Crise na imprensa burguesa

Compre sua pipoca e veja a Folha e o Metrópoles se matarem

O escândalo do Banco Master leva jornais e banqueiros a denunciar os negócios uns dos outros e expõe a divisão entre setores da burguesia

A Folha de S.Paulo e o Metrópoles entraram em guerra por causa de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Depois de reproduzir uma denúncia do UOL sobre a interferência do banqueiro nas reportagens do portal, o jornal paulista passou a ser questionado pelo concorrente sobre suas próprias relações com o empresário. Na sexta-feira (16), a Folha respondeu com uma matéria que acusa o Metrópoles, já no título, de publicar uma reportagem mentirosa por retaliação.

O escândalo do Master está levando setores da burguesia a denunciar os negócios uns dos outros. Empresas que habitualmente se apresentam como autoridades para julgar partidos, sindicatos e organizações populares agora discutem publicamente quanto receberam de Vorcaro e quais favores prestaram ao banqueiro. A crise atinge os próprios jornais que sustentam o regime.

A denúncia reproduzida pela Folha informa que ao menos 14 textos do Metrópoles foram enviados a Vorcaro antes da publicação. Destes, 11 sofreram alterações. A diretora executiva do grupo, Lilian Tahan, nega relação entre um contrato publicitário de R$20 milhões e a cobertura de interesse do banco.

O portal pertence ao ex-senador Luiz Estevão, condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos e posteriormente indultado por Jair Bolsonaro. Sua empresa precisa explicar por que o dono de um banco recebia antecipadamente reportagens e participava da edição dos textos.

A resposta do Metrópoles foi investigar se a Folha também favoreceu Vorcaro. O portal enviou perguntas ao diretor de Redação, Sérgio Dávila, sobre uma reportagem de agosto de 2024 que tratava da expansão dos negócios do empresário, de suas aquisições e de uma festa com Alok. Os questionamentos apontam um possível adiamento da publicação e alterações favoráveis ao banqueiro após uma visita à sede do jornal.

As perguntas se apoiam em mensagens atribuídas a Guilherme Barros, então assessor de imprensa de Vorcaro. Nelas, aparece uma oferta de R$1 milhão para conseguir adiar ou impedir a publicação. Conforme o relato apresentado pela Folha, o assessor acabou recompensado depois de dizer ao banqueiro que o texto tinha sido amenizado.

O jornal nega ter atendido a esses interesses. Afirma que a reportagem ainda estava em apuração quando concedeu prazo para ouvir Vorcaro e que publicou a versão original, na data prevista. Também sustenta que as alterações posteriores no texto digital serviram para acrescentar a prisão do empresário e a liquidação do banco, ocorridas em novembro de 2025.

Quanto cada um recebeu

A defesa da Folha confirma, entretanto, o tratamento dispensado ao empresário. Vorcaro foi recebido na sede do jornal a pedido de seu assessor. Barros solicitou ainda que a visita não fosse registrada na coluna Painel, como é costume. A direção concordou.

O jornal explica a reunião pela necessidade de ouvir o banqueiro para a reportagem. Isso não explica a decisão de omitir o registro do encontro. Para justificar esse segundo favor, a Folha afirma que pedidos semelhantes não são incomuns.

A disputa chegou às contas das duas empresas. Questionada sobre os pagamentos do Master, a Folha informou ter recebido R$516.441,60 em publicidade entre 2021 e 2025. Em sua defesa, comparou a quantia aos R$20 milhões de um contrato do Metrópoles: o jornal paulista recebeu o equivalente a apenas 2,58% daquele pagamento.

A Folha faz questão de mostrar que recebeu muito menos dinheiro que o adversário. Acrescenta que seu departamento comercial não responde à direção de Redação. A separação entre os departamentos é apresentada como garantia de independência, embora ambos pertençam à mesma empresa e trabalhem para os mesmos proprietários.

O recebimento de publicidade, por si só, não comprova a acusação de que a reportagem foi alterada para beneficiar Vorcaro. A comparação dos valores tampouco resolve a questão. Serve, no entanto, para mostrar a disposição dos dois grupos de expor os negócios do concorrente quando seus próprios interesses estão ameaçados.

A briga já envolvia o Itaú

A Folha recuperou outros episódios para atacar o portal. Em abril, O Estado de S. Paulo revelou pagamentos de R$27,28 milhões do Master ao Metrópoles, com transferências para empresas da família de Luiz Estevão. As operações foram consideradas suspeitas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Depois da denúncia, o jornal também foi alvo de textos do portal.

O Itaú chegou a criar uma página chamada Factópoles, lançada em 1º de julho para contestar 42 reportagens e 50 publicações em redes sociais feitas pelo Metrópoles em 70 dias. O banco acusou a empresa de divulgar distorções.

Uma possível motivação para a ofensiva, apontada pela Folha, seria uma reportagem em preparação pela revista Piauí sobre o portal e Luiz Estevão. A revista foi fundada por João Moreira Salles, integrante da família acionista do Itaú.

O caso Vorcaro envolve, assim, uma disputa que já colocou em confronto um dos maiores bancos do País e diferentes empresas da imprensa burguesa. Os jornais publicam denúncias, recebem acusações e respondem revelando pagamentos aos adversários. O esforço de cada um para se salvar agrava o escândalo.

É uma demonstração da profundidade da crise do regime. Seus defensores não conseguem preservar nem a reputação dos próprios órgãos de imprensa. Ao tentar comprometer o concorrente, ajudam a expor as relações entre banqueiros, empresários da comunicação e políticos que normalmente ficam protegidas pelo sigilo dos negócios.

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