Entre 320 mil e 500 mil pessoas participaram neste sábado (31) da terceira jornada consecutiva de manifestações contra o aumento do custo de vida e em defesa dos serviços públicos na França. O Ministério do Interior contabilizou 320 mil manifestantes em todo o país, dos quais 70 mil em Paris. A Intersindical da Juventude anunciou quase 500 mil participantes, sendo 200 mil na capital francesa.
Os números representam uma redução em relação ao sábado anterior, 24 de outubro, quando o governo havia registrado 410 mil manifestantes, incluindo 110 mil em Paris. Os sindicatos calcularam, naquela ocasião, 800 mil participantes no país e 250 mil na capital. Apesar da queda, a terceira jornada voltou a reunir centenas de milhares de trabalhadores, estudantes e integrantes do movimento dos Coletes Amarelos contra a política do presidente Emmanuel Macron.
O governo respondeu com a mobilização de 70 mil policiais e gendarmes. Até as 21 horas, 565 pessoas haviam sido detidas em todo o país, segundo balanço provisório do Ministério do Interior. Na manifestação de 24 de outubro, o número de detenções chegou a 1.435. As autoridades também realizaram 40 mil controles de pessoas, dos quais 15 mil na região parisiense.
Em Paris, a polícia proibiu o percurso tradicional entre as praças da Bastilha e da Nação, escolhido pelos organizadores. A decisão recebeu o aval do Conselho de Estado, obrigando os manifestantes a seguir da Porte de Bagnolet até a Porte de Charenton, na região leste da cidade. Mais de 40 estações de metrô foram fechadas.
O aparato policial tinha como objetivo impedir que os manifestantes ocupassem os principais pontos da capital. Mesmo após a alteração do percurso, ocorreram confrontos durante a dispersão, quando a polícia utilizou gás lacrimogêneo e realizou cargas contra grupos de manifestantes.
Na região da Porte de Charenton, as autoridades afirmaram que entre 200 e 300 pessoas lançaram pedras e artefatos incendiários contra os policiais. Segundo a prefeitura de polícia, quatro policiais e um gendarme ficaram feridos.
Em Marselha, aproximadamente 10 mil pessoas participaram de uma manifestação que não havia sido autorizada. Após duas horas de protesto, ocorreram confrontos no boulevard Chave. Em Lyon, onde a polícia contabilizou 19 mil participantes, também houve enfrentamentos durante a dispersão, na praça Jean-Macé.
A mobilização atingiu dezenas de outras cidades. Em Rennes, 13.500 pessoas participaram segundo a prefeitura, enquanto a Federação Sindical Unitária (FSU) anunciou 25 mil. Em Bordeaux, a diferença foi ainda maior: 11 mil manifestantes segundo a polícia e 70 mil segundo os sindicatos. Também ocorreram protestos em Lille, Estrasburgo, Grenoble, Nantes e Toulouse.
Toque de recolher e ameaças do governo
A repressão continuou durante a noite. Em Paris, o governo impôs toque de recolher na praça da República e na região de Les Halles, das 23 horas às 6 horas. A medida foi estendida à noite de domingo para segunda-feira. Restrições semelhantes foram adotadas em Marselha, Grenoble, Avignon, Bordeaux e Tours.
Na praça do Trocadéro, policiais dispersaram aproximadamente 200 jovens e utilizaram gás lacrimogêneo. Até as 21 horas, a prefeitura de polícia havia registrado 79 detenções e 5.745 controles em Paris.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, responsabilizou grupos da chamada “ultraesquerda” pelos confrontos. Embora tenha reconhecido que as manifestações autorizadas transcorreram sem grandes incidentes, denunciou uma suposta “violência inaudita” contra as forças de segurança.
Nuñez classificou o lançamento de um coquetel molotov contra um gendarme como “tentativa de homicídio”. Por volta das 19h45, advertiu que “a jornada não terminou” e anunciou o deslocamento de efetivos policiais para proteger os centros das cidades contra novas concentrações.
O governo utilizou os confrontos para justificar medidas que atingiram o conjunto dos manifestantes. A proibição de percursos, o fechamento de estações de metrô, os controles policiais e o toque de recolher impediram a livre circulação da população em diferentes regiões.
Trata-se da política de um governo que se apresenta como defensor da democracia, mas mobiliza dezenas de milhares de policiais quando trabalhadores e estudantes saem às ruas para exigir melhores condições de vida.
Greves e bloqueios estão marcados para novembro
As manifestações tiveram como principais reivindicações o aumento dos salários, a melhoria dos serviços públicos e a ampliação dos investimentos na educação. Os estudantes exigiram a contratação de professores, reformas nos estabelecimentos de ensino e o fim do Parcoursup, sistema de seleção para ingresso no ensino superior.
O movimento, iniciado entre estudantes secundaristas, recebeu a adesão de universitários, sindicatos e integrantes dos Coletes Amarelos. A aproximação entre esses setores deverá ganhar força nos próximos dias.
A CGT, a CFDT, a FO, a Unsa e a FSU convocaram uma jornada nacional de greves e manifestações para quinta-feira, 5 de novembro. O chamado é dirigido aos trabalhadores dos setores público e privado, aposentados e estudantes, em defesa dos salários, dos serviços públicos, do emprego e da indústria.
As organizações Union Syndicale Lycéenne, Union Étudiante e Unef também convocaram bloqueios de escolas e universidades para terça-feira (3) e quinta-feira (5).
“Bloquearemos nossas universidades e escolas de ensino médio antes de nos juntarmos à manifestação de 5 de novembro, convocada pelos trabalhadores e sindicatos”, declarou Sabrine Kharbach, porta-voz da Union Étudiante.
A coordenação dos Coletes Amarelos propôs a continuidade dos protestos nos dias 6 e 7 de novembro. Também anunciou uma “assembleia das assembleias” para o final do mês, nos dias 21 e 22 ou 28 e 29, com a participação de representantes dos diferentes movimentos.
A mobilização ocorre em meio ao agravamento da situação econômica francesa. O Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,1% no terceiro trimestre de 2026, enquanto os trabalhadores enfrentam o aumento dos preços e a deterioração dos serviços públicos.
A experiência francesa mostra a importância da mobilização independente dos trabalhadores e da juventude contra os governos neoliberais. O governo Macron, apresentado pela imprensa burguesa como um representante da “democracia” europeia, respondeu às reivindicações populares com a polícia, detenções e restrições ao direito de manifestação. A continuidade e a ampliação das greves constituem o principal meio de enfrentar essa política.





