Entrevista

Rui Pimenta denuncia perseguição judicial e critica transformação do PT em partido do regime

Presidente do PCO falou sobre STF, eleições, autoritarismo da esquerda pequeno-burguesa, comunismo e mobilizações populares

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, participou do programa Conversas do Além, transmitido pelo canal Muito Além da Imaginação, no YouTube. Durante mais de uma hora, o dirigente trotskista respondeu a perguntas dos apresentadores e do público sobre a perseguição judicial ao Partido, a transformação política do PT, o crescimento do bolsonarismo, a situação internacional e as perspectivas da luta revolucionária.

A conversa começou com os processos movidos contra o PCO e seu presidente, passou pela política da esquerda brasileira nas últimas décadas e chegou à disputa presidencial de 2026. Rui também explicou por que o Partido não pretende abandonar suas posições comunistas para conquistar votos ou agradar a setores da opinião pública.

Ao longo da entrevista, uma das principais críticas do dirigente foi dirigida à esquerda que, segundo ele, abandonou a organização popular, aproximou-se das instituições do regime político e passou a defender medidas autoritárias em nome do combate à direita.

Perseguição política e arbitrariedades do STF

Questionado sobre sua inclusão no chamado inquérito das fake news, conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, e sobre as operações da Polícia Federal contra o PCO, Rui afirmou que os procedimentos têm caráter político.

O dirigente lembrou que o Partido sempre defendeu a extinção do Supremo Tribunal Federal (STF), denunciou a exclusão de Lula das eleições de 2018 e criticou a atuação das autoridades judiciais em diferentes episódios. Para ele, essas posições, inteiramente legítimas no debate político, foram transformadas em motivo para investigações.

“Bom, o caso com o inquérito das fake news é perseguição política, porque o inquérito era um inquérito político e era um inquérito de perseguição política. As pessoas estavam sendo caçadas aí pelo STF por coisas que elas disseram na internet. Isso daí caracteriza muito claramente um processo político. Nós fizemos algumas colocações políticas, por exemplo, é uma posição tradicional nossa que o STF não deveria existir. Então, nós sempre pedimos a extinção do STF.”

Rui também destacou que as divergências com o Judiciário não ficaram restritas ao episódio de 2022. O PCO continuou denunciando a atuação do STF, inclusive durante os processos contra Jair Bolsonaro e os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.

Segundo ele, a relação entre o Supremo, o Ministério Público e a Polícia Federal constitui um mecanismo de perseguição a adversários políticos.

O presidente do Partido relatou ainda seu depoimento recente à Polícia Federal, no âmbito de uma investigação sobre a contratação de empresas ligadas a militantes do PCO. Rui explicou que os contratos foram declarados à Justiça Eleitoral e que sua realização, conforme a orientação jurídica recebida pelo Partido, é legal.

“Eu expliquei também na Polícia Federal que as empresas que nós contratamos são de militantes do PCO, porque são empresas que foram criadas primeiro para servir o PCO mesmo, e para servir o movimento popular no qual a gente participa. Por isso nós contratamos essas empresas. Eles acharam suspeito até que nós contratássemos o advogado do partido para advogar para o partido nas eleições, que eu acho uma coisa meio kafkiana.”

O dirigente afirmou que os investigadores não apresentaram indícios concretos de desvio de recursos e que o Partido enfrenta aproximadamente dez processos em andamento.

A aliança do PT com as autoridades judiciais

Os apresentadores perguntaram como antigos integrantes da esquerda, que participaram da luta contra a ditadura militar, passaram a apoiar medidas consideradas autoritárias.

Rui fez uma distinção entre a responsabilidade direta pelas investigações e o apoio político dado às autoridades judiciais. Segundo ele, seria incorreto atribuir a perseguição diretamente ao PT, mas o partido deve ser criticado por sua associação com o STF e por defender decisões contrárias às liberdades democráticas.

“Na realidade, eu não posso atribuir a perseguição diretamente ao pessoal do PT, seria uma injustiça. O que eu, sim, critico é a proximidade, a aliança, a parceria que o PT tem com essas autoridades, o apoio que eles dão a atos que eu considero que são inconstitucionais e antidemocráticos.”

Rui contestou também a versão segundo a qual o PT teria sido o responsável pelo fim da ditadura militar. Ele lembrou que a mobilização de milhões de trabalhadores e estudantes já estava em andamento antes da fundação do partido, em 1980.

