Entrevista

Rui: ‘estamos diante de um fenômeno de declínio de Lula e do PT’

Ao Galo Preto, presidente do PCO analisou a reta final da eleição, explicou o voto nulo, criticou a política econômica do governo e denunciou a perseguição da PF contra o Partido

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que a política do PT chegou a um esgotamento que não pode ser explicado apenas por debates ou estratégias de campanha. Em entrevista ao jornalista Leandro Fortes, no Canal do Galo Preto, na terça-feira (20), analisou a disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a situação dos trabalhadores e as investigações farsescas da Polícia Filial contra o PCO.

A conversa ocorreu a cinco dias do segundo turno, marcado para domingo (25). No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, e Lula, 45,16%. Questionado sobre as pesquisas, Pimenta ressaltou a incerteza inerente às eleições. “Eleição é uma coisa um pouco imprevisível”, disse. Acrescentou, contudo, que, para quem está na disputa, “o negócio é lutar até o último minuto”.

Ao tratar do debate presidencial realizado no domingo (18), Pimenta avaliou que o confronto ficou muito aquém de uma discussão política efetiva. “Se você ligou a televisão ali esperando ver um confronto de ideias, você saiu desiludido do debate”, declarou. Para ele, Lula deveria ter apresentado uma alternativa política. “Quem precisava fazer um debate sério era o Lula e ele não conseguiu fazer, ele fracassou”, afirmou.

Pimenta distinguiu Flávio Bolsonaro das forças que sustentam sua candidatura. Segundo ele, o senador concorre apoiado na popularidade do pai, Jair Bolsonaro, enquanto Lula carrega uma longa trajetória de liderança sindical e de governo. A disputa não poderia ser reduzida às características individuais de cada candidato.

“Eu acho que nós estamos diante de um fenômeno de declínio do Lula e do PT”, declarou. Na sua avaliação, o bolsonarismo se beneficia da rejeição ao governo petista, enquanto Lula encontra dificuldades para ampliar sua base. Isso decorreria de decisões do mandato, não apenas de erros de propaganda.

A política econômica esteve entre os principais alvos das críticas. Ele citou a exclusão de beneficiários do Bolsa Família, as restrições no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e os impostos sobre pequenas compras internacionais. Apontou a “taxa das blusinhas” como símbolo do problema. “Eu acho que o governo Lula cometeu uma coisa arrogante […] não ligou a mínima”, disse, ao comentar a maneira como a medida foi defendida pelo Ministério da Fazenda dirigido então por Fernando Haddad.

Pimenta questionou o alcance eleitoral do reajuste do Bolsa Família e de outras medidas de última hora. “O problema é que a política não é favorável. Essa que é a questão mais importante”, resumiu. Criticou também a aposta em acusações contra o adversário, que, segundo ele, não respondem ao descontentamento de parte do eleitorado.

Para ele, a situação se agravou porque o PT passou a tratar a permanência na Presidência como a única defesa possível contra a direita. “O PT é o partido das eleições”, afirmou, lembrando as vitórias presidenciais de 2002, 2006, 2010, 2014 e 2022. Segundo sua análise, esses governos não alteraram a estrutura de poder do País. “Essa política está esgotada”, declarou.

Leandro Fortes, que declarou apoio à reeleição de Lula, questionou a decisão do PCO pelo voto nulo. Pimenta rejeitou a associação entre essa posição e um apoio a Flávio Bolsonaro. “A decisão do partido é votar nulo”, confirmou. Em seguida, esclareceu: “Nós não estamos fazendo uma campanha pelo voto nulo”.

Para ele, a posição expressa a necessidade de independência política diante dos dois candidatos. “Nós somos um partido revolucionário”, afirmou. Sustentou que mudanças fundamentais dependem da organização dos trabalhadores. “Nós achamos que não dá para mudar através da eleição, que só uma revolução pode mudar o Brasil”, declarou.

Sobre os atos de rua pela campanha de Lula, Fortes perguntou se poderiam se tornar mobilizações mais amplas contra a direita. Pimenta afirmou que falta um chamado à organização independente dos trabalhadores. “A orientação do PT para as manifestações é puramente eleitoral”, disse.

Na entrevista, Pimenta criticou também o recurso a uma campanha apoiada no temor do fascismo. Para ele, ao reduzir o debate à necessidade de evitar uma vitória bolsonarista, o PT deixa de explicar por que suas políticas não conseguiram conquistar uma parte maior dos trabalhadores. “O chamado do PT […] é um chamado que não tem uma repercussão por fora dos círculos esquerdistas”, declarou, distinguindo a mobilização de militantes das necessidades de uma política de massas.

