O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), passou a ser apontado como um dos principais candidatos ao Ministério da Fazenda no quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A preferência de setores do capital financeiro pelo governador ocorre dois anos depois de ele entregar a exploração dos serviços de água e esgoto do Piauí à empresa privada Aegea, por meio de uma concessão de 35 anos.
Segundo reportagem da CBN publicada na sexta-feira (30), Lula teria demonstrado incômodo com a informação de que Fonteles exigiria carta branca para assumir o ministério. A exigência, entretanto, não foi apresentada diretamente pelo governador, que negou até mesmo ter discutido sua possível nomeação.
“Nunca tratei com o presidente Lula ou com qualquer outra pessoa (seja familiar, amigo, aliado ou adversário) sobre cargos no seu próximo mandato e muito menos sobre política econômica”, declarou Fonteles na quinta-feira (29).
Apesar da negativa, o governador ganhou destaque nas discussões sobre a formação do novo ministério. Sua aproximação com Lula ocorreu durante a campanha do segundo turno, quando participou da coordenação da campanha presidencial. Fonteles também passou a ser apresentado como uma das principais lideranças da nova geração do PT.
O interesse dos banqueiros por sua possível nomeação não é difícil de explicar. Em outubro de 2024, Fonteles conduziu a concessão dos serviços de saneamento do Piauí à Aegea, em um leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo.
A empresa venceu sem enfrentar concorrentes e ofereceu um desconto de apenas 1% sobre as tarifas previstas. O contrato abrange os 224 municípios piauienses, respeitando os prazos das concessões anteriormente existentes em três localidades, e prevê investimentos de R$8,6 bilhões.
A Aegea pagaria R$1 bilhão pela outorga, metade destinada ao governo estadual e metade às prefeituras. Em troca, recebeu o direito de explorar os serviços durante 35 anos.
Fonteles anunciou ainda a intenção de realizar um Programa de Demissão Voluntária (PDV) para os aproximadamente 850 trabalhadores da Agespisa, companhia estadual de saneamento. O futuro da estatal ficou indefinido.
O caso é semelhante, em seus resultados, à privatização da Sabesp, promovida por Tarcísio de Freitas em São Paulo. A diferença é que, enquanto o governador paulista foi condenado pelo PT por entregar o saneamento aos capitalistas, Fonteles realizou uma operação semelhante sem enfrentar a mesma campanha de seu partido.
A oligarquia nordestina do PT
Fonteles pertence a um setor do PT profundamente associado às oligarquias regionais. Nesse grupo também se destacam Camilo Santana, no Ceará, e os dirigentes que controlam a política baiana, especialmente Jaques Wagner e Rui Costa.
O crescimento da influência desses políticos no governo federal foi impulsionado pelo resultado das eleições. O Nordeste garantiu uma votação expressiva a Lula, enquanto diversos governadores petistas obtiveram vitórias importantes em seus estados.
Fonteles foi reeleito no primeiro turno com 71% dos votos válidos, o maior percentual registrado para um governador em 2026. No Piauí, Lula recebeu 70,99% no primeiro turno e 75,88% no segundo.
No Ceará, Camilo Santana também ganhou influência depois de participar da coordenação da campanha de Lula no segundo turno. Ex-ministro da Educação, Santana é apontado como um dos principais candidatos à Casa Civil.
Sua passagem pelo Ministério da Educação foi marcada pela participação de fundações e organizações empresariais nas discussões sobre a política educacional. Entre os grupos que procuram influenciar a educação brasileira está a Fundação Lemann, ligada ao bilionário Jorge Paulo Lemann, um dos maiores capitalistas do País.
A atuação dessas organizações é criticada por setores do movimento estudantil, que se opõem à entrega da formulação das políticas educacionais aos empresários. A proximidade entre a administração pública e as fundações privadas mostra que a presença de um dirigente petista no ministério não significa uma política independente dos interesses burgueses.
Na Bahia, a oligarquia petista é ainda mais antiga. Jaques Wagner foi eleito governador em 2006 e permaneceu no cargo até 2014. Seu sucessor foi Rui Costa, que governou o estado durante oito anos. Em 2022, o grupo garantiu a eleição de Jerônimo Rodrigues, mantendo o controle do governo estadual.
Wagner tornou-se uma das principais figuras do PT no Senado, enquanto Rui Costa assumiu a Casa Civil de Lula. A máquina política baiana, organizada em torno de alianças com empresários e partidos tradicionais, ganhou assim uma posição privilegiada no governo federal.
O escândalo do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, também colocou em discussão as relações entre grandes empresários, banqueiros e dirigentes políticos. As investigações sobre operações financeiras bilionárias e os vínculos do banqueiro com representantes do regime político tornaram ainda mais importante examinar os interesses econômicos envolvidos na composição do novo governo.
O voto nordestino e a política das oligarquias
A votação obtida pelo PT no Nordeste costuma ser apresentada por setores da esquerda como uma demonstração do caráter progressista da região. Para Rui Costa Pimenta, essa interpretação confunde o voto popular em Lula com a política dos grupos que controlam os governos estaduais.
O Nordeste possui uma grande população pobre, que tem razões concretas para se opor à direita tradicional. Isso não significa, porém, que os políticos beneficiados por essa votação representem os interesses de classe desses trabalhadores.
Fonteles é um exemplo. Sua vitória eleitoral não impediu a entrega do saneamento a uma empresa privada. Da mesma maneira, o domínio do PT na Bahia não acabou com as alianças entre o governo estadual e os grandes empresários.
A influência das oligarquias regionais sobre a política nordestina não desapareceu com a expansão do PT. Uma parcela desses grupos passou a atuar no interior do próprio partido, ocupando governos, ministérios e posições no Congresso Nacional.
Essa característica não é exclusiva do Nordeste. Em todos os estados nos quais governa, o PT estabelece acordos com setores da burguesia. A administração petista não se orienta por um programa de expropriação dos capitalistas ou de controle operário da economia, mas pela manutenção das relações econômicas existentes.