“Essa conversa de que o PT livrou o país da ditadura é conversa mole. Não foi o PT que livrou o país da ditadura, foi o povo brasileiro. Eu participei dessas mobilizações. O PT veio se formar já no apagar das luzes da luta contra a ditadura. O PT começa a se organizar em 1980, momento em que a ditadura já estava bastante esgotada. Teve muita greve, teve muita luta, não foram eles.”

O dirigente acrescentou que o autoritarismo não surgiu recentemente na esquerda. Sua experiência no movimento estudantil e operário teria mostrado que disputas por cargos, dinheiro e privilégios frequentemente se sobrepõem à defesa de princípios políticos.

Como exemplo, citou a exclusão de representantes do PCO de debates eleitorais organizados por setores da própria esquerda. Para Rui, essa prática reproduz o tratamento dispensado ao Partido pela imprensa capitalista e pela Justiça Eleitoral.

Como o PT se transformou em um partido eleitoral

Ao abordar sua participação na formação do Partido dos Trabalhadores, Rui afirmou que a disputa sobre o caráter da organização surgiu praticamente desde sua fundação.

De um lado, explicou, estavam os setores interessados em construir um instrumento de luta da classe trabalhadora. Do outro, a ala de Lula e outros agrupamentos que pretendiam transformar o PT em uma estrutura voltada fundamentalmente para a disputa eleitoral.

“Logo de cara se estabeleceu uma disputa dentro do PT. Havia uma ala, que era a ala do próprio Lula e de outros setores, que achava que o PT deveria ser um aparato eleitoral, e outros que achavam que o PT deveria ser um instrumento de luta da classe trabalhadora. Quer dizer, logo de cara já apareceu esse problema.”

Rui utilizou a experiência de Diadema, município paulista onde militava no começo dos anos 1980, para ilustrar esse conflito. Nas eleições de 1982, o PT conquistou a prefeitura da cidade e seis cadeiras na Câmara Municipal.

Segundo o dirigente, a organização partidária local era formada essencialmente por trabalhadores, incluindo uma presença expressiva dos militantes da corrente que posteriormente daria origem ao PCO.

Entretanto, depois da vitória eleitoral, a direção petista teria marginalizado os militantes locais e incorporado intelectuais que não participavam anteriormente da organização para compor o governo municipal.

O episódio provocou uma crise interna e antecipou, na avaliação de Rui, o caminho que o PT seguiria nas décadas posteriores. A transformação ocorreu gradualmente, até culminar em sua adaptação ao funcionamento dos partidos tradicionais do regime.

O PCO não vai esconder o comunismo para conquistar votos

Outro momento da entrevista foi dedicado à relação do PCO com pessoas que não se identificam com o comunismo, incluindo setores da direita que manifestam simpatia por determinadas posições do Partido.

Os apresentadores perguntaram se seria possível aumentar o apoio eleitoral ao PCO retirando referências ao marxismo, aos revolucionários e à própria revolução.

Rui rejeitou completamente essa possibilidade. Para ele, conquistar simpatia popular não exige esconder posições políticas, mas explicar o programa do Partido e demonstrar sua correção na prática.

“Nós não estamos enganando ninguém. E logicamente nós não iríamos camuflar aqui os nossos objetivos para conseguir voto. Não é a nossa política. A nossa política é ir em frente aí com as bandeiras desfraldadas. Quem gostar, gostou; quem não gostar, não gostou. E eu acho que tem muita gente que está falando isso que nós podemos convencer.”

O presidente do PCO afirmou que existe muito preconceito contra o comunismo, inclusive entre pessoas que concordam com algumas posições democráticas defendidas pelo Partido.

Em sua avaliação, grande parte dessas opiniões resulta do desconhecimento das ideias marxistas. A tarefa dos revolucionários seria debater amplamente, inclusive com pessoas que hoje se identificam com a direita.

“Nós temos que debater com todo mundo, sem preconceito, sem restrição, e acreditar. O meu ponto de vista, que é o ponto de vista do PCO, é o seguinte: nós procuramos defender aquilo que nós consideramos que é uma política verdadeira de interesse da maioria do povo. Se o que nós acreditamos é correto, então a verdade tem o potencial de convencer todo mundo.”

Rui concluiu esse trecho reafirmando que o Partido não pretende renunciar à sua identidade: “Não vamos abdicar do comunismo, nada disso, não.”

O trabalhador não é gado

Uma das discussões mais extensas da entrevista tratou da relação entre a esquerda e os trabalhadores que apoiam Jair Bolsonaro ou seu filho, Flávio Bolsonaro.

