Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 64.256.232 votos no domingo (25), após uma eleição que foi prorrogada por duas horas pelo STF. Na segunda-feira (26), os banqueiros trataram de mostrar quem realmente escolhe o novo governo. A Bolsa despencou, o real perdeu valor e começou a cobrança para que o presidente anuncie imediatamente um ministro da Fazenda disposto a apertar as contas públicas.
Lula prometeu benefícios à população para vencer a eleição. Os donos do dinheiro querem agora cobrar com juros a gastança do governo, exigindo o mais duro ajuste fiscal da história recente do País.
A Bolsa de São Paulo suspendeu as negociações por meia hora quando o índice Bovespa caiu 10%. A baixa chegou a 15% durante o pregão. Segundo o Financial Times, foi o pior desempenho em uma sessão desde 1990. Após recuperar parte das perdas, o real ainda era negociado a R$ 5,43 por dólar, desvalorização de 8,4% em relação ao fechamento de sexta-feira. A venda de títulos da dívida levou o Tesouro a cancelar dois leilões previstos para esta semana.
Mas os bancos já procuram transformar a movimentação financeira em arma política: a baixa da Bolsa e a disparada do dólar são um claro sinal para que Lula adote o programa neoliberal imediatamente.
A ordem transmitida pela imprensa burguesa, porta-voz dos bancos, é que Lula aja depressa. Empresários e banqueiros ouvidos ainda na noite da eleição exigiram garantias sobre as contas públicas e a futura equipe econômica. O banco norte-americano JP Morgan reduziu sua recomendação para o real e para títulos brasileiros. Seus analistas passaram a trabalhar com dólar a R$ 5,50 e com a possibilidade de uma queda de cerca de 20% da Bolsa em relação aos preços anteriores à vitória eleitoral da frente ampla. A melhora, dizem, dependerá dos sinais enviados pelo governo.
Que sinais são esses? Primeiro, a indicação de alguém aceito pelos bancos para o Ministério da Fazenda. Depois, um ajuste que preserve o pagamento aos vampiros que sugam o dinheiro do País e submeta as demais despesas a restrições ainda maiores. Os financistas são uma minoria ínfima, e nem brasileiros são, mas são eles que mandam na política nacional. A eleição é apenas uma formalidade para que a classe média acredita que o amor venceu o ódio.
Antes da votação, representantes do capital financeiro já defendiam Luiz Carlos Trabuco Cappi para a Fazenda. Trabuco preside o conselho de administração do Bradesco. Seu nome não foi anunciado por Lula, mas aparece como referência do perfil desejado pelos capitalistas. Não há mistério na preferência. Um dirigente de um dos maiores bancos do País, colocado à frente do ministério que controla o orçamento, ofereceria aos credores uma garantia mais forte que qualquer discurso de campanha.
Geraldo Alckmin e Gabriel Galípolo também são mencionados. Alckmin, vice-presidente e antigo dirigente do PSDB, foi responsável pela política de privatizações em São Paulo. Galípolo, indicado por Lula para presidir o Banco Central, dirige a instituição responsável pela política de juros mais exorbitantes do mundo. São funcionários leais ao capital financeiro. Ainda assim, Alckmin é visto por alguns como próximo demais de Lula para assegurar a dureza pretendida; Galípolo tampouco reúne o apoio de todos.
Ricardo Lacerda, dirigente do banco de investimentos BR Partners, avaliou que Alckmin seria melhor para os investidores do que Fernando Haddad ou Dario Durigan. Preferiria, porém, Mansueto Almeida, economista do BTG Pactual, ou Pérsio Arida. A régua foi colocada tão à direita que até um dirigente da privataria tucana pode parecer insuficiente. Os banqueiros esticam a corda porque querem arrancar de Lula um compromisso sem ambiguidades com uma política abertamente neoliberal.
Isso ocorre um dia depois de uma campanha na qual Lula procurou comprar votos anunciando transporte gratuito nos fins de semana, alívio para endividados e ampliação de benefícios. O governo reajustou o Bolsa Família após três anos de congelamento e explorou eleitoralmente o fim da escala 6×1, aprovado pelo Congresso. A consecução de boa parte dessas medidas não está garantida, pois depende do Congresso e de uma aceitação da burguesia, até mesmo legal. Para os bancos, a distinção pouco importa: qualquer gasto (e Lula gastou R$ 405 bilhões dos cofres do governo) entra na conta das despesas a conter.
Lula já lhes fez concessões durante o atual mandato. Manteve o arcabouço fiscal e prometeu respeitar as metas. Sua equipe informou, antes da eleição, que enviaria novos ajustes ao Congresso. A previsão para 2027 abriu caminho para retirar até R$ 16,6 bilhões da saúde e da educação. Durante a campanha, o presidente também se reuniu com banqueiros e grandes empresários em busca de apoio. Nada disso impediu a ofensiva iniciada assim que sua vitória foi confirmada.
Lula entrega os anéis, mas os banqueiros querem os seus dedos.
A pressão tem consequências que vão além dos preços exibidos nos painéis da Bolsa. A alta do dólar encarece produtos importados e pode chegar ao custo de vida. A subida dos juros cobrados para financiar o Estado reforça a exigência de novas restrições orçamentárias. Os bancos conhecem esses efeitos. Ao anunciar que a situação pode piorar caso Lula não lhes dê as garantias desejadas, colocam o governo diante de uma crise que eles próprios ajudam a aprofundar propositalmente.
É uma demonstração brutal de como funciona o regime político brasileiro. Segundo o TSE, mais de 64 milhões de pessoas votaram em Lula. Boa parte desses eleitores votou em Lula porque ele prometeu fazer um Pix de R$5.000 e perdoou suas dívidas (no caso dos MEIs). Outra parte, porque ele aumentou o Bolsa Família após mais de três anos de desvalorização real. Uma outra, porque ele prometeu passe livre aos finais de semana. Agora, tudo isso depende da “boa vontade” dos especuladores financeiros, que sequer vivem no País. Na prática, eles exigem que todas as ações e promessas de Lula sejam revertidas. Exigem um estelionato eleitoral.
O próximo mandato começará com Lula mais preso aos capitalistas do que no atual. Além de enfrentar um Congresso dominado pela direita, ele chega à reeleição comprometido com regras fiscais que já limitam o atendimento das reivindicações populares mais rebaixadas. Sua resposta anterior à pressão dos bancos foi oferecer garantias, preservar seus ganhos e procurar sua aprovação. Agora eles querem sua submissão total, mesmo após oferecer todas as garantias. Querem reverter tudo o que poderia ser medida minimamente favorável à população. Lula teve de anunciar essas medidas para ganhar votos, agora terá de revertê-las para se manter no cargo.
Eis como funciona a sagrada “democracia” que sai das urnas: no dia seguinte à eleição, os bancos afundam a economia para garantir o estelionato eleitoral.





