As eleições de 2026 no Distrito Federal representam uma derrota contundente para a política de frente ampla defendida pelo PT. Mesmo reunindo praticamente toda a esquerda parlamentar e procurando conquistar o apoio de políticos da direita tradicional, a candidatura de Leandro Grass (PT) foi derrotada por Celina Leão (PP). O resultado mostra que a tentativa de enfrentar a direita por meio de uma aliança cada vez mais ampla com setores da burguesia não impediu o fortalecimento eleitoral do bolsonarismo.
Com 100% das urnas apuradas, Celina Leão foi reeleita governadora com 987.142 votos, equivalentes a 57,18% dos votos válidos. Grass recebeu 739.130 votos, ou 42,82%. A diferença chegou a 248.012 votos.
A derrota ocorreu apesar de a oposição ter conseguido levar a disputa ao segundo turno, algo que não aconteceu em 2022, quando Ibaneis Rocha (MDB) venceu com 50,30% dos votos, contra 26,25% de Grass.
A candidatura de Grass reuniu PT, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede. No segundo turno, o petista buscou incorporar políticos do PSDB, Avante, Agir, Solidariedade, bem como o candidato Ricardo Cappelli (PSB).
A política foi defendida abertamente pelo próprio candidato. Em 1º de outubro, Grass declarou que a eleição não deveria ser reduzida a uma disputa entre direita e esquerda, mas à necessidade de retirar Celina Leão do governo. Chegou a afirmar: “Não é sobre lados”.
A consequência foi uma candidatura que procurava agradar simultaneamente aos trabalhadores descontentes com os serviços públicos e aos setores conservadores que sustentam a própria política responsável pela situação do Distrito Federal.
A contradição ficou particularmente evidente diante do escândalo envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, que atingiu o governo distrital. Mesmo com o desgaste provocado pelo caso e com as denúncias envolvendo a administração pública, Celina conseguiu uma vitória expressiva.
O resultado para o Senado é ainda mais revelador. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, conquistaram as duas vagas em disputa, com 938.496 e 886.616 votos, respectivamente. Leila do Vôlei (PDT), com 686.340 votos, e Erika Kokay (PT), com 610.950, ficaram de fora.
Com isso, a partir de 2027, o Distrito Federal terá três senadoras do campo bolsonarista, considerando também Damares Alves (Republicanos), eleita em 2022.
A mesma tendência apareceu na eleição presidencial. Flávio Bolsonaro venceu Lula no Distrito Federal por 54,28% a 45,72%, apesar de sua derrota nacional. O candidato do PL recebeu 979.542 votos, contra 825.224 do petista.
O contraste deveria provocar uma discussão séria no interior da esquerda. Há anos, o PT e o PSOL defendem que a principal tarefa política consiste em reunir todos os setores possíveis contra o bolsonarismo. Em nome desse objetivo, justificam alianças com partidos e personagens que participaram dos ataques aos direitos dos trabalhadores e da sustentação da política neoliberal.
O resultado dessa orientação é uma esquerda cada vez mais subordinada às necessidades eleitorais dos políticos burgueses. As reivindicações populares deixam de ser o centro da atividade política e passam a ocupar um lugar secundário diante da necessidade de preservar os acordos entre partidos.
Isso não significa que a população do Distrito Federal tenha aderido integralmente ao programa da direita. Significa que a esquerda parlamentar não conseguiu apresentar uma alternativa política capaz de romper a influência dos setores conservadores sobre parcelas importantes do eleitorado.
As eleições mostram também os limites da campanha baseada no medo da direita. O bolsonarismo conserva uma base eleitoral expressiva e não será derrotado simplesmente pela repetição de denúncias ou pela associação de mais partidos a uma coligação.
A política da frente ampla parte da ideia de que é necessário moderar o programa da esquerda para conquistar setores conservadores. Na prática, quanto mais concessões são feitas, menor é a capacidade de apresentar aos trabalhadores uma perspectiva própria.


