Discurso após eleição

Lula promete à direita mais quatro anos de neoliberalismo

Presidente exalta Alckmin, anuncia mais repressão e censura e ainda credita a André Janones a vitória sobre Flávio Bolsonaro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) e, em seu primeiro pronunciamento após a vitória, deixou bastante claro o que os trabalhadores podem esperar de seu quarto mandato. Foram aproximadamente 23 minutos de agradecimentos, promessas, ataques ao adversário e elogios aos “aliados”.

Lula anunciou que havia aprendido importantes lições durante a campanha eleitoral:

“E quero dizer para vocês que uma coisa eu aprendi. Vou falar aqui para vocês. Mas estas eleições me ensinaram muitas lições, muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar este país.”

A lição mais óbvia da eleição é que a política aplicada nos últimos quatro anos fracassou em atender às necessidades dos trabalhadores e permitiu um crescimento extraordinário da direita. Mas Lula logo esclareceu qual mudança pretende realizar:

“Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões. E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo.”

E prosseguiu:

“Já estou aprendendo a conversar com o meu general. E podem ficar certos de que, daqui para frente, eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou, não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé.”

É isso. Depois de quatro anos de privatizações, submissão ao ajuste fiscal e concessões aos banqueiros, Lula descobriu que precisa utilizar melhor o celular.

A questão não seria a política econômica, a composição do governo ou a ausência de medidas capazes de modificar substancialmente as condições de vida dos trabalhadores. O problema seria a incapacidade de explicar ao povo as supostas maravilhas realizadas pela administração petista. Se o problema é a comunicação, não é preciso alterar o programa. Basta melhorar a propaganda.

A promessa de mudar a maneira de governar torna-se ainda mais reveladora quando confrontada com aquilo que aconteceu antes mesmo do pronunciamento. Lula fez questão de prestigiar Geraldo Alckmin (PSB), passando-lhe a palavra e permitindo que o vice-presidente abrisse a comemoração. Em seguida, dedicou-lhe elogios públicos:

“Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade que eu tenho no Alckmin.”

Alckmin foi um dirigente histórico do PSDB, partido que participou ativamente da ofensiva contra os governos petistas, e apoiou o golpe de 2016. Agora, recebe o reconhecimento especial do presidente reeleito. O representante da direita agora não aparece como um aliado secundário, mas como uma das principais figuras da vitória.

Mais adiante, ao recordar a manifestação da Avenida Paulista, Lula voltou a destacar o antigo tucano:

“Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi neste segundo turno destas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na Avenida Paulista ontem, é algo que eu não acredito o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas, a gente nunca conseguiu ver.”

O presidente não apenas elogia seu vice. Apresenta-o como uma figura histórica da luta democrática, apagando convenientemente o papel que sua antiga organização desempenhou no golpe contra Dilma Rousseff.

Alckmin é a expressão mais acabada da política que dominou o terceiro governo Lula. Uma política em que o PT fornece o presidente, os trabalhadores fornecem os votos e os partidos burgueses dirigem a administração do Estado.

Essa orientação levou ao governo personagens como Simone Tebet e Marina Silva e manteve a influência de organizações como MDB, PSD e outros agrupamentos reacionários. Nada no pronunciamento indicou que Lula pretende romper com essa composição.

Ao contrário. O presidente fez questão de homenagear os aliados mais identificados com a política de frente ampla. Elogiou Marina Silva e João Paulo Capobianco, agradeceu ao governador Rafael Fonteles e mencionou rapidamente Alexandre Padilha e Camilo Santana. Não houve menção alguma a dirigentes sindicais ou representantes do movimento popular.

O mesmo acontece com a disposição anunciada por Lula de negociar com um Congresso ainda mais direitista:

“Porque já tem gente falando que o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está mais conservador. Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.”

Lula não apresentou qualquer iniciativa de mobilização para enfrentar a direita parlamentar. Não anunciou uma campanha para pressionar o Congresso a aprovar medidas em benefício dos trabalhadores. Sua resposta foi reafirmar a política de entendimentos com os parlamentares.

Durante o terceiro mandato, a negociação com os partidos burgueses serviu para fortalecer sua influência sobre o governo. Agora, com o crescimento eleitoral do PL e o fortalecimento geral da direita, Lula anuncia que continuará trilhando o mesmo caminho.

O presidente também retomou uma das fórmulas mais características da conciliação de classes:

“Na medida em que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões. Tenho que governar para todas as cidades.”

A declaração apresenta dois problemas fundamentais.

