Golpe imperialista

Sérvia: uma revolução colorida para isolar a Rússia

Imperialismo promoveu movimento artificial para derrubar governo nacionalista alinhado com a Rússia

A Lista Estudantil venceu as eleições parlamentares sérvias de domingo (25) e impôs uma derrota ao agrupamento de Aleksandar Vučić. Com 97,56% das seções apuradas, a Comissão Eleitoral registrou 52,71% dos votos para os candidatos apoiados pelos “estudantes”, contra 39,17% para a chapa “Aleksandar Vučić – Sérvia Unida”. A projeção deu aos vencedores 140 das 250 cadeiras da Assembleia Nacional, maioria suficiente para formar o gabinete.

Após 14 anos de predomínio do Partido Progressista Sérvio (SNS), a direção do país passará a um bloco nascido das manifestações iniciadas em 2024 e organizadas pelo imperialismo.

A mudança atinge um governo que resistiu à principal exigência feita pela União Europeia à Sérvia desde o início da guerra na Ucrânia: aderir às sanções contra a Rússia. Vučić manteve contratos energéticos e relações diplomáticas com Moscou enquanto negociava a entrada de seu país no bloco europeu. A recusa em sancionar os russos preservou seu apoio entre setores nacionalistas sérvios e provocou cobranças crescentes de Bruxelas. Com outra maioria no Parlamento, os governos europeus terão uma nova oportunidade de exigir de Belgrado a política que Vučić se recusou a aplicar.

O próprio Vučić abriu o caminho para a derrota. Em 9 de setembro, depois de quase dois anos de manifestações, convocou eleições parlamentares antecipadas. No dia 27, deixou a Presidência para disputar a chefia do futuro gabinete; a presidente da Assembleia, Ana Brnabić, assumiu interinamente. Vučić calculou que seu partido venceria e lhe devolveria o comando do governo como primeiro-ministro. O movimento “estudantil”, porém, demonstrou-se uma força de classe média liberal, exatamente a mesma que é arrebanhada pelo imperialismo nas revoluções coloridas. Professores, médicos, artistas e outros profissionais concorreram em nome do movimento, embora nenhum estudante integrasse a chapa de 250 candidatos.

O ponto de partida das manifestações foi o desabamento da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, em 1º de novembro de 2024. Dezesseis pessoas morreram. A estação havia passado por obras, e surgiram denúncias de corrupção e falhas na fiscalização. Os “estudantes” exigiram a divulgação dos documentos da reforma, a responsabilização pelas mortes e punição dos agressores de participantes dos protestos. Vieram as ocupações universitárias, os bloqueios e as grandes marchas. A cobrança pela apuração do desastre converteu-se numa campanha para derrubar Vučić; a vitória eleitoral deu a essa campanha o controle do Parlamento.

Vučić chamou os protestos de “revolução colorida”. Não havia nenhuma reivindicação popular tradicional: parecia o “Não vai ter Copa” de 2014 no Brasil, com a pauta da corrupção e das obras de infraestrutura. A direção do movimento iniciado em Novi Sad, concentrada nas universidades e em setores das camadas médias, ampliou a reivindicação até fazer da saída do governo seu objetivo. O resultado interessa diretamente às potências que pressionam a Sérvia a romper sua política de equilíbrio entre a União Europeia e a Rússia. Para elas, a corrupção denunciada pelos manifestantes e o desgaste de Vučić abriram uma oportunidade política.

A pressão de Bruxelas está registrada em seus próprios documentos. No relatório sobre a candidatura sérvia divulgado em 2025, a Comissão Europeia exigiu, “como questão prioritária”, maior alinhamento de Belgrado à política externa e de segurança do bloco. Assinalou que o país não havia aderido às medidas restritivas contra a Rússia e apontou seus contatos frequentes com autoridades russas. As negociações para entrar na União Europeia vêm acompanhadas, portanto, de uma cobrança precisa: abandonar a posição que permitiu à Sérvia manter relações com Moscou após 2022. Quem formar o novo gabinete receberá essa cobrança junto com as propostas de financiamento, comércio e integração europeia.

A resistência sérvia tem raízes anteriores ao governo Vučić. A Iugoslávia, formada após a vitória dos partisans na Segunda Guerra Mundial, foi governada pela Liga dos Comunistas. Durante a restauração capitalista e a decomposição do Estado Operário, a direção da Liga dos Comunistas da Sérvia formou, em 1990, o Partido Socialista da Sérvia (SPS), chefiado por Slobodan Milosević. Vieram as secessões, as guerras e as intervenções imperialistas.

