Eleições 2026

Apoio dos conservadores afundará ainda mais candidatura de Lula

Colunista do Brasil 247 quer exibir Reale Jr., Kassab e Celso de Mello na campanha petista, apesar do fracasso de quatro anos de conciliação com a direita

Em artigo publicado no Brasil 247 em 10 de outubro, intitulado Lula precisa mostrar apoio dos conservadores, Alex Solnik apresenta sua receita para o segundo turno presidencial: a campanha petista deveria divulgar declarações de Miguel Reale Júnior, Gilberto Kassab e Celso de Mello, esperando conquistar eleitores de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury. Depois de Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, o jornalista propõe procurar salvação entre representantes da direita.

Segundo o colunista, “os votos conservadores são os votos de que Lula precisa”. Essas opiniões, segundo ele, devem aparecer na televisão e nas redes sociais. Supõe, assim, que a declaração de um figurão conservador convenceria eleitores da direita a seguir Lula. Mas não apresenta razão alguma para acreditar que esses eleitores obedeçam às orientações de Miguel Reale Júnior ou de um ex-ministro do Supremo.

Uma coisa é disputar o voto de trabalhadores que, por razões diversas, votaram em candidatos de direita. Outra, inteiramente diferente, é pedir a chancela dos chefes políticos da direita. O operário, o comerciário, o motorista e o trabalhador informal que votaram em Zema ou Caiado não têm necessariamente os mesmos interesses dos empresários, banqueiros e políticos que apoiam essas candidaturas. Para ganhar esses trabalhadores, seria preciso apresentar reivindicações capazes de melhorar sua vida. Solnik prefere colocar os patrões na propaganda.

Solnik chama Miguel Reale Júnior de “algoz da Dilma”, mas trata seu voto em Lula como um trunfo. Reale foi um dos autores do pedido de impeachment que derrubou Dilma Rousseff em 2016. Ao declarar apoio a Lula neste segundo turno, reafirmou não se arrepender de seu papel naquele episódio. O golpe abriu caminho para a ofensiva contra os direitos trabalhistas, inclusive a reforma aprovada em 2017. Solnik teme o fim da CLT sob Flávio e, ao mesmo tempo, propõe promover um dos responsáveis pela ruptura política que facilitou seu desmonte.

Com Gilberto Kassab, a recomendação nem sequer se apoia numa declaração de voto. Solnik cita o fato de ele torcer para que não haja “caos institucional” se Flávio vencer. Na entrevista à Folha de S.Paulo de 9 de outubro, Kassab disse que o PSD liberou seus integrantes para apoiar qualquer candidato. Ele próprio não declarou voto em Lula. Disse ainda que algumas propostas levantadas por Flávio para o Judiciário lhe agradam e lembrou que, em São Paulo, seu partido está majoritariamente com Tarcísio de Freitas. Candidato a vice de Ronaldo Caiado no primeiro turno, Kassab tenta preservar espaço para negociar com quem vencer. Não se converteu ao petismo.

Celso de Mello completa a lista. O antigo ministro do STF pode considerar Flávio uma ameaça às instituições, mas não oferece, por isso, uma saída para os problemas da população. O que seu cargo tem a ver com o salário, a jornada exaustiva ou as dívidas dos trabalhadores? Solnik propõe substituir reivindicações materiais pela palavra de um representante do Judiciário, como se o povo aguardasse a opinião de um ministro aposentado para decidir seu voto.

Solnik espera atrair eleitores de Caiado, Zema, Renan e Cury, “independentemente da posição deles”. Nem propõe formalizar novas alianças: considera suficiente reproduzir declarações já publicadas. Mas, ao fazer do aval dessas personalidades o instrumento para conquistar votos, substitui a disputa política por uma coleção de depoimentos de figuras consideradas respeitáveis. Trata os eleitores conservadores como uma massa de votos que os chefes da direita poderiam transferir, sem lhes oferecer um programa que atendesse a seus interesses.

A experiência recente desmente essa superstição. Lula passou quatro anos governando com Geraldo Alckmin, ex-governador tucano de São Paulo e adversário histórico do PT, na vice-presidência. Cercou-se de políticos burgueses, ofereceu espaço à direita em seu governo e organizou alianças estaduais com setores que haviam apoiado o golpe de 2016. A frente ampla deveria impedir o fortalecimento do bolsonarismo. O resultado foi exatamente o contrário: Flávio chegou à frente ao segundo turno.

Os números não permitem disfarçar o problema. No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.268 votos, contra 53.876.617 de Lula. O petista recebeu cerca de 3,38 milhões de votos a menos do que havia conseguido no primeiro turno de 2022. Depois de quatro anos de governo e de alianças com a direita, perdeu parte do eleitorado que já possuía. A conclusão de Solnik é que Lula precisa se aproximar ainda mais dos conservadores. O fracasso da conciliação vira pretexto para aprofundá-la.

A política tem uma consequência concreta. Para manter unidos os representantes dos bancos, do grande empresariado e dos partidos conservadores, o PT precisa oferecer garantias de que não irá contrariar seus interesses fundamentais. Não se pode prometer aos trabalhadores a revogação das reformas contra a CLT e, ao mesmo tempo, apresentar os responsáveis pela ofensiva como autoridades a serem celebradas. A conciliação não faz os conservadores adotarem um programa operário. Faz a campanha petista esconder ou rebaixar o que poderia incomodá-los.

Solnik diz que os direitos sociais estão ameaçados por Flávio. Mas o que aconteceu com esses direitos durante o governo Lula? A reforma trabalhista de 2017 continuou em vigor. Os trabalhadores permaneceram submetidos à terceirização, à insegurança no emprego e a uma jornada que consome quase toda a vida. Qual reivindicação de fundo o governo coloca agora na mesa para alterar essa situação? Solnik não apresenta nenhuma. Sua resposta é mostrar Miguel Reale Júnior no horário eleitoral.

O trabalhador que recebe um salário insuficiente para pagar aluguel, alimentação e transporte precisa de reajustes e proteção contra a inflação. O aposentado precisa recuperar o valor perdido de seu benefício. A família endividada precisa de medidas contra os juros dos bancos. Nenhuma dessas necessidades é atendida por uma declaração de Kassab sobre a convivência entre Executivo e Judiciário. E os trabalhadores conservadores também comem, pagam aluguel e sofrem com dívidas.

É preciso uma orientação oposta: reposição integral das perdas salariais, aumento emergencial de 50% dos salários, reajustes automáticos quando o custo de vida subir 3%, redução da jornada para 35 horas semanais sem redução dos vencimentos e revogação das reformas impostas a partir do golpe de 2016, o cancelamento das dívidas dos trabalhadores com os bancos e o fim da submissão do orçamento público aos grandes credores. Não são declarações de simpatia de políticos conhecidos. São reivindicações que atingem diretamente a relação entre capital e trabalho.

O caminho para enfrentar a direita não passa por transformar os arquitetos do golpe e os representantes do grande capital em garotos-propaganda de Lula. Passa por apresentar reivindicações que dividam os trabalhadores de seus exploradores, inclusive quando esses trabalhadores votaram em candidatos conservadores.

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