A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet (PSB-SP) entrou na lista de possíveis indicadas ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a coluna de Mônica Bergamo, publicada neste sábado (31) na Folha de S.Paulo, apoiadores da ex-ministra já apresentaram seu nome ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A articulação ocorreu poucos dias depois de Tebet perder a eleição para o Senado por São Paulo.
De acordo com a reportagem, aliados de Lula afirmaram que o presidente pretende indicar ao menos uma mulher para o tribunal durante seu novo mandato. Não há, entretanto, decisão sobre quem será escolhida ou qual vaga será destinada à indicação. A ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Daniela Teixeira também está entre os nomes mencionados.
O presidente poderá indicar três ministros até o final de seu mandato. A primeira vaga está aberta desde outubro de 2025, quando Luís Roberto Barroso deixou o STF. Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para substituí-lo, mas o Senado rejeitou a indicação. O presidente já sinalizou que pretende apresentar novamente o nome de Messias.
Outras duas vagas serão abertas com as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, em abril de 2028, e de Cármen Lúcia, em abril de 2029. O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Rodrigo Pacheco também é cotado para o Supremo. Sua candidatura tem o apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e de ministros do tribunal.
A entrada de Tebet na disputa ocorre depois de duas derrotas eleitorais e de sua passagem pelo governo Lula. A política neoliberal, que não conseguiu conquistar o apoio popular necessário para chegar aos cargos que pretendia, procura agora uma nomeação que lhe permitiria permanecer no poder até completar 75 anos.
Da derrota eleitoral ao ministério
Simone Tebet fez carreira no MDB, partido tradicional da burguesia brasileira. Foi prefeita de Três Lagoas, vice-governadora de Mato Grosso do Sul e senadora pelo mesmo estado. É ligada aos grandes proprietários rurais e defende uma política econômica favorável aos capitalistas.
Em 2022, disputou a Presidência da República pelo MDB, apresentando-se como alternativa a Lula e a Jair Bolsonaro. Sua candidatura recebeu 4,16% dos votos válidos, terminando em terceiro lugar, muito distante dos dois principais candidatos.
Depois da derrota, Tebet declarou apoio a Lula no segundo turno. A adesão garantiu-lhe um lugar na campanha petista e, posteriormente, o Ministério do Planejamento e Orçamento.
A ex-senadora não precisou abandonar suas posições neoliberais para participar do governo. Pelo contrário, o próprio governo Lula adotou uma política econômica baseada no controle das despesas públicas e na manutenção das restrições fiscais exigidas pelos grandes capitalistas.
Tebet foi uma das principais defensoras dessa orientação. À frente do Planejamento, participou da administração do orçamento federal sob as regras do arcabouço fiscal, que limita o crescimento das despesas públicas.
Sua presença no ministério demonstrou que o PT estava disposto a entregar cargos importantes a representantes da direita tradicional em troca de apoio político. A aliança não transformou Tebet numa representante dos trabalhadores. Permitiu apenas que uma adversária eleitoral de Lula participasse da administração petista.
Nas eleições deste ano, a ex-ministra tentou conquistar uma cadeira no Senado por São Paulo, mas foi derrotada. Agora, seu nome aparece entre os possíveis indicados ao Supremo, cargo que não depende de uma eleição popular.
Uma inimiga dos índios
A possível indicação também chama a atenção pelo histórico da ex-senadora em relação aos direitos dos índios.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) já apontou a atuação de Tebet entre os parlamentares contrários aos interesses indígenas. Sua carreira política esteve vinculada ao agronegócio, setor que mantém conflitos permanentes com os índios pela propriedade da terra.
A ligação com os grandes proprietários rurais é especialmente importante quando se discute uma possível nomeação ao STF. O tribunal decide questões fundamentais sobre a demarcação das terras indígenas, os direitos territoriais previstos na Constituição e os limites impostos à propriedade dos latifundiários.
Uma das principais disputas é a do marco temporal, defendido pelos grandes proprietários para impedir o reconhecimento de terras que não estivessem ocupadas pelos índios na data da promulgação da Constituição de 1988.
Os conflitos envolvendo a demarcação atingem diretamente os interesses do agronegócio, que procura ampliar seu domínio sobre enormes extensões de terra. A presença de uma representante desse setor no tribunal reforçaria a influência dos latifundiários sobre decisões que afetam os índios.
Reciclagem de lixo
A trajetória de Tebet é característica de um setor da burguesia que, sem condições de conquistar apoio popular suficiente para seus próprios candidatos, procura se apoiar no prestígio eleitoral de Lula.
André Janones representa outra manifestação dessa dependência. Depois de apresentar-se como político independente e disputar a Presidência em 2022, retirou sua candidatura para apoiar Lula. Passou, desde então, a procurar espaço nacional por meio da associação com o presidente e com a campanha petista.
Tebet representa um setor diferente. Sua carreira está ligada ao MDB, ao latifúndio e à direita neoliberal. Não se aproximou do PT por qualquer identidade com os interesses dos trabalhadores, mas porque a aliança lhe ofereceu oportunidades que não conseguiu conquistar por meio de sua própria candidatura presidencial.
A sequência dos acontecimentos é esclarecedora. Em 2022, disputou a Presidência contra Lula e perdeu. Depois, apoiou o petista e recebeu um ministério. Em 2026, tentou voltar ao Senado, sofreu outra derrota e, poucos dias depois, passou a ser cotada para o STF.
A indicação, caso ocorra, permitiria à ex-ministra superar as consequências de seu fracasso eleitoral. O PT serviria mais uma vez de apoio a uma representante da direita tradicional.
Uma neoliberal no Supremo
A eventual nomeação teria consequências políticas que vão muito além da carreira de Tebet.
O STF interfere diretamente em questões econômicas, trabalhistas e sociais. O tribunal decide processos sobre direitos dos trabalhadores, despesas públicas, propriedade privada e conflitos envolvendo grandes empresas.
Tebet chegaria ao Supremo com uma carreira marcada pela defesa da disciplina fiscal e dos interesses dos capitalistas. Sua passagem pelo Ministério do Planejamento não representou uma ruptura com essa política, mas sua aplicação dentro do governo Lula.
Não há motivos, portanto, para esperar que uma eventual ministra Simone Tebet se colocasse ao lado dos trabalhadores nos principais conflitos econômicos do País.
Sua indicação também demonstraria a falsidade de apresentar a escolha de uma mulher, por si só, como uma conquista dos setores explorados. Uma representante dos grandes proprietários e defensora do neoliberalismo não passa a defender os trabalhadores simplesmente porque ocupa uma vaga reservada a uma mulher.
A disputa pelas indicações demonstra ainda como funciona a escolha dos ministros do Supremo. Os candidatos são apresentados por grupos políticos, negociados com o Senado e escolhidos pelo presidente. Uma vez nomeados, recebem poderes para decidir sobre questões fundamentais para toda a população, sem depender do voto popular para permanecer no cargo.




