A professora Diana Pichinine publicou, em 15 de outubro, no portal A Terra é Redonda, o artigo A fascistização do Brasil, no qual procura explicar por que milhões de trabalhadores votam em Donald Trump, nos Estados Unidos, e nos candidatos bolsonaristas, no Brasil. Sua resposta reúne citações e especulações sobre os eleitores, mas ignora a política dos partidos que dizem representar os trabalhadores.
O primeiro problema é a confusão conceitual. A autora utiliza expressões como “fascismo social”, “fascismo político”, “fascismo restrito”, autoritarismo e ultradireita quase indistintamente. Se fascismo significa racismo, violência policial, desigualdade, competição econômica e comportamento autoritário, o que o distingue das demais formas de dominação capitalista? A definição se torna incapaz de explicar um acontecimento específico.
A confusão chega ao ponto de a autora afirmar que o fascismo seria uma característica permanente da sociedade brasileira. Por isso escreve que “a sociabilidade brasileira é violenta e autoritária desde sempre, mas esse seu traço não se confunde com a conservação de um possível resquício de arcaísmo da economia patriarcal e do personalismo próprio à cultura da sociedade patriarcal latifundiária.”
Se a sociedade brasileira sempre foi fascista, o que exatamente estaria ocorrendo de novo? Como explicar o crescimento de uma força política em determinado momento histórico se as condições apontadas para seu surgimento teriam existido durante séculos? A caracterização torna-se tão abrangente que já não explica a ascensão do bolsonarismo, muito menos por que determinados setores populares passaram a apoiá-lo.
Leon Trótski, ao analisar a ascensão de Mussolini e Hitler, caracterizou o fascismo como um movimento de massas, apoiado principalmente na pequena burguesia arruinada, mobilizado pelo grande capital para esmagar as organizações independentes da classe operária. Sua função era destruir sindicatos e partidos operários, não simplesmente conquistar votos conservadores.
Confundir fascismo e autoritarismo impede definir como enfrentar uma ameaça fascista real.
Pichinine apresenta a vitória de Donald Trump em 2024 como exemplo da adesão popular ao fascismo. Desconsidera que a maioria dos eleitores queria empregos, recuperação do poder aquisitivo e o fim das guerras eternas norte-americanas. Trump explorou a inflação e a insatisfação com os democratas.
Trump é um político da burguesia, mas as razões do eleitor não são necessariamente as do candidato. Quem vota em Trump para protestar contra a deterioração das condições de vida não se transforma, por isso, em fascista.
A autora reconhece os efeitos do neoliberalismo, mas retorna à tese de que os trabalhadores estariam aceitando a exclusão dos outros para garantir a própria sobrevivência. Onde está a prova de que essa seria a motivação dos eleitores? Mas ainda assim presume que o voto significa a adoção de uma mentalidade autoritária, em vez da expressão do descontentamento com os governantes e a falta de uma alternativa operária.
No Brasil, a pergunta não deveria ser por que tantos trabalhadores “aderiram ao fascismo”, mas por que deixaram de ver no PT uma força capaz de enfrentar os capitalistas.
Lula governou de 2003 a 2010, Dilma Rousseff de 2011 a 2016, e Lula voltou à Presidência em 2023. Após quase duas décadas de governos petistas, o PT já não aparece como oposição, mas como parte central do regime.
No terceiro governo, Lula ampliou os acordos com a burguesia e transformou a defesa das instituições em bandeira fundamental. O Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) e os partidos tradicionais são apresentados como aliados contra o bolsonarismo.
Essas instituições são inimigas do trabalhador, que precisa de emprego, salário, aposentadoria e serviços públicos. Quando um partido que se reivindica dos trabalhadores governa com banqueiros e políticos da direita, sem organizar uma luta independente contra esses interesses, abre espaço para o bolsonarismo.
A frente ampla, suposto antídoto contra a direita, ajuda a conservar sua força eleitoral. Quanto mais o PT se identifica com o Estado e os partidos burgueses, mais os bolsonaristas conseguem explorar o descontentamento como supostos inimigos do regime.
O exemplo mais escandaloso é Geraldo Alckmin. Ex-dirigente do PSDB, adversário histórico do PT e apoiador do golpe de 2016, foi escolhido para a de Lula. Em 2018, recebeu apenas 4,76% dos votos válidos na disputa presidencial. A burguesia não conseguiu elegê-lo presidente, mas a direção petista colocou-o na linha de sucessão.
Alckmin agora pode assumir o comando do País. Que sentido faz censurar o trabalhador que vota na direita enquanto a direção do maior partido de esquerda entrega a Vice-Presidência a um representante da direita tradicional?
A autora deixa de lado o papel do aparato estatal e da imprensa na ascensão do bolsonarismo. A campanha contra o PT começou muito antes da vitória de Jair Bolsonaro. O chamado Mensalão, a partir de 2005, alimentou uma ofensiva jornalística e judicial ampliada pela Operação Lava Jato.
A grande imprensa, a PF, o Ministério Público e setores do Judiciário protagonizaram a perseguição política contra o PT. A ofensiva desembocou no golpe de 2016 contra Dilma, na prisão de Lula e no impedimento de sua candidatura em 2018. Naquele ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou o registro do ex-presidente por seis votos a um.
Bolsonaro não caiu do céu, nem sua ascensão se explica por um súbito surto de fascismo entre os trabalhadores. Beneficiou-se da crise aprofundada pela ofensiva burguesa contra o PT. Os golpistas pretendiam reorganizar o regime, mas o bolsonarismo cresceu sobre a perda de autoridade dos partidos tradicionais.
A contradição é que o PT passou a se apoiar em instituições que participaram dessa ofensiva. Em vez de organizar os trabalhadores contra a repressão estatal, apresenta o STF e a PF como defensores da “democracia”. Sob o pretexto de combater a extrema direita, setores da esquerda justificam censura, restrições à liberdade de expressão e poderes extraordinários para o Judiciário.
A questão não é por que a classe trabalhadora está deixando de votar no PT. Mas entender que o partido não representa a luta independente contra a burguesia e se associou a setores golpistas. Tratar o eleitor popular como fascista só ajuda a afastá-lo ainda mais da esquerda.




