Lula e Flávio Bolsonaro assinaram na quinta-feira (22) um acordo para abrir sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos candidatos e de pessoas e empresas ligadas a eles. Faltavam três dias para o segundo turno. Não haverá investigação conclusiva nesse prazo, mas já há discursos prontos sobre a suposta coragem de abrir as contas. É tudo uma encenação.
A campanha de Lula propôs o desafio. A de Flávio exigiu os dados do presidente e de pessoas próximas. Os adversários passaram a negociar quais parentes, empresas e registros entrariam no acordo levado ao idolatrado Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A poucos dias da votação, a disputa por uma lista de nomes tomou o lugar de qualquer reivindicação dos trabalhadores.
Fernando Schüler, colunista do Estadão, tratou a guerra dos sigilos como um truque de marketing. Acertou ao apontar que um volume de registros dessa dimensão só poderia render, até domingo, divulgação seletiva. Uma campanha destacaria uma movimentação; a outra apresentaria sua explicação ou apontaria um dado do adversário. O eleitor receberia fragmentos escolhidos por interessados na vitória de Lula ou de Flávio.
Como um comentarista burguês, Schüler erra, porém, ao dizer o que essa farofada esconderia. A imprensa burguesa reclama que as campanhas deveriam falar de privatizações, cumprimento das metas fiscais e outras coisas que interessam aos banqueiros. Elas falam muito sobre isso quando prometem aos capitalistas respeitar seus negócios. A questão do sigilo não é para encobrir essa discussão. É uma forma de atrair a classe média ao invés de propor uma política minimamente popular.
Lula joga no terreno tradicional da direita: acusações financeiras pessoais, relações supostamente corruptas, parentes e amigos convertidos em personagens de uma intriga eleitoral. Flávio conhece bem esse jogo e devolve cada suspeita com outra. São picuinhas para o público de classe média liberal e conservadora, que não sente na pele as necessidades materiais dos trabalhadores. A campanha pede a esse público que julgue a moralidade dos candidatos, sem exigir uma medida sequer em favor de quem trabalha.
O trabalhador que passa horas num transporte lotado tem salário baixo, enfrenta a fila enorme do SUS e convive com a violência policial nos bairros pobres. O governo teve quatro anos para elevar os salários, ampliar os serviços públicos e enfrentar a repressão. Agora sua campanha oferece o exame das contas do adversário como se ali estivesse a solução para o aperto de milhões de famílias.
O piso do Bolsa Família, por exemplo, ficou em R$ 600 desde 2023. O reajuste para R$ 691 foi anunciado somente em 17/9, na reta final do primeiro turno, para entrar em vigor em outubro. Durante mais de três anos, as famílias tiveram de enfrentar a carestia com o benefício congelado. É sobre decisões tomadas pelo próprio governo que Lula deveria prestar contas aos trabalhadores. Nenhum extrato de Flávio Bolsonaro explica por que o aumento veio apenas às vésperas da eleição.
Uma suspeita de corrupção deve ser investigada, e uma denúncia comprovada tem consequências. Justamente por isso, não pode ser reduzida a uma fotografia de extrato exibida na véspera da eleição. A pressa das duas campanhas serve à propaganda, que pode transformar qualquer número isolado numa acusação sem esperar a explicação de sua origem.
A campanha do PT está dominada pela classe média. O partido está quase totalmente integrado ao regime político do golpe de 2016, apesar de ter sido o seu alvo principal. Quer no Ministério da Fazenda Geraldo Alckmin, símbolo da direita tradicional, e recorre ao TSE para administrar uma briga publicitária com o bolsonarismo. Daí vem a distância colossal da classe operária: a direção petista não tem projeto para os trabalhadores que possa apresentar. Por isso faz essa farofada.
O método não começou com os sigilos. Em 17/10, Lula aderiu à convocação de André Janones para vestir a camisa da seleção e substituir o vermelho por uma campanha destinada a conquistar quem, nas palavras do deputado, “não é de esquerda”. O partido nascido das greves operárias esconde a própria cor para agradar a setores conservadores. A disputa sobre contas bancárias obedece ao mesmo cálculo: fala-se a língua desse eleitorado, enquanto as reivindicações da classe operária são deixadas de lado, como o PT vem fazendo crescentemente ao longo das últimas três décadas.





