Ascânio Rubi

Ascânio Rubi é um trabalhador autodidata, que gosta de ler e de pensar. Os amigos me dizem que sou fisicamente parecido com certo “velho barbudo” de quem tomo emprestada a foto ao lado.

Coluna

Lula reeleito

Vitória de Lula dá novo fôlego a Alexandre de Moraes

Lula foi reeleito, abrindo quatro pontos percentuais sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, num resultado numericamente surpreendente, fora da margem de erro de todas as pesquisas divulgadas até a véspera do pleito. O saldo de votos, atribuído ao fôlego da campanha de internet liderada por André Janones e às manifestações nas ruas, desmente os baixos índices de aprovação do governo, reiterados pela imprensa diuturnamente durante todo o período eleitoral, e inverte o desempenho dos candidatos no primeiro turno. A imprensa saudou a festa da democracia, que, enfim, livrou o país do fantasma do fascismo. Neste momento, tanto os jornais da burguesia como os veículos autointitulados progressistas expressam o mesmo entusiasmo, com a diferença de que os primeiros já estão cobrando de Lula o apoio, enquanto os últimos, mantendo o clima de comemoração, decretam a morte do bolsonarismo.

Enquanto isso, o candidato derrotado, que, mal terminada a votação, recebeu do ministro Alexandre de Moraes, do STF, ordem de entrega de passaportes, decidiu sair do país clandestinamente, buscando asilo político nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, embora diga gostar de Lula, ainda não o congratulou pela vitória e, além disso, afirmou que “parece ter havido fraude” na eleição, notícia que a imprensa brasileira tomou o cuidado de explicar, assegurando que Trump emite sua opinião sem apresentar provas. O cuidado é tanto quando o assunto tangencia a remota possibilidade de fraude eleitoral que começamos a duvidar do significado das palavras. Afinal, para dizer que “algo parece” ou que há “suspeita” de algo, em tese, não seria preciso ter provas, dado que, as havendo, a suspeita se torna uma acusação formal. No Brasil, porém, suspeitar de fraude eleitoral é considerado (pelo STF) conduta criminosa, sob o argumento de que pôr em dúvida o processo de votação seria um pretexto para dar um golpe de estado.

Diante desse entendimento, que talvez derive de algum princípio constitucional, fica proibido desconfiar da lisura das eleições e, sobretudo, da inviolabilidade da urna eletrônica, que seria tão indiscutível quanto a virgindade de Maria, mãe de Jesus, para os católicos. Trump, como não vive no Brasil, diz o que pensa. Por aqui, uma apresentadora foi demitida do SBT por ter dito que achava “estranha” a vitória de Lula. A Folha noticia o fato desta maneira: “O SBT decidiu demitir a apresentadora Thayse Teixeira, do Fofocalizando. Nesta terça-feira (27), a influenciadora questionou o resultado do segundo turno das eleições presidenciais. Sem provas, disse que achou “estranha” a vitória de Lula (PT)”.

Até para achar algo “estranho” é preciso ter provas. Pelo sim, pelo não, a emissora demitiu a moça. O fato, porém, é que houve um evento atípico no dia da votação do segundo turno, que, somado a um resultado surpreendente, suscita a imaginação de algumas pessoas. Para evitar que arriscadas hipóteses apareçam na mente de gente dada a devaneios, a imprensa já explicou satisfatoriamente o que ocorreu no dia 25 de outubro de 2026, quando, sob determinação do juiz Cristiano Zanin, do STF, o período de votação foi estendido em duas horas.

Ocorre que, como sói acontecer em toda eleição, surgiram denúncias de falta de ônibus em algumas localidades, que estaria prejudicando a chegada dos eleitores aos seus locais de votação. Supõe-se que prefeitos do campo conservador estariam boicotando os eleitores de Lula, moradores das periferias de algumas regiões. O STF decide pela ampliação do horário em alguns estados. O TSE, presidido pelo ministro Kássio Nunes, não sabe como implementar isso de imediato. A campanha de Flávio Bolsonaro pede, então, ampliação do horário em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, alegando dificuldades ocasionadas pela chuva intensa, que teria o potencial de reduzir os votos de seus eleitores. Decide-se, por fim, pela extensão do horário em duas horas em todo o país. Dessa forma, ninguém poderia alegar que um lado ou o outro estivesse sendo beneficiado.

