Eleições 2026

Que futuro o PT oferece depois de quase duas décadas no governo?

Michelangelo Torres dedica páginas à ficha de Flávio Bolsonaro, admite a falta de uma alternativa para os trabalhadores e manda adiar o balanço dos governos petistas

Futuro do Trabalhador

Em artigo publicado nesta quinta-feira (15) no sítio A Terra É Redonda, sob o título Disputar o futuro, o professor Michelangelo Torres convoca a esquerda a uma campanha de emergência pela reeleição de Lula. A justificativa é que Flávio Bolsonaro representaria uma ameaça tão grande que todas as divergências deveriam ser deixadas de lado até o segundo turno. O que chama a atenção é aquilo que o autor não consegue responder. Depois de tantos anos de governos petistas, que futuro, exatamente, o PT oferece ao trabalhador?

A maior parte do esforço de Torres está concentrada em apresentar uma extensa ficha policial de Flávio Bolsonaro. Aparecem as investigações sobre as chamadas rachadinhas, negócios imobiliários, relações com policiais acusados de crimes, denúncias envolvendo o Banco Master e o histórico da família Bolsonaro. Acusações, suspeitas e episódios distintos são empilhados para chegar à conclusão eleitoral de que é preciso votar em Lula.

O problema é que uma ficha criminal não constitui um programa político. Quem recebe um salário de fome e ainda entrega parte do rendimento aos bancos, não vê solução para seus problemas numa ficha corrida. Quer solução.

A própria história do PT mostra a insuficiência desse método. Em agosto de 2018, quando já estava preso havia mais de quatro meses, Lula tinha 39% das intenções de voto na pesquisa Datafolha; Jair Bolsonaro aparecia com 19%. A prisão e a campanha judicial contra o petista não destruíram seu apoio popular. Lula só deixou aquela disputa porque o Tribunal Superior Eleitoral indeferiu seu registro por seis votos a um.

Quatro anos depois, o mesmo Lula, que havia passado 580 dias preso, venceu Bolsonaro com 50,9% dos votos válidos. Se um candidato pode conservar grande apoio popular depois de ter sido preso e voltar à Presidência, por que a esquerda imagina que recitar denúncias contra Flávio Bolsonaro será suficiente para conquistar seus eleitores?

O eleitor vota a partir de suas experiências, expectativas e descontentamento com o governo. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro há trabalhadores que enfrentam exatamente os mesmos problemas dos que votam no PT. São essas pessoas que a esquerda deveria procurar conquistar por meio de um programa, e não apenas tentado assustá-las.

Torres reconhece a “ausência de uma alternativa política concreta, enraizada socialmente e capaz de responder aos problemas imediatos e às necessidades históricas da classe trabalhadora”. O autor faz essa admissão e, em seguida, exige a união de toda a esquerda e dos setores burgueses considerados democráticos para reeleger Lula. Mas se a alternativa não existe, o que está sendo oferecido ao trabalhador para além da permanência do atual presidente no cargo?

A resposta do autor é que “não há tempo para críticas ao legado lulista ou balanço dos equívocos de campanha no primeiro turno”. Segundo Torres, a discussão deverá ficar para depois. É uma proibição política disfarçada de urgência eleitoral. A esquerda não pode discutir o que o governo fez, com quem governou e quais interesses atendeu precisamente quando pede aos trabalhadores mais quatro anos para o mesmo governo.

O PT chegou ao Planalto em 2003. Lula governou por oito anos, Dilma Rousseff por mais de cinco, até o golpe de 2016, e Lula retornou em 2023. São mais de 17 anos de governos petistas, somados os mandatos. Não se trata de uma organização que ainda precise apresentar suas intenções porque nunca teve oportunidade de aplicá-las. O eleitor conhece o PT e os resultados de sua política. Pedir que esse passado seja retirado da discussão equivale a exigir que o trabalhador ignore a própria experiência.

O que aconteceu durante o terceiro mandato de Lula? O governo manteve a conciliação com os grandes empresários, adotou o arcabouço fiscal e preservou a influência dos banqueiros na política econômica. O piso do Bolsa Família permaneceu em R$ 600 desde 2023 e só foi reajustado para R$ 691 em setembro de 2026, às vésperas da votação. E não havia previsão de aumento para 2027.

Se o autor pretende disputar o futuro, poderia dizer se o próximo governo revogará as reformas trabalhista e previdenciária, se romperá com a política de contenção dos gastos sociais, se enfrentará os juros bancários ou se garantirá um aumento geral dos salários e aposentadorias.

Torres chega a escrever que a vitória de Lula “não resolverá os impasses estratégicos da esquerda” nem reconstruirá, por si só, a capacidade de organização dos trabalhadores. Depois de reconhecer que a reeleição não resolve a questão, volta a convocar todos para votar. Assim, o trabalhador deve adiar suas reivindicações antes da votação e aguardar que a direção petista resolva, depois, os problemas que deixou sem solução durante o governo.

A saída proposta agrava essa contradição. Torres defende expressamente uma convergência de “esquerda e direita contra Flávio Bolsonaro” e pede apoio à chapa Lula-Alckmin. Mas a direita tradicional já ocupa posições decisivas no governo e ajuda a determinar seus limites. Como seria possível derrotar a política dos grandes capitalistas entregando a esses mesmos setores o poder de decidir o que um governo pode ou não fazer? Isso que fortalece o bolsonarismo.

É preciso defende um programa operário. Reposição integral das perdas salariais, aumento geral dos salários e aposentadorias, redução da jornada sem redução dos vencimentos, revogação das reformas impostas desde 2016 e cancelamento das dívidas dos trabalhadores com os bancos são reivindicações capazes de estabelecer uma disputa concreta entre os interesses de classe.

Pedir voto em nome do medo não é organizar a classe trabalhadora para lutar por seus interesses. É recrutar trabalhadores para a campanha de uma frente ampla e fazer alianças com a burguesia.

O futuro invocado por Torres fica, assim, sem programa e sem balanço. A direita é apresentada como uma ameaça terrível, enquanto os responsáveis por governar o País durante quase duas décadas são dispensados de explicar o que fizeram e o que pretendem fazer. Há dez dias para o segundo turno, segundo o próprio autor, mas houve mais de 17 anos para demonstrar o que o PT oferece. Esse é o problema que nenhuma ficha policial de Flávio Bolsonaro pode esconder.

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