Polêmica

Ideologia de gênero é uma criação reacionária

Feministas de esquerda contestam políticas identitárias, enquanto divergências sobre sexo biológico provocam acusações de crime e ameaças de intervenção policial

censura

Em artigo publicado em 24 de outubro no portal A Terra é Redonda, o economista Fernando Nogueira da Costa apresenta a contestação da chamada ideologia de gênero principalmente como resultado da propaganda da extrema direita. Baseado num estudo de Luis Felipe Miguel sobre o bolsonarismo, afirma que o discurso conservador transformou reivindicações feministas e LGBT numa ameaça à família e à religião. A explicação omite o fato decisivo de que feministas, comunistas e mulheres de outros setores da esquerda também contestam políticas de identidade de gênero. E não por adesão ao bolsonarismo.

O trabalho de Miguel, publicado em 2021 na revista Cadernos Pagu, examina declarações de Bolsonaro e integrantes de seu governo. Por um lado, pode explicar como essa corrente explora a controvérsia politicamente. Mas não demonstra que as divergências sejam inventadas, nem que todos os críticos dessas políticas pertençam à direita. A análise de uma campanha eleitoral não substitui o exame dos problemas concretos.

Em setembro de 2026, a associação feminista MATRIA divulgou manifesto assinado por mulheres vinculadas ao PCO, PT e outros. Segundo a associação, 63% de suas 460 integrantes se identificavam com a esquerda. O documento defende que o sexo biológico continue sendo considerado em estatísticas, políticas de saúde, esportes e estabelecimentos penitenciários. Reconhece também o direito de pessoas transexuais à saúde, ao trabalho, à educação e à proteção contra a violência. Essas feministas recebem o rótulo depreciativo de “radfem” por aqueles que se negam a responder a seus argumentos sobre políticas destinadas às mulheres.

Sexo biológico e “identidade de gênero” são coisas diferentes. Tratamentos hormonais e cirurgias podem modificar características físicas, mas não alteram todas as funções reprodutivas. E diferenças biológicas têm relevância para políticas públicas. A questão é sobre quais critérios devem prevalecer em cada caso, não sobre o direito de alguém existir sem sofrer violência.

No esporte, a World Athletics adotou em 2025 critérios biológicos para a categoria feminina, e o Comitê Olímpico Internacional anunciou novas regras em março de 2026, previstas para os Jogos de 2028. São medidas discutíveis, mas sua existência mostra que o tema não se reduz à propaganda religiosa.

Nos presídios, estão em jogo a segurança das mulheres encarceradas e a proteção das pessoas transexuais contra agressões. É necessário discutir como compatibilizar esses direitos, considerando as condições reais do sistema prisional. Foi uma posição sobre esse assunto que desencadeou um conflito absurdo na Universidade de São Paulo.

Em 30 de setembro, num debate de candidatos ao governo paulista na Faculdade de Saúde Pública da USP, Izadora Dias, candidata do Partido da Causa Operária, defendeu que a organização dos presídios femininos considerasse o sexo dos presos. Disse que “os presídios precisam ser definidos pelo sexo. Há muita denúncia de mulheres que estão sendo ameaçadas, que estão sofrendo com a presença de mulheres trans.” Uma representante do Centro Acadêmico Emílio Ribas contestou a declaração e afirmou que “fobia é crime”.

Segundo Izadora, estudantes gritaram acusações de transfobia e foi chamada a polícia, que não compareceu. A candidata explicou posteriormente que pessoas transexuais também precisavam de proteção, inclusive com instalações específicas quando necessário. O debate deveria ter sido sobre as condições das prisões e os critérios para garantir a segurança das pessoas encarceradas. Em vez disso, a discordância foi acompanhada de ameaça de intervenção policial.

Em junho de 2019, ao julgar a ADO 26 e o MI 4.733, o Supremo Tribunal Federal decidiu enquadrar determinadas condutas consideradas homofóbicas e transfóbicas nos crimes previstos na Lei 7.716/1989 até a aprovação de legislação específica pelo Congresso. Não foi uma lei aprovada pelo Parlamento, mas uma interpretação judicial que ampliou a aplicação da legislação penal. O STF não poderia, mas está legislando.

Não há liberdade de expressão quando quem diverge procura transformar discussões públicas em assuntos de polícia. Se o autor denuncia um “pânico moral” conservador, deveria também examinar o recurso à acusação criminal como instrumento de intimidação.

A divergência também aparece na opinião pública. Pesquisa da Ágili, encomendada pela MATRIA e realizada entre 17 de junho e 2 de julho de 2026 com 1.116 eleitores, registrou, entre entrevistados autodeclarados de esquerda, 69,6% de rejeição à proposta sobre banheiros femininos, 65,6% à de transferência para presídios femininos e 71,9% à participação em categorias esportivas femininas, conforme as perguntas do levantamento.

Miguel sustenta que a direita se radicalizou enquanto o PT permaneceu moderado e conciliatório. Mas setores que aceitam tranquilamente alianças burguesas e políticas neoliberais procuram silenciar adversários em debates, revelando o quanto são autoritários.

O autor também critica o chamado “reducionismo econômico”, como se a defesa da centralidade da luta de classes significasse desprezo pelos direitos das mulheres. O marxismo não nega formas particulares de discriminação e reconhece que salários, jornadas, saúde, maternidade, moradia e violência estão vinculados às relações materiais da sociedade capitalista. A emancipação feminina não se realiza exigindo adesão a uma teoria, nem proibindo mulheres trabalhadoras e feministas de discutir políticas adotadas em seu nome.

O artigo de Miguel documenta uma forma de propaganda bolsonarista; a síntese de Nogueira da Costa a transforma numa explicação insuficiente para a controvérsia. Ficam de fora as feministas de esquerda, as divergências materiais e, sobretudo, o uso de acusações criminais contra posições políticas. O caso de Izadora Dias mostra a consequência concreta dessa orientação, que em vez de enfrentar os argumentos de uma candidata socialista, adversários recorreram à acusação de transfobia e chamam a polícia. O combate à discriminação serve de pretexto para a repressão de divergências políticas.

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