O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizou, na noite deste domingo (25), seu primeiro pronunciamento após ser reeleito para um quarto mandato. O discurso aconteceu em um hotel na cidade de São Paulo, depois da confirmação da vitória sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. Lula tornou-se o primeiro candidato a reverter uma derrota no primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira.
Durante a fala, que durou aproximadamente 23 minutos, Lula defendeu aprofundar o que chama de “regulamentação das redes sociais”, acusando as grandes plataformas digitais de interferirem nas eleições brasileiras. O presidente afirmou que as empresas precisam ser responsabilizadas pelo conteúdo divulgado e criticou a atuação das chamadas big techs. Também fez referências elogiosas ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), a quem destacou durante o discurso e pediu que falasse antes dele.
André Janones, a quem Lula se referiu como “general”, também foi mencionado durante a fala.
Confira a íntegra do pronunciamento:
A primeira coisa é que hoje a minha fala para a imprensa é de agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história deste país. Nós tivemos o menor número de votos nulos neste país. E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram junto conosco.
Mas eu queria agradecer ao povo brasileiro a generosidade que ele tem comigo há muito tempo. E, neste segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira, que foi para a rua para defender a democracia.
Quero agradecer às pessoas idosas. Eu vi muitas cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para ir votar. Pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outros tipos de doença. E as pessoas foram votar porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país.
Quero agradecer à sociedade como um todo. O que venceu, na verdade, essa eleição… Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para este país e tentando direcionar o resultado eleitoral deste país.
Esta eleição foi uma derrota do negacionismo. Foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que, cada vez que eu ia ao debate, eu ficava constrangido. Porque eu já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com o G20, com os BRICS, com o G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo. Discutimos os principais assuntos do mundo, mas eu nunca pensei em me deparar com o representante genuíno do “milicianismo” deste país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.
Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi neste segundo turno destas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na Avenida Paulista ontem, é algo que eu não acredito o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas, a gente nunca conseguiu ver. Não só pela quantidade de gente, mas pelo entusiasmo.
E eu fiquei muito emocionado, porque me deu vontade de pedir na frente do Masp para cantar o Hino da Independência. E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava: “Brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” — numa demonstração de que este país não aceita ser quintal de ninguém.
Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Holanda… Ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.
Eu quero agradecer a este companheiro aqui, o Janones. O nosso general, que teve um papel exponencial nesta campanha para levantar diariamente — de manhã, de tarde e de noite — a moral da nossa tropa.
E quero dizer que uma coisa eu aprendi. Vou falar aqui para vocês. Mas estas eleições me ensinaram muitas lições, muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar este país.
Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões. E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo.
Eu, inclusive, já ganhei o celular do meu comandante Rafael, governador do Piauí. Já estou aprendendo a conversar com o meu general. E podem ficar certos de que, daqui para frente, eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou, não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço.
Nestas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivaram foi a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS.
Eu, mais uma vez, quero dizer para vocês que, na medida em que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões. Tenho que governar para todas as cidades.
Mas, no próximo mandato, eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras.
Quero dizer para vocês que as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição. Eu não tenho preferência por nenhuma religião; eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro. E que eles exerçam a sua fé e a sua espiritualidade do jeito que quiserem. Ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena, para que a pessoa possa exercitar a sua fé.
Quero dizer para vocês que eu vou continuar fazendo a revolução da educação brasileira. Nós iremos universalizar as escolas de tempo integral neste país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio. E vamos criar um Pé-de-Meia universitário, para que nenhum jovem ou menina desista de estudar porque tem que trabalhar. Olha, iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana. Eu quero criar uma brasileira.
Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tem mais capacidade de energia renovável, para trazer para cá os data centers necessários para acumular também os nossos dados no Brasil. E essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para informações brasileiras.
Nós queremos fazer deste país um país que pare de ser um país em vias de desenvolvimento e se transforme num país desenvolvido. Como diria o Rafael: muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa.