A imprensa explicou que toda essa operação angariou a bagatela de pouco menos de 34 mil votos, uma soma, por si só, incapaz de mudar o resultado para qualquer um dos lados em disputa. Lula, afinal, obteve cerca de 4 milhões de votos de vantagem sobre Flávio, o que representou a mobilização de mais de 10 milhões de votos nas três semanas que separaram o primeiro do segundo turno. O montante, por seu volume em tão pouco tempo, surpreendeu, mas é de supor que o milagre da multiplicação dos votos se deva a Janones, candidato à canonização.  O general, que comandou o “Exército do Lula”, mostrou que “exército digital” é diferente de “milícia digital”, ao menos, quanto ao uso dos nomes, já que os métodos são os mesmos dos adversários, que, na eleição passada, foram condenados por Alexandre de Moraes por usá-los.

“Exército digital”, largo uso de fake news, manifestações de rua e benesses eleitorais teriam sido a receita de sucesso, a mesma que, empregada por Jair Bolsonaro, levou ao fracasso em sua tentativa de se reeleger. O ingrediente que favoreceu a vitória de Lula talvez seja outro, a saber, o apoio da burguesia, que, ao fim e ao cabo, é o que determina quem vai governar o país. O primeiro turno, em consonância com as pesquisas e os índices de aprovação do governo, mostrou um mandato que chegava enfraquecido ao seu término, como o fora desde o início. A alternativa, o filho de Jair Bolsonaro, nunca foi uma opção da burguesia. Sua elevada votação serviu para dar a Lula um choque de realidade e fazê-lo, novamente, refém da classe dominante, que já tem a agenda econômica preparada.

A reeleição de Lula, nas circunstâncias desenhadas no primeiro turno, quando o Senado e o Congresso ganharam forte representação do campo bolsonarista, atende a uma necessidade imperiosa de certos membros do STF. O maior interessado na permanência de Lula na Presidência da República é Alexandre de Moraes, cuja cabeça vem sendo pedida tanto pelo envolvimento com o dono do banco Master, que fez mal explicados aportes no valor de R$ 200 milhões ao escritório de advocacia de sua esposa, como por sua interpretação das leis de acordo com a conveniência política e os próprios interesses. O risco de impeachment que se avizinhava com a nova composição do Senado deu lugar a um novo fôlego na sua batalha contra os Bolsonaros: nem bem terminou a contagem dos votos, Moraes expediu ordem de entrega de passaportes a Flávio, que teria sido abordado pela polícia no meio da rua na manhã do dia seguinte, ao sair da casa do pai.

A afobação de Moraes entrega as suas intenções. Não por outra razão, Flávio Bolsonaro decidiu fazer as malas e sair do país com a família, rumo aos Estados Unidos. Alguém duvida de que Moraes arranjaria uma desculpa para prender o candidato que, embora derrotado nas urnas eletrônicas, arregimentou quase 60 milhões de votos no eleitorado brasileiro? O STF tem poderes e, ao que parece (sem provas), governa o país, pouco se importando com a vontade do povo.

Para dissipar qualquer delírio de algum eleitor que tenha estranhado – sem provas – o resultado da eleição, a imprensa enfatiza que o ministro Kássio Nunes Marques, do TSE, indicado por Bolsonaro, atestou a lisura do processo. Aquelas duas horas, durante as quais a maioria das urnas estava fechada aos eleitores retardatários, por certo, não seriam usadas para qualquer tipo de manipulação, coisa que, além de ser tecnicamente impossível, seria inviabilizada pelo ministro indicado pelo lado perdedor. Ninguém duvida da ilibada reputação de Kássio, que não fica a dever à dos colegas de corte, irmanados no escândalo do Master. Embora as inusitadas conversas de WhatsApp entre Kássio e o “decano” Gilmar Mendes mostrem que é o galo velho que manda no terreiro, nada disso justifica desconfiar do processo eleitoral.

O fato é que os idosos saíram de casa para votar em Lula, pessoas que anularam o voto ou votaram em branco no primeiro turno despertaram para o risco do fascismo e decidiram votar em Lula e, ainda mais importante, apoiadores de Zema, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Augusto Cury perceberam que Lula entregaria os mesmos resultados que Flávio sem o risco de uma aventura golpista. O apoio da Rede Globo, com direito a Caetano Veloso, artistas, colunistas de jornal e peessedebistas de todos os matizes, ajudou a convencer a direita de que Lula vai seguir a cartilha da burguesia. A esquerda pequeno-burguesa, ao que parece (sem provas), não está preocupada com esse detalhe. Aguardemos.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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