Há um aspecto do governo Lula que, aparentemente, anima o Partido da Imprensa Golpista (PIG). Folha de S.Paulo e de O Globo passaram a elogiar a entrega dos transportes à exploração privada. Em janeiro, a Folha festejou os 50 leilões federais realizados entre 2023 e 2025. Nesta sexta-feira (23), O Globo saudou o novo leilão do Aeroporto do Galeão. Os Marinho e os Frias defendem a continuidade da mesma política caso Lula se reeleja.
O editorial da Folha, publicado em 18/01, recebeu o título A privatização que o PT aprende a aceitar. O jornal fez questão de explicar o que o governo procura disfarçar com a palavra “concessão”. Embora uma rodovia permaneça formalmente pertencendo à União, a empresa vencedora do leilão recebe o direito de administrá-la, explorar seus serviços e cobrar pedágio pelo prazo do contrato. A transferência da operação e de suas receitas é precisamente o que interessa ao capitalista.
Para o jornal, o resultado do governo petista é motivo de comemoração. Foram 50 concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos em três anos, contra 45 no mandato de Jair Bolsonaro e 26 nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, segundo os números publicados pela Folha. Das 160 operações registradas desde a Lei de Concessões, de 1995, quase um terço foi realizado sob o atual governo. A comparação mostra quão direitista se tornou o terceiro mandato de Lula.
A conta reúne empreendimentos distintos. Até o fim de 2025, o governo havia feito 22 leilões de rodovias e concedido 26 terminais portuários, conforme levantamento feito com base em dados dos ministérios responsáveis. Entre as rodovias estão a BR-381, em Minas Gerais, e trechos no Paraná. Nos portos, o Estado concedeu terminais e o canal de acesso a Paranaguá. O transporte de pessoas e mercadorias depende diariamente dessa infraestrutura. E os 50 leilões elogiados em janeiro não incluem as operações de 2026.
O Globo escolheu o Galeão para defender a mesma orientação política. Seu editorial de ontem (23), Nova concessão do Galeão é prova do êxito da privatização dos aeroportos, trata a vitória da espanhola Aena no novo leilão como uma demonstração de que a administração privada funciona. Segundo o jornal, a empresa promete investir R$ 1 bilhão no terminal carioca em três anos. A promessa de investimento virou argumento para promover a entrega de outros aeroportos.
O próprio histórico narrado por O Globo dá menos motivos para festa. Em 2013, o Galeão foi leiloado para um consórcio formado por Odebrecht e Changi. A Odebrecht vendeu sua participação quatro anos depois. Em 2022, diante do faturamento abaixo das expectativas, o consórcio pediu para devolver a concessão. O poder público restringiu voos no Santos Dumont, negociou uma repactuação contratual e organizou outro leilão, vencido pela Aena. Foram necessários anos de intervenção estatal para acomodar a crise do negócio privado.
O jornal considera um triunfo a possibilidade de substituir uma concessionária que quer sair por outra disposta a entrar. Mas por que um aeroporto indispensável ao Rio de Janeiro deve depender de investidores satisfeitos com suas receitas? Se as projeções de lucro falham, a empresa pode procurar a porta de saída. O Estado continua obrigado a assegurar o serviço e a encontrar condições para atrair a próxima operadora.
Também não cabe confundir valores anunciados com dinheiro já investido. O Globo contabiliza sete rodadas de leilões envolvendo 59 aeroportos e R$ 57,6 bilhões em outorgas previstas ao longo das concessões. Essas outorgas têm como contrapartida o direito de explorar os terminais. Os contratos podem ainda prever obras, cuja realização precisa ser cobrada durante anos. O pedido de devolução do Galeão é uma razão concreta para examinar os riscos assumidos pelo poder público.
Há uma escolha igualmente reveladora na distribuição dos aeroportos. O editorial informa que, após a concessão de Congonhas, a Infraero passou a administrar 22 terminais regionais, em sua maioria deficitários. Grandes aeroportos capazes de atrair empresas saem de sua gestão; parte dos serviços que exigem recursos permanece com a estatal. Depois de expor essa divisão, O Globo recomenda novos estudos sobre o que ainda pode ser retirado das mãos do Estado. Quer aumentar a parcela oferecida aos empresários, a partir do sucateamento feito pelas administrações neoliberais, moldado justamente para esse objetivo.
A Folha apresenta justamente a falta de investimento público como justificativa para a entrega. Seu editorial estima que os gastos do Tesouro com infraestrutura estejam perto de 0,5% do Produto Interno Bruto e aponta o capital privado como saída. A escassez, porém, resulta inteiramente das decisões do governo. Lula submete as despesas ao arcabouço fiscal, mantém o pagamento de juros aos bancos e não organiza uma política de grandes obras executadas diretamente pelo Estado. Restringe a capacidade pública de investir e depois usa essa restrição como motivo para conceder estradas, portos e aeroportos.
O próprio Ministério dos Transportes mostra que o Estado não desaparece desses negócios. Em 15/10, apresentou para 2027 uma carteira com 11 contratos rodoviários e 18 projetos ferroviários, associados a R$ 262,6 bilhões em investimentos previstos. Não se trata de obras já feitas. Para viabilizar os projetos de ferrovias, a pasta menciona aportes governamentais, garantias públicas e financiamento especial do BNDES. Há recursos e instrumentos públicos mobilizados para abrir novas oportunidades ao capital privado.
Os jornais tampouco pretendem parar no ponto a que Lula chegou. A Folha, depois de louvar o recorde de concessões, reclamou da demora na venda de estatais e citou os Correios. O Globo celebrou expressamente a transformação da privatização dos aeroportos em política permanente, qualquer que seja o partido no governo. As entregas feitas até agora contam a favor de Lula diante desses jornais; uma eventual reeleição, avisam eles, deve trazer outras.
Em 2022, Lula pediu votos declarando-se contrário às privatizações. Trabalhadores que esperavam o fim dessa política encontram agora um governo elogiado justamente pelos jornais que a defendem. A propriedade formal de uma estrada pode continuar pública, mas sua operação e a arrecadação passam por décadas às empresas concessionárias. Chamar isso de parceria não altera quem ganha o direito de lucrar com o patrimônio construído pelo País.
Se Folha e O Globo elogiam Lula nesse ponto, é porque ele fez o que o grande capital queria. A carteira preparada para 2027 indica que está disposto a continuar. Não há política de esquerda ou nacionalista na entrega de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos aos vampiros capitalistas.
A burguesia chega tranquila ao segundo turno: Lula já aplicou seu programa de concessões, e Flávio Bolsonaro promete aprimorá-lo. Qualquer um dos vencedores poderá servir aos empresários enquanto os direitos e as necessidades do povo ficam para depois.