Na avaliação do dirigente, os partidos que apresentam o bolsonarismo como uma ameaça fascista deveriam, seguindo a lógica de seu próprio diagnóstico, desenvolver uma preparação política dos trabalhadores para além das urnas. Recorreu à Alemanha e à Itália dos anos 1920 e 1930 para argumentar que as instituições não bastam diante de ofensivas autoritárias. “Isso de qualquer maneira teria que ser enfrentado através da mobilização direta dos trabalhadores”, afirmou.

Ele contestou a associação automática de uma eventual vitória de Flávio ao fascismo, mas reconheceu riscos para os direitos trabalhistas. Afirmou que o bolsonarismo reúne forças divergentes e carece de projeto definido. “Eu não acho que o Flávio Bolsonaro tenha uma política. Eu acho que ele representa uma alternativa na visão de uma parte da população”, disse, diferenciando a imagem eleitoral de alternativa de um programa concreto.

Pimenta também relatou ter prestado depoimento à Polícia Filial numa investigação envolvendo gráficas contratadas pelo PCO. Segundo ele, uma reportagem havia atribuído simpatia pelo Hamas à proprietária de uma gráfica utilizada pelo Partido. Pimenta negou que recursos do fundo eleitoral tivessem sido destinados ao Hamas. Disse que o material de divulgação de um livro foi pago por militantes e simpatizantes.

“É um inquérito totalmente aloprado, sem pé nem cabeça”, declarou. Também criticou a atuação do Ministério Público. “O Ministério Público, em vez de ir atrás […] de verdadeiros criminosos […] vem atrás do PCO, que é um partido pobre, para fazer um inquérito sobre nenhuma base real”, disse.

Ao discutir o financiamento eleitoral, Pimenta comentou a diferença entre as doações privadas recebidas pelas duas campanhas presidenciais, mencionada por espectadores. Afirmou que o bolsonarismo possui apoio expressivo entre pequenos e médios empresários e que a capacidade de arrecadar revela relações políticas que não aparecem apenas nos discursos de campanha. Fez, entretanto, uma ressalva sobre os valores apresentados no programa: “Precisaria confirmar esse número”.

Outro tema foi o caso do empresário Daniel Vorcaro. Apresentou o caso como exemplo da relação entre o capital financeiro e o regime político. “O Vorcaro, ele é um símbolo da podridão do capitalismo brasileiro”, declarou, relacionando-o à crise das instituições. Ele também lembrou as notícias dos últimos dias sobre o pagamento a veículos de comunicação para fazerem uma campanha favorável ao Master.

No debate sobre soberania nacional, Pimenta afirmou que tanto o PT quanto o bolsonarismo operam dentro de instituições subordinadas aos interesses dos Estados Unidos. “As instituições brasileiras […] já estão sob o controle do imperialismo”, declarou. Relacionou sua análise à derrubada de Dilma Rousseff e às privatizações. Para ele, resistir a pressões externas exige mobilização popular.

Pimenta criticou ainda a continuidade de políticas de privatização sob o governo Lula. Segundo ele, embora o PT historicamente tenha se apresentado como adversário da venda de empresas públicas, o atual governo não teria oferecido resistência suficiente à orientação econômica defendida pelo imperialismo. Questionado sobre o risco de maior submissão aos Estados Unidos numa eventual administração bolsonarista, disse que não considera a manutenção do PT garantia de soberania nacional.

Perguntado sobre a situação dos trabalhadores diante da desindustrialização e da expansão do trabalho informal, Pimenta rejeitou a tese de desaparecimento da classe operária brasileira. Citou as indústrias, a construção civil, os transportes e o setor elétrico. A baixa visibilidade dessas categorias decorreria, para ele, de sua fragmentação. “Você não vê a força da classe operária porque ela não tá forte, ela tá desunida, ela tá fragmentada”, afirmou.

A formação política também entrou na conversa. Pimenta criticou a ausência, no PT, de uma doutrina e de um programa de formação sistemática, argumentando que suas decisões de governo contradizem posições de correntes internas. “A base da formação política é um programa e uma doutrina”, declarou. Questionado sobre a relação entre estudo e atuação concreta, acrescentou: “Você tem que ter uma unidade muito estreita entre a teoria e a prática política”.

Sobre o futuro do PCO, defendeu a aproximação de organizações com pontos programáticos comuns. “Nós queremos juntar o pessoal, criar um polo político […] anti-imperialista, de defesa do interesse do trabalhador”, afirmou. Admitiu divergências com potenciais aliados.

No balanço da experiência petista, reconheceu que o PT levou posições de esquerda ao debate nacional, mas atribuiu a autoridade de Lula sobretudo às greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980. “Mais as massas abriram um horizonte para o Lula do que o Lula abriu um horizonte para as massas”, afirmou.

Para ele, o desafio ultrapassa o resultado eleitoral: compreender a crise petista e reorganizar politicamente os trabalhadores. “Nós precisamos superar essa experiência”, concluiu ao tratar do legado do PT.

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