Primeiro, um governo não pode atender simultaneamente, em todas as questões essenciais, aos interesses dos grandes banqueiros e dos trabalhadores explorados por eles. O que beneficia os capitalistas frequentemente representa um prejuízo para os assalariados. A luta política não desaparece porque terminou a eleição.

Segundo, a afirmação de que Lula não tem mais adversários contrasta frontalmente com a campanha desenvolvida pela frente ampla. Durante semanas, seus apoiadores apresentaram Flávio Bolsonaro como a encarnação do fascismo. A esquerda foi submetida a uma campanha de chantagem política: quem não apoiava Lula estaria colaborando com a extrema direita. A luta eleitoral foi transformada em uma questão de sobrevivência da própria “democracia”.

O PT continua defendendo um regime em que o Judiciário exerce poderes extraordinários sobre a vida pública e em que a censura de manifestações políticas é apresentada como uma exigência da “defesa da democracia”.

Lula declarou:

“Este país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos.”

O problema é que o regime político brasileiro vem sendo marcado pelo fortalecimento de instituições que não dependem do voto popular e que adquiriram poderes extraordinários para interferir na luta política.

A chamada “defesa da democracia” tornou-se, para amplos setores da frente ampla, uma defesa incondicional do Supremo Tribunal Federal (STF). Alexandre de Moraes e os demais ministros passaram a ser apresentados como guardiões das liberdades, mesmo quando suas decisões restringem manifestações, determinam retiradas de conteúdos e ampliam o controle judicial sobre a atividade política.

Lula comemorou que sua vitória teria representado um triunfo democrático, mas não dedicou uma palavra às arbitrariedades do Judiciário.

Em contrapartida, apresentou uma promessa bastante concreta: ampliar a regulação das plataformas digitais.

“Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real.”

O presidente prosseguiu:

“Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para este país e tentando direcionar o resultado eleitoral deste país.”

Lula mistura deliberadamente problemas distintos. A tributação das multinacionais, seu domínio econômico e sua capacidade de interferir no mercado são questões que podem ser enfrentadas sem restringir a liberdade de expressão da população.

A regulação do conteúdo político publicado nas redes, entretanto, abre a possibilidade de ampliar os mecanismos de censura.

A hipocrisia dessa campanha aparece ainda mais claramente quando Lula passa a falar das mentiras de seu adversário.

“Esta eleição foi uma derrota do negacionismo. Foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que, cada vez que eu ia ao debate, eu ficava constrangido.”

A frase é particularmente cínica diante da campanha desenvolvida pelo próprio presidente.

O caso de Nossa Senhora Aparecida é exemplar. Durante a disputa, espalhou-se a história de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A informação era falsa. Sua origem estava em um projeto apresentado por outro parlamentar em 2007 e arquivado em 2008.

A falsidade foi esclarecida publicamente. Isso não impediu que o assunto fosse explorado por aliados do presidente, inclusive Alckmin e a primeira-dama Rosângela “Janja” da Silva.

O próprio Lula foi confrontado sobre o episódio em uma entrevista à Band. Quando a jornalista Adriana Araújo perguntou se não se tratava de uma notícia falsa, o presidente respondeu:

“Eu não sei se foi fake news.”

E insistiu que o assunto estava circulando nas redes sociais, acrescentando que Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo padroeira do Brasil porque essa era a vontade do povo brasileiro.

Ou seja, o dirigente que agora apresenta sua vitória como uma derrota da mentira não demonstrou a mesma preocupação com a verdade quando uma informação comprovadamente falsa poderia ser útil à sua campanha.

O episódio mostra o caráter oportunista da cruzada petista contra as chamadas notícias falsas. A mentira do adversário deve ser reprimida. A que beneficia a frente ampla pode ser explorada eleitoralmente.

O moralismo de Lula foi ainda mais longe:

“Eu nunca pensei em me deparar com o representante genuíno do ‘milicianismo’ deste país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.”

O presidente procura apresentar a experiência de debater com Flávio Bolsonaro como algo absolutamente extraordinário em sua carreira. Mas Lula é um político que negociou com toda espécie de dirigente conservador e reacionário, no Brasil e no exterior.

Michel Temer, integrante da antiga aliança governista do PT, participou do golpe que derrubou Dilma Rousseff. Geraldo Alckmin apoiou aquele processo. Ambos ocuparam posições importantes na política brasileira e participaram, em diferentes momentos, das relações e alianças construídas pelo próprio PT.

Mais gritante ainda é a relação de Lula com Donald Trump.

O presidente norte-americano é apresentado pela campanha petista como a principal referência internacional do bolsonarismo. A extrema direita brasileira seria, segundo a propaganda eleitoral, uma expressão da política de Trump.

