Eleições presidenciais

Vitória esmagadora do PL no parlamento não acaba com a divisão da direita

O antipetismo reúne grupos que disputam o comando da direita e não se submetem automaticamente à família Bolsonaro

Flávio Bolsonaro

Os partidos que apoiam Flávio Bolsonaro somam 286 deputados e 50 senadores. Essa maioria absoluta nas duas casas do Congresso está longe de constituir uma força unificada, pronta para cumprir as ordens do candidato. A campanha eleitoral expôs disputas entre a família Bolsonaro, dirigentes evangélicos, defensores do neoliberalismo e grupos que procuram estabelecer sua própria liderança sobre o eleitorado direitista.

Uma parcela da esquerda substituiu a análise dessas contradições pela imagem de um bolsonarismo inteiramente subordinado a Jair Bolsonaro. Todos os parlamentares dos partidos aliados, dirigentes da campanha e eleitores de Flávio aparecem como integrantes de uma mesma organização. Basta somar as bancadas para anunciar que um eventual governo terá poderes ilimitados.

Os seguidores que defendem a liderança de Jair Bolsonaro acima das conveniências eleitorais, entretanto, constituem uma pequena parcela desse agrupamento. Ao redor deles estão políticos tradicionais, igrejas, empresários e propagandistas com interesses próprios. O antipetismo reúne grupos que disputam o comando da direita e não se submetem automaticamente à família Bolsonaro.

Kim Paim, ligado à defesa mais intransigente de Jair Bolsonaro, passou a campanha atacando Nikolas Ferreira, Michelle Bolsonaro e Rodrigo Constantino. Ao lado de figuras como Mario Frias, representa um setor para o qual a fidelidade ao ex-presidente é um critério decisivo na disputa interna.

Nikolas Ferreira procura estabelecer uma liderança própria, apoiado em sua associação com outros parlamentares e propagandistas. Constantino, defensor fanático do neoliberalismo, apoia esse agrupamento. Embora estejam na mesma campanha presidencial, esses setores disputam entre si quem terá maior influência sobre os eleitores da direita.

Michelle representa outra ala. Sua ligação com as igrejas evangélicas sustenta uma política que entra em choque com os planos dos enteados. A disputa no Ceará tornou isso público: ela defendia Eduardo Girão, do Novo, enquanto Flávio negociava outra composição. O conflito chegou à troca pública de acusações dentro da família.

A resistência à candidatura de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina também expôs essas divergências. Nem o sobrenome assegurou a colaboração dos demais aliados. Grupos que pedem votos para o mesmo candidato à Presidência trabalham para derrotar uns aos outros nas demais eleições.

Jair Bolsonaro venceu em 2018 beneficiado pela crise dos partidos tradicionais e do regime político. Sua candidatura reuniu forças de procedências diversas, muitas das quais encontraram nela uma oportunidade de chegar ao governo. A adesão eleitoral não eliminou as diferenças, que apareceram abertamente depois da posse.

A saída de Sérgio Moro foi uma das manifestações mais conhecidas dessa desagregação. Diante das decisões do governo, os aliados passaram a se enfrentar, procurando preservar seus interesses e suas possibilidades eleitorais. A unidade que parte da esquerda atribuía ao bolsonarismo não resistiu ao exercício do poder.

O paralelo com Donald Trump ajuda a compreender o problema. Ao acomodar seu governo aos interesses do imperialismo norte-americano, Trump contrariou apoiadores que esperavam um enfrentamento com os políticos tradicionais. O compromisso com os setores dominantes provocou o afastamento de antigos defensores de sua candidatura.

Flávio tem maior facilidade que o pai para realizar esses acordos. É um político tradicional, acostumado à negociação parlamentar. Seu comportamento provoca menos atritos e facilita as relações com os dirigentes dos partidos aliados e com a burguesia. Isso, porém, não lhe permite satisfazer simultaneamente todos os grupos que o apoiam.

A habilidade para contornar a crise com Michelle evitou um rompimento imediato, mas os interesses que provocaram a disputa continuam existindo. Novas decisões sobre cargos, candidaturas e medidas econômicas voltarão a exigir concessões de um lado ou de outro.

Os recuos do candidato já mostram os limites de sua liberdade de ação. Flávio afastou a ideia de entregar o Ministério das Relações Exteriores ao irmão e deixou em aberto a possibilidade de um cargo para o pai.

Na política econômica, o entusiasmo inicial com as propostas de Javier Milei deu lugar a mudanças na equipe e no discurso. A promessa de preservar programas sociais procura reduzir a rejeição entre os trabalhadores. A propaganda passou a assegurar a continuidade do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida e do Farmácia Popular.

É o movimento que os políticos burgueses chamam de ida para o centro. Flávio procura se apresentar como um representante da direita tradicional, capaz de negociar com os partidos e atender às exigências dos capitalistas sem os atritos associados ao pai. Essa adaptação desagrada aos apoiadores que cobram as posições mais agressivas da campanha.

O candidato também terá de improvisar diante das dificuldades de um eventual governo. As pressões dos capitalistas, a resistência popular e as divergências entre aliados determinarão quais promessas serão abandonadas e quais medidas poderão ser adotadas. O recuo sobre a indicação do irmão para as Relações Exteriores é uma demonstração antecipada desse problema.

Uma vitória apertada agravará as dificuldades. A maioria parlamentar não elimina o fato de que uma parcela enorme da população terá votado contra Flávio. Tampouco transforma os deputados dos partidos aliados em seguidores disciplinados do presidente. A burguesia pode apoiar sua eleição e, ao mesmo tempo, procurar limitar sua autonomia, cobrando concessões a cada decisão.

O antipetismo tem um peso decisivo nessa aliança. Parte do eleitorado de Flávio não possui compromisso com a família Bolsonaro e sequer pode ser classificada como direitista. Vota contra o PT por rejeição acumulada aos seus governos. O partido subestimou esse desgaste, que permitiu à direita reunir eleitores muito diferentes em torno de uma mesma candidatura.

Caso o PT seja derrotado e saia muito enfraquecido, a coligação perderá parte do que mantém seus integrantes unidos. A disputa por ministérios, recursos e candidaturas ganhará mais força. Os aliados cobrarão sua participação no governo, enquanto os seguidores mais fiéis de Jair Bolsonaro exigirão o cumprimento das promessas eleitorais.

A vitória da direita não significará uma recuperação da estabilidade do regime político. Flávio poderá chegar à Presidência com uma ampla aliança parlamentar e enfrentar a desagregação dessa base ao começar a governar, como ocorreu com o pai. Apresentá-lo de antemão como um governante com poderes absolutos encobre essas contradições e alimenta a paralisia da esquerda diante de um adversário dividido.

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