Os apresentadores criticaram a tendência de determinados setores petistas de classificar os eleitores bolsonaristas como fascistas, ignorantes ou pessoas moralmente perversas.

Rui considerou esse comportamento uma demonstração do afastamento da esquerda institucional em relação à população trabalhadora. Para ele, é absurdo tratar dezenas de milhões de brasileiros como inimigos apenas por sua escolha eleitoral.

“Eu acho que isso daí mostra que o PT é um partido da burocracia estatal, é o partido de uma elite hoje em dia, não é um partido do povo. Porque eu nunca vi, sinceramente, esse tipo de tratamento no movimento operário. No movimento estudantil pode ser, porque estudante não é operário, estudante também é uma elite. Mas no movimento operário, se você vier com esse discurso aí, você vai ficar falando sozinho, na melhor das hipóteses.”

O dirigente recordou sua experiência nas primeiras campanhas eleitorais do PT. Na época, os militantes procuravam conversar com os trabalhadores nas ruas, distribuir materiais e apresentar suas propostas sem exigir concordância prévia.

Essa atitude, segundo ele, contrasta com o comportamento de setores que procuram convencer o eleitorado por meio de acusações e ameaças.

“Movimento popular, a pessoa tem que ter humildade para conversar com o trabalhador. Você não pode sair por aí gritando e dando ordens. O trabalhador não é gado, não existe isso. E eu acho que tem que respeitar as pessoas por algum motivo. A pessoa está votando, ela tem motivo. Por que você vai presumir que a pessoa está votando por alguma coisa muito estranha? Eu, inclusive, entendo muita gente que vota no Bolsonaro. Eu não votaria, mas eu entendo por que o pessoal vota.”

Para Rui, a esquerda deveria procurar compreender as expectativas e necessidades que levam parte da classe trabalhadora a apoiar o bolsonarismo. Em vez disso, a direção petista estaria preocupada em responsabilizar moralmente os eleitores por uma eventual derrota.

Ele avaliou que esse comportamento expressa o desespero eleitoral de uma organização que perdeu sua ligação com importantes setores populares.

A eleição e os limites da política parlamentar

Ao analisar a disputa presidencial, Rui afirmou considerar provável uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Sua avaliação foi apresentada como uma previsão política, baseada no resultado do primeiro turno e na situação das forças em disputa.

O dirigente criticou a mobilização eleitoral promovida pelo PT na reta final da campanha. Segundo ele, a direção petista passou a convocar manifestações depois de anos sem organizar uma mobilização de massas consistente contra os problemas enfrentados pela população.

“Muita gente está empolgada: olha quanta gente na rua. Eu não consigo ficar empolgado porque eu sei que tudo aquilo que eles não fizeram, de chamar o povo para a rua em 20 e tantos anos, eles estão fazendo agora porque eles estão perdendo a eleição. Então é uma coisa meio lamentável, na realidade.”

Rui ressaltou que muitos participantes dessas manifestações acreditam sinceramente estar defendendo os interesses populares. Sua crítica foi dirigida principalmente às direções políticas que subordinam a mobilização das ruas às necessidades eleitorais.

Ele lembrou que o PCO apoiou excepcionalmente Lula em 2022, mas advertiu desde então que a vitória por margem apertada exigia reconhecer a força social do bolsonarismo.

Segundo Rui, o PT ignorou essa advertência e passou a tratar a direita bolsonarista como se fosse equivalente ao antigo PSDB, um partido essencialmente burocrático, sem uma mobilização popular comparável.

O dirigente destacou que o bolsonarismo possui uma base de massas que não pode simplesmente ser desconsiderada. Ao mesmo tempo, afirmou que a classe trabalhadora, o setor social mais importante, ainda não entrou plenamente em movimento.

ONGs, identitarismo e influência do imperialismo

A entrevista também abordou o financiamento de organizações não governamentais por grandes fundações privadas internacionais, como a Ford Foundation e a Open Society Foundations.

Questionado sobre o interesse de organizações ligadas a grandes fortunas em financiar movimentos apresentados como progressistas, Rui afirmou que essas iniciativas podem funcionar como instrumentos de influência política sobre países dominados.

“É um processo de manipulação política muito evidente. Para algumas pessoas com menor experiência política pode parecer estranho, porque o programa dessas organizações parece ser muito democrático, defender os oprimidos e essa coisa toda. Isso é, na verdade, uma ilusão de ótica. O que acontece é que, para você manipular a opinião pública, você precisa se apresentar com essa fisionomia bondosa. Mas é puramente uma fachada, é manipulação, é corrupção política.”

