Marta Aparecida Serpa era criança quando viu um avião sobrevoar o acampamento de Salto do Jacuí. Quase quatro décadas depois, contou que ainda não havia conseguido narrar aos próprios filhos todos os detalhes daquele ataque. Sua lembrança foi uma das apresentadas no seminário sobre massacres e impunidade realizado no assentamento Filhos de Sepé, em Viamão, com participação da Comissão Pastoral da Terra.
Em 11/03/1989, uma operação de despejo contra cerca de 500 famílias acampadas na Fazenda Santa Elmira deixou mais de 400 trabalhadores gravemente feridos, segundo os relatos reunidos pela CPT. Sobreviventes denunciam também a pulverização de agrotóxicos por uma aeronave. A violência da ação policial atingiu famílias que reivindicavam terra e marcou crianças que cresceram ouvindo, ou tentando contar, o que ocorreu.
O encontro recuperou ainda as mortes de Lírio Grosseli, Vitalino More e Roseli Salete Nunes da Silva no Trevo de Sarandi. Os três foram atropelados por um caminhão durante uma mobilização de agricultores. Uma comissão parlamentar de inquérito concluiu posteriormente que o atropelamento havia sido intencional. Roseli se tornou símbolo da luta pela terra; isso não tornou menos necessária a cobrança de responsabilidades pelo crime.
A investigação histórica enfrenta um obstáculo concreto: a dificuldade de acessar documentos oficiais. O pesquisador Luiz Ribas relatou que a busca por registros sobre o ataque aéreo em Salto do Jacuí esbarra em lacunas nos arquivos consultados. Sem a abertura desses documentos, famílias e pesquisadores têm de reconstruir acontecimentos que o poder público deveria ter preservado e apurado.
Os depoimentos de Viamão não foram apenas uma homenagem aos mortos. Sobreviventes pediram acesso aos registros, identificação de quem ordenou e executou a violência e medidas de reparação. Quarenta anos de silêncio oficial não apagam os feridos, os mortos ou a exigência de justiça dos trabalhadores rurais.