No entanto, Lula reuniu-se cordialmente com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca, em maio, e participou de um almoço com ele. Depois do encontro, afirmou ter dado um passo importante na consolidação das relações entre os países.

Trump deixou de ser um obstáculo absoluto à convivência civilizada quando o assunto passou a ser a relação do governo brasileiro com a principal potência imperialista.

A contradição reaparece na política externa.

Ao comemorar o entusiasmo dos apoiadores que cantaram o Hino da Independência, Lula afirmou:

“E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava: ‘Brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil’ — numa demonstração de que este país não aceita ser quintal de ninguém.”

Em seguida, recorreu a Chico Buarque:

“Ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.”

A política concreta do governo, entretanto, mostra uma realidade muito diferente.

Em janeiro, os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e sequestraram Nicolás Maduro. As condições para o ataque foram criadas por meses de denúncia de fraude, que foram alimentadas com a desconfiança de Lula do próprio processo eleitoral. Meses depois do sequestro, ele afirmou que não estava preocupado com a situação de Maduro.

Meses depois, Lula foi à Casa Branca confraternizar com Trump, responsável direto pela operação contra o país vizinho.

Na Nicarágua, o governo petista entrou em conflito diplomático com as autoridades do país, chegando à expulsão recíproca de embaixadores. Em relação a Cuba, embora tenha condenado o bloqueio norte-americano, não anunciou uma política capaz de romper efetivamente o cerco econômico imposto à ilha.

Na Palestina, o governo denunciou os crimes cometidos por “Israel”, mas também condenou ações do Hamas, organização que dirige a resistência palestina. Ao mesmo tempo, manteve relações comerciais e militares com empresas israelenses.

Lula ainda afirmou:

“Nós queremos ser um país central nas decisões políticas, econômicas e na decisão pela paz. E nós vamos ensinar ao mundo como é que se trata a política climática neste país.”

Mas não anunciou qualquer medida para romper a dependência financeira, econômica ou tecnológica do Brasil em relação às grandes potências imperialistas.

Não falou em reestatizar a Eletrobrás, recuperar integralmente o controle da Petrobrás, nacionalizar o sistema financeiro ou reverter a entrega dos recursos nacionais aos monopólios.

Ao tratar do desenvolvimento tecnológico, acrescentou:

“Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana. Eu quero criar uma brasileira.”

A defesa de uma inteligência artificial brasileira é legítima. O problema está em colocar a China e os Estados Unidos no mesmo plano, ignorando o papel desempenhado pelo imperialismo norte-americano na subordinação econômica e tecnológica dos países atrasados.

A implicância com a China reapareceu indiretamente no encerramento do pronunciamento:

“Eu duvido que a Rússia, a China e os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia dentro deste país.”

O terceiro mandato foi marcado pela manutenção de uma política fiscal que subordina os investimentos sociais às exigências do mercado financeiro. Enquanto o Estado limita despesas consideradas incompatíveis com suas metas fiscais, os grandes bancos continuam recebendo rendimentos extraordinários.

A campanha eleitoral ocorreu sob essa orientação. Agora, encerrada a votação, Lula não indica qualquer disposição de abandoná-la.

A única referência concreta às reuniões destinadas a preparar o próximo governo apareceu no fim do discurso:

“Eu tenho dois meses pela frente para discutir o governo. Quero me reunir com os empresários, quero me reunir com os educadores, quero me reunir com os cientistas, quero me reunir com as mulheres.”

É sintomático que os empresários apareçam em primeiro lugar e que os sindicatos sequer sejam mencionados.

Lula não anunciou que convocará os trabalhadores para discutir seus salários, as condições de emprego ou a recuperação dos direitos retirados pelos governos anteriores.

Não prometeu revogar a reforma trabalhista de Temer. Não falou em reverter a terceirização irrestrita. Não apresentou um programa de redução da jornada ou aumento geral dos salários.

A tão anunciada mudança do modo de governar não alcança nenhuma dessas questões.

Em contrapartida, Lula dedicou uma parte significativa de sua fala a promessas genéricas de cuidado com setores da população.

“Mas, no próximo mandato, eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras.”

Lula promete cuidar dos idosos, mas não anuncia a revogação da reforma da Previdência. Não esclarece se pretende recuperar os direitos previdenciários retirados nos últimos anos, elevar substancialmente as aposentadorias ou impedir novos ataques ao sistema.

A demagogia social também aparece nas promessas educacionais.

“Nós iremos universalizar as escolas de tempo integral neste país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio. E vamos criar um Pé-de-Meia universitário, para que nenhum jovem ou menina desista de estudar porque tem que trabalhar.”

