora, se existe uma estrutura social e econômica por trás do bolsonarismo, por que sua suposta decadência seria explicada principalmente pelas trapalhadas de seus integrantes?
A imprensa tradicional tem uma longa história de apresentar as disputas políticas como conflitos entre personalidades, temperamentos e comportamentos. É uma maneira de esconder os interesses que estão por trás dos acontecimentos. No caso dos Bolsonaro, isso significa trocar a análise de sua base social, de suas alianças e de suas relações com o Estado por uma coleção de episódios pitorescos.
Enquanto as condições sociais e políticas que alimentam o bolsonarismo permanecerem, a tentativa de reduzi-lo a uma família de trapalhões será apenas uma forma de evitar o problema real.