Este país vai ser construído não por mim — porque muitas das coisas que eu estou falando eu nem sei —, é por vocês. Porque nós vamos exercitar o potencial criativo deste povo para deixar de ser um país periférico. Nós queremos ser um país central nas decisões políticas, econômicas e na decisão pela paz. E nós vamos ensinar ao mundo como é que se trata a política climática neste país.
E este ano é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento por quatro anos consecutivos neste país. Por isso eu quero agradecer à nossa companheira Marina, ao nosso companheiro Capobianco, que tiveram um trabalho extraordinário.
Mas, sobretudo, gente, nós vamos continuar acompanhando o Padilha fazendo a revolução no SUS. Eu estou convencido de que, logo, logo o Brasil será o país com maior percentual de tratamento de câncer entre todos os países do mundo.
Nós temos a nossa querida companheira Ludmila cuidando do nosso hospital inteligente, financiado pela companheira Dilma Rousseff, presidente dos BRICS, junto com a USP. E vamos ter 15 UTIs inteligentes neste país, para a gente não permitir que as pessoas morram por falta de tratamento ou por tempo.
Este país está pronto para ser construído. Eu não vou falar a palavra “unidade nacional”, porque essa palavra nem sempre cabe neste país. Mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, este país só tem que ser civilizado. Este país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos.
E ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição, na relação com o Congresso. Porque já tem gente falando que o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está mais conservador. Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.
Eu quero dizer para vocês que eu tenho um orgulho muito grande. Primeiro, porque eu sou o único presidente da República metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes democraticamente. No mundo, nós tivemos o Roosevelt, que foi eleito quatro vezes, mas não conseguiu terminar o seu mandato, porque tinha uma doença muito grave. Agora, o Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar este mandato inteiraço, correndo mais do que qualquer um de vocês.
Porque o respeito que eu adquiri pelo povo e o carinho que esse povo tem dedicado a mim, as manifestações de carinho que eu tenho recebido — sobretudo das mulheres brasileiras, é uma coisa que eu jamais imaginei. Eu jamais imaginei que um político poderia receber a quantidade de carinho, de homenagens e de palavras carinhosas. Eu devo isso a vocês.
Eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu. E por que eu fui escolhido por Deus?
Eu fui escolhido por Deus porque eu sempre acho que tem o dedo de Deus na minha cabeça. Eu sempre acho. Então eu quero agradecer a Deus e agradecer a vocês, homens e mulheres deste país, pela força que vocês demonstraram. Não fomos eu e o Alckmin que ganhamos estas eleições. Estas eleições foram a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para o filho de vocês que fizeram a gente virar. É importante saber que é a primeira vez que a gente virou, porque eu nunca ganhei no primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno.
Eu tenho dois meses pela frente para discutir o governo. Quero me reunir com os empresários, quero me reunir com os educadores, quero me reunir com os cientistas, quero me reunir com as mulheres, quero me… Vou me reunir com o Corinthians também, porque, o Corinthians perdeu outro jogo. Aonde que a gente vai? Tá parecendo o Bolsonaro, só perde.
Então, gente, é o seguinte. Podem ficar certos — eu quero que vocês anotem o que eu vou dizer aqui. Eu tô com 81 anos de idade . Vou completar depois de amanhã. Depois de amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade. E eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história deste país. Podem ficar certos.
Vou dedicar 24 horas por dia para fazer deste país um país que todo mundo sonha. Um país em que as pessoas saibam que vão dormir e vão acordar com muita tranquilidade.
O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública, porque a Constituição de 88 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar. Vamos entrar para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores a tranquilidade, a paz de que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão.
É isso, gente. Um abraço, gente. Eu vou para a Paulista encontrar vocês. E eu quero aproveitar o meu general jornalista aqui e dizer o seguinte: eu duvido que a Rússia, a China e os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia dentro deste país.



