O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, publicou na quarta-feira (21) um artigo no jornal britânico Financial Times no qual denuncia a política de agressão dos Estados Unidos contra seu país, expõe as condições para o encerramento da guerra e adverte o governo de Donald Trump de que uma nova ofensiva militar resultará em um fracasso estratégico ainda maior para o imperialismo.
O texto, intitulado As falsas suposições sobre nós são perigosas, apresenta a posição iraniana diante de quase oito meses de guerra. Araghchi sustenta que os Estados Unidos iniciaram a agressão acreditando que as forças armadas iranianas não teriam condições de resistir e que a República Islâmica acabaria cedendo à pressão militar. O resultado, segundo o chanceler, foi exatamente o contrário: o Irã manteve sua capacidade de resistência, enquanto os norte-americanos passaram a enfrentar prejuízos militares, econômicos e políticos cada vez maiores.
Para o ministro, a principal condição para o fim do conflito é que os Estados Unidos abandonem a pretensão de impor suas exigências pela força. O Irã permanece disposto a negociar, mas não aceitará que a diplomacia seja utilizada como instrumento para preparar novas agressões.
A publicação ocorre enquanto seguem as negociações indiretas, mediadas por outros países, para estabelecer um acordo capaz de interromper as hostilidades e normalizar a navegação pelo estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do planeta.
Araghchi denunciou que os Estados Unidos atacaram o território iraniano em três ocasiões desde 2025, apesar das iniciativas diplomáticas realizadas pelo governo iraniano.
Segundo o chanceler, em junho de 2025 e fevereiro de 2026, forças norte-americanas bombardearam o Irã enquanto os dois países estavam envolvidos em negociações. Em junho deste ano, depois da assinatura de um entendimento entre os presidentes Masoud Pezeshkian e Donald Trump, ocorreu uma terceira ofensiva.
Esses episódios demonstrariam que o governo norte-americano utiliza as conversações de paz sem oferecer garantias de que respeitará os compromissos assumidos.
O ministro questionou como seria possível confiar novamente em Trump depois de sucessivas agressões realizadas durante ou logo após entendimentos diplomáticos.
Araghchi afirmou que as forças armadas iranianas extraíram importantes ensinamentos das agressões conduzidas pelos Estados Unidos e por “Israel” desde 2025. O chanceler também destacou que a disposição de seu governo para alcançar uma solução pacífica não deve ser confundida com incapacidade de defender o território nacional.
O Irã, portanto, não considera a negociação uma alternativa à resistência. A diplomacia somente poderá produzir resultados, na avaliação do Irã, quando os Estados Unidos reconhecerem que não conseguirão impor uma capitulação militar à República Islâmica.
Um dos pontos centrais do artigo é a proposta diplomática apresentada pelo Irã durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, realizada em setembro.
Araghchi revelou que transmitiu aos Estados Unidos, por intermédio de mediadores, um plano de sete dias para interromper a guerra, restabelecer a navegação no estreito de Ormuz e iniciar negociações para um acordo definitivo.
A proposta estabelece que os Estados Unidos cumpram determinadas obrigações nos primeiros cinco dias. No sexto, o estreito de Ormuz seria reaberto ao tráfego marítimo. No sétimo, os dois países iniciariam negociações sobre um acordo mais amplo.
As condições iranianas incluem o fim das hostilidades, o levantamento do bloqueio naval norte-americano aos portos do país, a liberação de recursos iranianos congelados no exterior e a suspensão de restrições à comercialização do petróleo. A proposta também contempla um cessar-fogo que alcance outros pontos da região, incluindo o Líbano.
O chanceler destacou que nenhuma dessas medidas representaria uma concessão inédita dos Estados Unidos. Segundo ele, todas fazem parte de compromissos que os Estados Unidos já haviam assumido anteriormente.
O plano foi apresentado publicamente em setembro. Desde então, os dois países trocaram mensagens por intermédio de mediadores, mas as divergências sobre sua implementação impediram um entendimento definitivo.