Lula não anuncia aumentos salariais que permitam às famílias manter os filhos na escola, nem uma expansão estrutural das universidades públicas suficiente para garantir ensino superior a todos os que desejam estudar.

A juventude foi exaltada por sua participação na campanha eleitoral, mas não recebeu um programa próprio de emancipação.

Lula agradeceu:

“E, neste segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira, que foi para a rua para defender a democracia.”

O presidente deixa escapar a verdadeira finalidade da mobilização juvenil organizada pela frente ampla: defender eleitoralmente o governo sob a bandeira abstrata da “democracia”.

Durante semanas, a juventude foi submetida a uma campanha de histeria contra o fascismo. A ameaça de uma vitória de Flávio Bolsonaro foi utilizada para exigir que toda a esquerda abandonasse suas reivindicações próprias e se colocasse a serviço da candidatura petista.

A situação torna-se ainda mais absurda quando se recorda que, durante essa mesma campanha, Lula defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos.

O candidato que solicitava aos jovens que fossem às ruas derrotar o fascismo defendia, ao mesmo tempo, que adolescentes passassem a ser julgados como adultos em determinados crimes.

Lula também fez questão de elogiar o responsável pela mobilização digital de sua campanha:

“Eu quero agradecer a este companheiro aqui, o Janones. O nosso general, que teve um papel exponencial nesta campanha para levantar diariamente — de manhã, de tarde e de noite — a moral da nossa tropa.”

André Janones organizou uma campanha de propaganda em massa na Internet, distribuindo orientações e tarefas aos seguidores do chamado Exército do Lula.

O deputado chegou a comandar iniciativas destinadas a modificar a apresentação dos próprios militantes de esquerda, orientando o uso das cores verde e amarela para atingir eleitores que rejeitavam os símbolos tradicionais do PT.

A submissão de setores da esquerda a essa orientação chegou ao ridículo de dirigentes que se reivindicam comunistas reproduzirem as ordens de Janones.

A situação não melhora quando o presidente passa a falar do SUS.

Lula declarou:

“Nestas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivaram foi a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS.”

O próprio governo Lula foi responsável por um avanço expressivo das concessões à iniciativa privada. Entre 2023 e 2025, o governo federal realizou 50 concessões na área de transportes, contra 45 durante os quatro anos de Bolsonaro e 26 nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso. Os contratos abrangem rodovias, portos, ferrovias e aeroportos.

Ou seja, o governo que denunciou o perigo das privatizações realizadas pela direita entregou à exploração privada uma quantidade recorde de empreendimentos de infraestrutura. O discurso não anuncia a reversão dessas concessões nem qualquer mudança na orientação privatista.

Mas o aspecto mais preocupante do discurso apareceu quando o presidente passou a falar da repressão. Lula afirmou:

“O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública, porque a Constituição de 88 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar.”

A afirmação sobre a Constituição é falsa. O artigo 144 estabelece responsabilidades federais na segurança pública, incluindo atribuições da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

O problema central, porém, é o significado político da promessa de ampliar a intervenção do governo federal. O presidente não anunciou uma política de combate à violência policial, às chacinas ou às arbitrariedades cometidas contra a população pobre. Tampouco apresentou qualquer proposta de transformação do aparato repressivo. Sua promessa foi simplesmente aumentar a presença do governo federal na “segurança”.

Em um país onde a polícia mata milhares de pessoas e onde as periferias estão submetidas a operações violentas, a ampliação da repressão estatal não representa uma melhoria para os trabalhadores. Lula explicou sua concepção em uma das frases mais direitistas de todo o pronunciamento:

“Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão.”

A formulação poderia ter saído de um comício de qualquer candidato do PL. Ela apresenta os trabalhadores como beneficiários da repressão, ignorando que a população pobre é precisamente uma das principais vítimas da violência praticada pelo aparelho policial.

O PT procurou convencer a população de que votar em Flávio Bolsonaro representaria abrir caminho para um regime fascista. Ao mesmo tempo, seu candidato incorporou propostas repressivas da direita, fortaleceu os compromissos com os partidos burgueses e anunciou que pretende ampliar a atuação policial do Estado.

A 39ª Conferência Nacional do Partido da Causa Operária, realizada em 11 de outubro, analisou precisamente essa transformação do governo petista. O Partido concluiu que Lula já não representava a oposição ao regime político que havia justificado seu apoio eleitoral em 2022 e decidiu pelo voto nulo diante das duas candidaturas comprometidas com setores da burguesia.

O comportamento de Lula durante o segundo turno confirmou a análise. O presidente se aproximou ainda mais dos setores conservadores, incorporou propostas repressivas e entregou a direção da mobilização eleitoral a figuras como Janones.

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