Eleições 2026

O ‘vira voto’ é puxado pela classe média, comprova pesquisa

Segmentos mais empenhados são os de renda superior a cinco salários mínimos e ensino superior completo

De cada cem eleitores de Lula, 18 dizem fazer campanha ativa pela reeleição do presidente. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, são 11. A pesquisa Quaest, divulgada nesta sexta-feira, 23/10, encontrou uma divisão social entre os que se empenham na disputa: quanto maiores a renda e a escolaridade, maior a proporção de pessoas dispostas a fazer campanha. O “vira voto” que o PT procura apresentar como mobilização popular é puxado pela classe média.

Entre os entrevistados com ensino fundamental, 7% participam da campanha eleitoral. O número sobe para 14% entre os que têm ensino médio e chega a 25% entre os que cursaram o ensino superior. Por renda, a proporção é de 9% até dois salários mínimos, 12% de dois a cinco e 19% acima de cinco salários mínimos. São as maiores porcentagens nos recortes por renda e escolaridade. Esses dados incluem eleitores dos dois candidatos em cada grupo; os 18% de Lula e os 11% de Flávio são outro recorte do levantamento.

O contraste com o barulho da campanha também merece atenção. No conjunto da pesquisa, 13% afirmam estar trabalhando por seu candidato; 82% dizem que não participam nem pretendem participar. É uma minoria que faz campanha, e sua participação cresce nas faixas de maior renda e escolaridade.

Essa composição ajuda a explicar o teor da propaganda petista. A redução da maioridade penal passou a integrar a campanha quando Lula declarou apoio à responsabilização penal a partir dos 16 anos nos casos de crimes hediondos. A medida sempre foi exigida pela direita e recairá sobre a juventude pobre, alvo preferencial da polícia e do Judiciário. Parte dos apoiadores do presidente tratou de justificar sua declaração como manobra para ganhar o voto conservador. Pedem à esquerda que defenda uma proposta direitista para impedir que a direita chegue ao governo.

A disputa com Flávio foi empurrada também para denúncias de caráter sexual, moral e de corrupção contra o candidato do PL. Suspeitas viram material de propaganda antes que se discuta qualquer reivindicação dos trabalhadores. A elas se juntam os apelos religiosos e o desafio de quebra de sigilo. Os dois candidatos se provocam diante das câmeras, enquanto o salário, as jornadas de trabalho, os preços e a entrega do patrimônio público ficam fora do centro da campanha. O PT aposta que uma acusação contra o adversário fará o serviço que seu programa não pode fazer.

Os comícios de rua seguem a mesma orientação. São realizados sobretudo pelo movimento estudantil identitário, de classe média, convocado a pedir votos para Lula. Nesses atos, o esforço militante é consumido na defesa eleitoral de uma frente ampla que incorpora a direita tradicional e mantém as reivindicações populares à distância.

A reversão das privatizações nem sequer é cogitada, ao contrário de 2022. Tampouco são a revogação das reformas trabalhista e previdenciária ou o fim das terceirizações, todas elas impostas pelo golpe de 2016 contra o PT. Cada uma dessas medidas atingiria interesses patronais e poderia reunir os trabalhadores em torno de objetivos próprios. Lula governa com Geraldo Alckmin e boa parte da corja que articulou o golpe de 2016, por isso mesmo não se fala em reverter o resultado daquele golpe. Em lugar de prometer desfazer os ataques que empobreceram a população, sua campanha procura converter o medo de Flávio em autorização para manter a frente ampla no poder.

O DCO já havia examinado a votação do primeiro turno no Rio de Janeiro. Ao cruzar resultados por bairro com a renda média, o levantamento mostrou Lula mais forte nas áreas ricas e Flávio crescendo nas áreas pobres. Isso não transforma Flávio em defensor da classe operária. Mostra o terreno que o PT deixou aberto ao bolsonarismo ao governar para banqueiros e patrões e abandonar as reivindicações dos setores que historicamente lhe davam apoio.

O conteúdo de classe da campanha de Lula é o motivo de ser tão direitista. Também revela por quem o PT é dominado e está sendo cada vez mais dominado: uma classe média liberal alheia aos trabalhadores e direitista. Ela se dispõe a percorrer ruas e redes para derrotar Flávio, mas motivada pelas ideias da direita que o PT encampa em sua campanha.

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