Na análise apresentada pelo dirigente, o imperialismo não atua exclusivamente por intervenções militares. O controle político pode ser exercido também pelo financiamento de organizações, pela influência sobre a opinião pública e pela formação de setores sociais alinhados aos interesses das potências dominantes.

Rui citou a Rede Globo como exemplo de uma empresa que adota amplamente o discurso identitário, apesar de seu histórico de apoio à ditadura militar e de participação em campanhas políticas reacionárias.

Ele argumentou que a defesa formal de determinadas causas não significa, necessariamente, compromisso com a emancipação dos trabalhadores e dos setores oprimidos.

Pandemia, farmacêuticas e censura

Ao discutir a pandemia de covid-19, Rui criticou a postura de setores da esquerda diante das grandes empresas farmacêuticas e das medidas de restrição ao debate público.

Segundo ele, as direções do PT, PSOL e PCdoB incentivaram uma confiança excessiva em grandes corporações privadas, quando a política de uma organização operária deveria partir da independência diante do Estado e do grande capital.

O presidente do PCO afirmou que diversas críticas foram silenciadas durante a crise sanitária. Ressaltou, entretanto, que o Partido não adotou as diferentes teorias que circularam a respeito da pandemia, considerando que muitas delas não haviam sido demonstradas.

Rui explicou que a intervenção do PCO se concentrou em questões políticas, especialmente na oposição à vacinação compulsória e à proibição de questionamentos públicos.

Para ele, a defesa da vacinação não deveria impedir o debate sobre decisões governamentais ou a fiscalização de empresas farmacêuticas. Essas posições foram apresentadas pelo dirigente como parte de sua defesa das liberdades individuais e políticas.

“Eu acho que a crítica é uma coisa essencial em todo tipo de ação dentro da sociedade. Ninguém deve seguir como um carneiro as orientações sem questionar. Eu, por exemplo, acompanho a discussão, eu vi o que as pessoas falaram. Tem muita teoria sobre o que aconteceu na pandemia. Nós não adotamos nenhuma teoria dessas, até porque é difícil de você provar.”

Rui associou o ambiente político criado durante a pandemia ao crescimento posterior das campanhas de censura contra as redes sociais e a liberdade de expressão.

Comunismo e o desaparecimento do Estado

Em resposta a uma pergunta sobre como funcionaria a administração de uma sociedade comunista, Rui explicou que o objetivo final do comunismo não é ampliar indefinidamente o poder estatal, mas superar a própria existência do Estado.

O dirigente distinguiu esse objetivo histórico das medidas transitórias necessárias após uma revolução, quando a classe trabalhadora precisa enfrentar a resistência das antigas classes dominantes.

“Os comunistas almejam o desaparecimento completo do Estado. O Estado é uma ditadura. Se você quiser ter uma sociedade verdadeiramente livre, não pode ter Estado. Nas palavras, acho que do Engels, a gente teria que substituir a administração das pessoas pela simples administração das coisas. Isso daí seria o fim do Estado. Você teria uma administração, mas uma administração puramente técnica.”

Rui citou a obra O Estado e a Revolução, de Lênin, e explicou que a chamada ditadura do proletariado corresponde a uma necessidade histórica do período revolucionário, não ao modelo definitivo de uma sociedade comunista.

Para ele, confundir as medidas excepcionais adotadas em uma situação de guerra civil com a organização permanente do comunismo constitui uma deformação da teoria marxista.

Marxismo, liberalismo e desenvolvimento nacional

Outro participante perguntou se Rui abandonaria suas convicções caso fosse demonstrado que o marxismo estava errado. O dirigente respondeu que considera o marxismo uma ciência e que, portanto, suas conclusões devem estar abertas ao exame crítico.

Ele observou, porém, que sua convicção resulta de quase cinco décadas de estudo e militância política.

Questionado sobre a Escola Austríaca de Economia, Rui afirmou conhecer seus princípios gerais e considerou o liberalismo uma concepção historicamente superada pela própria evolução do capitalismo.

Segundo ele, a crise de 1929 mostrou os limites do capitalismo liberal, levando os Estados capitalistas a instituir mecanismos de intervenção econômica e controle político cada vez maiores.

