O Partido Comunista Brasileiro (PCB) resolveu convocar seus militantes a ir às ruas, visitar os bairros populares e conversar com os trabalhadores. O chamado saiu em nota da Comissão Política Nacional em 9 de outubro, cinco dias após o primeiro turno. A tarefa imediata, porém, não é organizar uma greve, enfrentar os patrões ou defender uma reivindicação da classe operária. É conquistar votos para Lula no segundo turno contra Flávio Bolsonaro. O voto útil é apresentado como se fosse um programa de organização revolucionária.
A própria nota, no entanto, reconhece que o avanço eleitoral da direita é fruto da política de conciliação de classes do PT, dos acordos com o Centrão e das concessões feitas aos empresários e ao capital financeiro. Admite ainda que setores da esquerda abandonaram os bairros, as periferias e os locais de trabalho, enquanto a direita desenvolveu relações duradouras com parte da população. Tal diagnóstico exigiria um balanço rigoroso da atividade desses partidos. O PCB, contudo, passa rapidamente da constatação do problema à ordem para virar votos.
Agora é preciso procurar amigos e parentes, realizar reuniões, atuar nas escolas e nas redes sociais, conversar com os que se abstiveram e convencer trabalhadores que votaram em Flávio Bolsonaro a mudar de posição. Uma relação política, porém, não se estabelece às pressas, a poucos dias da votação.
Aparece aí uma característica da esquerda pequeno-burguesa: as eleições ditam o ritmo de sua existência. Durante longos períodos, a atividade política se reduz a iniciativas dispersas, reuniões internas e manifestações ocasionais. Quando se aproximam as urnas, tudo se torna urgente. Surgem os chamados à mobilização, à organização dos trabalhadores e à presença nos bairros. A atividade que deveria ser diária vira campanha de algumas semanas.
Conquistar trabalhadores para uma política revolucionária requer confiança, intervenção nas lutas, uma imprensa ativa e a defesa permanente das necessidades populares. É preciso organizar reuniões quando não há eleição, participar dos conflitos nas fábricas, enfrentar a repressão nos bairros, defender os trabalhadores diante dos patrões e disputar politicamente cada acontecimento importante. A votação pode servir para ampliar esse trabalho, nunca para substituí-lo.
A justificativa para esse eleitoralismo é o suposto combate ao fascismo. Mas onde está essa luta? O PCB não apresenta um plano de mobilização independente dos trabalhadores contra organizações fascistas, não procura organizar a classe operária para enfrentar a direita nas ruas e tampouco demonstra como a reeleição de Lula derrotaria o fascismo. Toda a urgência se resume à conquista de votos. A ameaça fascista serve para justificar a política do mal menor, segundo a qual os trabalhadores devem apoiar um governo aliado à burguesia para impedir a vitória de outro candidato burguês. Não há, nessa orientação, uma luta efetiva contra o fascismo, mas uma operação eleitoral apresentada como se fosse um grande combate político. A denúncia do fascismo aparece como pretexto para subordinar a esquerda à campanha do PT.
A imprensa partidária do partido é um exemplo da distância entre os grandes chamados e os meios empregados para realizá-los. O Poder Popular, jornal do PCB, apresenta-se como publicação mensal. A edição 109 saiu em setembro; a de número 110 foi anunciada em 7 de outubro. Seu portal publica poucos artigos, e está longe de ser um órgão diário capaz de intervir nos principais acontecimentos políticos do País.
A imprensa de um partido revolucionário é instrumento de organização. Permite explicar todos os dias aos trabalhadores o que fazem o governo, os patrões, os bancos, a polícia e o Judiciário. A propaganda burguesa não tira férias entre uma eleição e outra. A direita não espera quatro anos e fala com seu público diariamente.
É certo que não se pode tratar todo eleitor de Flávio Bolsonaro como um militante consciente da direita. Parte desses votos expressa descontentamento com as condições de vida e com o governo. Mas a conclusão que o PCB tira é estreitamente eleitoral: é preciso procurar essas pessoas para que votem em Lula. A consciência dos trabalhadores é reduzida à mudança de uma preferência na urna.
Um operário que votou na direita deve ser conquistado para a luta contra os patrões mesmo que não mude seu voto nesta eleição. Ele deve ser levado a compreender a necessidade de se organizar, lutar por melhores salários e se opor à repressão policial. Para uma política de classe, esse desenvolvimento importa muito mais do que conseguir mais um voto para uma candidatura que governa aliada à burguesia.
O PCB escreve que sua atuação no segundo turno preservará a independência política, programática e orgânica. Mas a independência não decorre de uma declaração. Se o objetivo central passa a ser reeleger Lula, a crítica às suas alianças, à austeridade e às concessões ao capital financeiro acaba subordinada às conveniências dessa campanha. O partido está colocando sua militância a serviço da eleição de outro partido sem uma necessidade apontada pela luta de classes.
Em 29 de setembro, Edmilson Costa havia respondido a Breno Altman para defender o direito de candidaturas de esquerda apresentarem um programa diferente do de Lula no primeiro turno. Dias depois, o PCB publicou, em 6 de outubro, um artigo intitulado Agora é Lula!. Em 9 de outubro, veio a nota que exige a mobilização de toda a militância para essa finalidade. O PCB defendia votos em sua candidatura enquanto estava na disputa; encerrado o primeiro turno, sua prioridade passou a ser a campanha do PT.
É essa inversão que explica a súbita descoberta das ruas pelo PCB. A direção anuncia que é necessário voltar aos bairros, organizar comitês e disputar a consciência dos trabalhadores, mas fixa como objetivo imediato reeleger Lula, sob o pretexto de combater o fascismo. No dia seguinte à votação, desaparecerá a razão dessa urgência eleitoral. Os salários continuarão baixos, os juros continuarão pesando sobre as famílias e os patrões continuarão atacando os trabalhadores. Organizar a classe operária exigirá então o que já exigia antes do primeiro turno: uma atividade política permanente, não uma convocação desesperada a cada quatro anos.