Em 1999, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardeou a República Federal da Iugoslávia durante 78 dias, de 24 de março a 10 de junho. Belgrado foi atacada. As forças iugoslavas retiraram-se do Cossovo, onde se instalou uma força internacional comandada pela OTAN. Naquele junho, a Resolução 1244 do Conselho de Segurança reafirmou a integridade territorial iugoslava. Em 2008, as autoridades cossovares proclamaram a independência, reconhecida pelas principais potências imperialistas e obviamente rejeitada pela Sérvia. A separação do Cossovo continua a ser abertamente repudiada pelo povo sérvio.

Nem os bombardeios retiraram Milosević do poder. Ele só foi derrubado justamente por uma revolução colorida no ano 2000, que consistiu em uma fraude eleitoral contra ele e manifestações organizadas pela Open Society e outras ONGs imperialistas. No ano seguinte, foi enviado pelos golpistas ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, em Haia. A mobilização juvenil que acompanhou sua deposição tornou-se uma referência para as chamadas revoluções coloridas, sendo estudada em manuais como os de Gene Sharp. Agora, a história se repete.

Vučić participou do governo sérvio durante os ataques da OTAN. O Partido Socialista (SPS) de Milosevic perdeu força após o golpe e passou a fazer coalizão com o Partido Progressista (SNS). O SNS nasceu em 2008 de uma cisão do Partido Radical Sérvio, dirigida por Tomislav Nikolić e Vučić. Este havia sido secretário-geral dos radicais e, em 1998, tornou-se ministro da Informação num gabinete formado também pelo SPS. A ligação do SNS com o antigo regime passa pela participação naquela coalizão e pelo nacionalismo sérvio.

O SNS governou a Sérvia capitalista em aliança com empresários, burocratas e o próprio SPS. Defendeu oficialmente a entrada na União Europeia, mas conservou a reivindicação sobre o Cossovo e recusou as sanções antirrussas. Vučić não rompeu com Bruxelas: tentou obter investimentos e avançar nas negociações europeias sem abandonar Moscou. Essa margem de manobra diminuiu à medida que a guerra na Ucrânia passou a determinar as exigências da política externa europeia. Mesmo a resistência limitada do governo sérvio se tornou um obstáculo para as potências empenhadas em isolar a Rússia.

Moscou tem peso na Sérvia que vai além do governo derrotado. Há vínculos históricos, linguísticos e religiosos entre os dois povos, fornecimento russo de gás e apoio diplomático à reivindicação sérvia sobre o Cossovo. Há também a lembrança dos aviões da OTAN sobre Belgrado. Um gabinete que deseje aplicar sanções contra a Rússia encontrará oposição de boa parte do povo sérvio, que pode não amar Vučić por sua política interna, mas não aceita acompanhar o imperialismo, responsável pela dissolução da Iugoslávia, os bombardeios à Sérvia e o roubo do Cossovo.

A dificuldade enfrentada por Vučić lembra a de Victor Ianucóvitch na Ucrânia. Antes de ser derrubado pelas manifestações do Euromaidan, em 2014, Ianucóvitch procurava negociar com a União Europeia e com a Rússia. Seu governo ficou exposto à disputa entre o imperialismo e os russos. Vučić também tentou sustentar relações com ambos, até convocar a eleição que julgava capaz de lhe garantir o cargo de primeiro-ministro.

Na noite da eleição, Vučić previu que os vencedores imporão sanções à Rússia até março ou abril de 2027. A Lista Estudantil havia declarado o contrário: sua plataforma promete manter a posição sérvia contra as sanções, defender a neutralidade militar e rejeitar a independência do Cossovo. Depois da votação, Jovo Bakić, um de seus representantes, repetiu que não haverá mudança na política em relação a Moscou.

O novo governo húngaro, que derrotou Victor Orbán com o apoio do imperialismo, também havia prometido que não combateria a Rússia. Contudo, o imperialismo não apoiou a queda de Orbán para ficar de mãos abanando. As novas políticas de Budapeste, pró-União Europeia, confirmam que o imperialismo consegue impor sua vontade a um governo que chegou ao poder graças ao seu apoio.

Cumprir esse compromisso dependerá de quem ocupar o governo e de como reagirá às exigências externas. A lista vencedora na Sérvia pretende ampliar a cooperação com instituições europeias e reúne tanto candidatos favoráveis à aproximação com Bruxelas quanto nacionalistas empenhados em preservar os vínculos russos. Ainda não escolheu quem chefiará o gabinete. Bancos, governos e órgãos da União Europeia poderão pressionar cada ministério responsável por energia, comércio e relações exteriores.

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