“O capitalismo não suporta, ele não tem condições de ser um capitalismo liberal. E se as receitas do liberalismo fossem colocadas em prática totalmente, isso aí levaria a uma crise total do capitalismo. O capitalismo tem que exercer uma verdadeira ditadura. É o oposto do liberalismo. Ditadura econômica, ditadura intelectual, ditadura de fato, política.”

A questão do desenvolvimento nacional também apareceu em uma pergunta sobre a experiência chinesa.

Rui afirmou que o desenvolvimento tecnológico e industrial da China não pode ser explicado apenas pela entrada de investimentos estrangeiros. O elemento decisivo, segundo ele, foi a existência de instituições políticas capazes de orientar esses recursos para objetivos nacionais.

O dirigente destacou a independência chinesa diante das potências imperialistas e afirmou que o Brasil não poderá reproduzir uma experiência semelhante sem uma transformação profunda de suas instituições.

Criticou o PT por não apresentar uma solução para o desenvolvimento nacional e afirmou que um eventual governo Flávio Bolsonaro também permaneceria preso aos limites do atual regime político.

A Europa caminha para uma situação revolucionária

Perto do encerramento, Rui analisou as mobilizações populares que vêm ocorrendo na França e em outros países europeus.

Perguntado se os protestos seriam espontâneos, respondeu que a participação de sindicatos e organizações políticas não elimina seu caráter de movimento de massas. Para ele, nenhuma organização conseguiria produzir manifestações daquela dimensão sem a existência de uma insatisfação social profunda.

O presidente do PCO considerou que a crise francesa expressa o esgotamento do regime político e a incapacidade das classes dominantes de oferecer uma saída para os problemas da população.

“Eu acho que é um sintoma muito claro da completa decomposição do regime político desses países. Eu venho acompanhando a situação francesa e várias vezes falei: o regime político francês está completamente esgotado. A burguesia não tem jeito de manter esse regime político. Daí o viés autoritário que os regimes estão adquirindo também.”

Rui ressaltou, entretanto, que a radicalização dos protestos ainda não significa a existência de uma situação revolucionária plenamente desenvolvida.

Segundo ele, para isso seria necessário que setores mais amplos da classe operária, incluindo aqueles que normalmente não participam das mobilizações, entrassem em movimento.

“Para você ter uma situação revolucionária, você precisa colocar em movimento os setores que normalmente não fazem nada, que ficam calados lá, que vão trabalhar. Esse setor é a maioria. Quando esse setor se coloca em movimento, aí você tem uma situação revolucionária. Eu acho que os países europeus caminham para essa situação revolucionária.”

O dirigente também considerou possível que o Brasil atravesse um processo semelhante, dadas as profundas contradições sociais existentes no País.

O futuro do Brasil não será decidido nas urnas

A última pergunta tratou diretamente da posição do PCO sobre o voto nulo no segundo turno das eleições presidenciais.

Um dos apresentadores pediu que Rui se dirigisse às pessoas que não se identificam com nenhum dos candidatos, mas se sentem pressionadas a escolher aquele considerado o mal menor.

O presidente do Partido respondeu que o futuro político do Brasil não depende fundamentalmente do resultado eleitoral. Segundo ele, as tendências que determinarão os próximos acontecimentos já estão em movimento e não serão resolvidas pela vitória de Lula ou de Flávio Bolsonaro.

“Eu acho que o que vai acontecer no Brasil daqui para frente não depende da eleição, até porque, em grande medida, a eleição já está dada. Na eleição parlamentar, para governadores e tal, o bolsonarismo passou o rodo. Aí isso já é um fato, não é uma especulação. O normal seria o Bolsonaro ganhar porque ele já ganhou a primeira eleição.”

Rui explicou que, na concepção marxista defendida pelo PCO, as eleições servem principalmente para medir a relação de forças políticas existente em determinado momento, embora esse resultado também esteja sujeito às manipulações próprias do regime eleitoral.

Sua análise contrapõe a importância atribuída pela esquerda institucional à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro à necessidade de construir uma organização independente da classe trabalhadora.

Ao longo da entrevista, o dirigente insistiu que os trabalhadores precisam desenvolver suas próprias organizações e reivindicações, sem subordinar sua atividade política às instituições do Estado ou aos interesses eleitorais de partidos integrados ao regime.

Rui também convidou o público a acompanhar suas análises políticas aos sábados, a partir das 13h, pela Causa Operária TV, no YouTube. O programa reúne discussões extensas sobre os acontecimentos nacionais e internacionais, frequentemente com três ou quatro horas de duração.

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