Para o Irã, a questão não é a ausência de propostas capazes de encerrar o conflito. O problema é a recusa do governo Trump em abandonar a pressão militar e cumprir os compromissos que permitiriam restabelecer a confiança entre as partes.
O ministro também chamou atenção para as consequências econômicas da ofensiva imperialista. Um dos dados apresentados no artigo é particularmente significativo: segundo estimativas da Moody’s Analytics, a guerra já provocou aproximadamente US$265 bilhões em custos aos consumidores norte-americanos, o equivalente a cerca de US$2 mil por família.
A alta dos combustíveis representa a maior parcela desses prejuízos. Antes do início da guerra, em fevereiro, o galão de gasolina nos Estados Unidos custava aproximadamente US$3. Em outubro, o preço médio havia ultrapassado US$4,30. O encarecimento do diesel e do combustível de aviação também atingiu os transportes e outras atividades econômicas.
Somente o aumento dos gastos com energia e transporte representa aproximadamente US$1.100 adicionais por família norte-americana, segundo os cálculos da Moody’s.
O impacto não se limita ao preço dos combustíveis. A guerra também contribuiu para pressionar os preços de mercadorias, elevar os custos de financiamento e agravar as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores norte-americanos.
Araghchi observou que esses cálculos sequer representam a totalidade dos prejuízos. A destruição de instalações militares norte-americanas na região, as perdas de equipamentos e os efeitos sobre a economia mundial ampliam consideravelmente o custo da agressão.
O resultado é que uma guerra apresentada pelo governo Trump como uma demonstração da superioridade militar dos Estados Unidos vem produzindo consequências cada vez mais graves para sua própria economia.
Outro ponto destacado pelo chanceler é a posição estratégica do Irã no estreito de Ormuz.
Situada entre o território iraniano e a Península Arábica, a passagem marítima constitui uma das principais rotas de exportação de petróleo e gás natural do planeta. Antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás comercializados internacionalmente por via marítima atravessava o estreito.
A localização geográfica do Irã proporciona ao país uma posição estratégica que não pode ser eliminada por ataques aéreos ou ameaças militares norte-americanas.
Araghchi ressaltou que, apesar das tentativas de encontrar rotas alternativas, Ormuz continua sendo insubstituível para uma parcela considerável da economia mundial.
A interrupção do tráfego marítimo demonstrou o alcance internacional das consequências de uma guerra contra o Irã. O encarecimento do petróleo afeta não apenas os países diretamente envolvidos no conflito, mas também economias distantes do Oriente Médio.
Nesse sentido, a tentativa norte-americana de subjugar o Irã por meio da força encontrou um obstáculo que não depende exclusivamente da capacidade militar do país. Sua posição geográfica e sua importância para o comércio internacional tornam qualquer ofensiva contra o Irã uma ameaça ao abastecimento energético mundial.
O governo iraniano afirma estar disposto a garantir a passagem das embarcações que utilizam legalmente o estreito, desde que sejam estabelecidas condições que assegurem o fim das hostilidades.
O artigo publicado no Financial Times apresenta também uma avaliação dos resultados militares e políticos alcançados pelos Estados Unidos desde o começo da guerra.
Segundo Araghchi, quase oito meses de operações militares não permitiram aos Estados Unidos alcançarem nenhum dos principais objetivos anunciados publicamente no início da ofensiva.
A resistência iraniana desmentiu a expectativa de uma vitória rápida e demonstrou que a superioridade tecnológica das forças norte-americanas não é suficiente para impor a submissão política de um país disposto a defender sua independência.
Araghchi advertiu que repetir os erros de avaliação cometidos no início da guerra poderá provocar consequências ainda mais graves para o imperialismo norte-americano.
O ministro concluiu reafirmando que a resistência iraniana não será abandonada em troca de promessas sem garantias.
“O Irã, uma civilização antiga e orgulhosa, não se ajoelha diante de nenhum poder”, declarou o chanceler.




