Presidentes de partidos do Centrão aconselharam Flávio Bolsonaro a abandonar o impeachment de Alexandre de Moraes e negociar com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) se for eleito presidente. Segundo Bela Megale, de O Globo, alegaram que os cortes de gastos e as medidas impopulares previstos para um governo do PL serão questionados pela oposição na Justiça. Flávio, disseram, precisará de uma relação pacífica com o tribunal. Ele ouviu o conselho e permaneceu em silêncio.
A base bolsonarista quer a cabeça de Moraes pela ditadura que ele instalou no País, pela perseguição aos políticos bolsonaristas e aos manifestantes do 8 de Janeiro, pela censura de publicações e pelo bloqueio de perfis nas redes sociais. Seus eleitores esperam que Flávio enfrente a ditadura do STF, sobretudo de Moraes. Agora, dirigentes com os quais ele pretende governar aconselham exatamente o contrário.
A indignação popular contra as instituições foi um motor importante e fundamental da vitória de Flávio no primeiro turno e pode decidir o segundo. Ele obteve 56,1 milhões de votos, 47,03% dos válidos, e chegou à disputa final à frente de Lula. A perseguição judicial a Jair Bolsonaro permitiu ao filho apresentar-se como adversário do regime. Para milhões de eleitores, o nome Bolsonaro passou a representar uma resposta às arbitrariedades do STF.
Moraes acumulou poderes para retirar publicações, bloquear contas e conduzir processos políticos. As condenações relativas ao 8 de Janeiro transformaram pessoas como Débora Rodrigues dos Santos, sentenciada a 14 anos por escrever com batom numa estátua, em símbolos da repressão. O DCO denunciou essas medidas quando atingiram a direita. Em 2022, o PCO, adversário de Bolsonaro e defensor da candidatura de Lula, também teve suas redes bloqueadas por ordem do ministro.
O escândalo Moraes-Vorcaro agravou a crise. Em setembro, o STF encerrou sem decisão a sessão que examinaria a abertura de uma investigação: Flávio Dino pediu vista e interrompeu o julgamento. Para os que já exigiam o impeachment, as revelações deram ainda mais força ao clamor pela derrubada de Moraes.
Os dirigentes do centrão querem conservar o ministro por uma razão prática: temem uma crise institucional ainda maior caso haja um enfrentamento aberto entre o Executivo e o Judiciário. Além disso, eles são representantes daquilo que a burguesia quer implementar no futuro governo: privatizações, cortes de gastos com o povo e enxugamento do Estado. Se a oposição contestar os cortes pretendidos pelo Planalto, uma negociação prévia com o tribunal poderá facilitar sua execução. O Centrão é a ala mais oportunista da política nacional, a ala dos acordos e da manutenção da estabilidade. Seu conselho transforma o impeachment de Moraes em peça de uma barganha sobre os rumos do próximo governo.
Flávio é um político tradicional, oportunista e demagogo, considerado pela própria família o Bolsonaro moderado e com bons vínculos com o centrão. Pode atacar o “sistema” diante dos eleitores e discutir com seus representantes a distribuição de postos num futuro governo. Já deu outra demonstração de oportunismo: condena a censura contra bolsonaristas, mas sua campanha apela todos os dias para que o TSE censure seus adversários.
Rogério Marinho, coordenador da campanha e favorito para presidir o Senado, procurou Edson Fachin depois do primeiro turno para prometer que não haveria “vingança” num governo do PL. Antes, havia percorrido gabinetes de outros ministros. Integrantes do Supremo também começaram a procurar uma acomodação com o bolsonarismo fortalecido, com a possibilidade de que ele volte ao poder. O conselho do centrão mostra o que uma parte dos aliados de Flávio deseja obter nessas conversas: a permanência de Moraes.
Cabe ao presidente do Senado dar andamento aos pedidos de impeachment de ministros do STF. Marinho já se declarou favorável ao afastamento de Moraes, e Flávio quer o PL no comando da Casa. O partido elegeu 28 dos 81 senadores, mas essa vitória parlamentar não lhe dá maioria própria. Todo governo depende do Centrão para aprovar medidas e sustentar-se nas crises. Mesmo que Marinho presida o Senado, os demais partidos poderão pressionar o Planalto a engavetar o processo.
Se Flávio poupar Moraes para preservar suas relações com o Centrão, será visto quase como um traidor por sua própria base. Ela espera a saída do ministro; os dirigentes com quem o candidato pretende governar querem que ele continue no STF. A resposta de Flávio a essa contradição, por enquanto, foi o silêncio.





