Um vídeo divulgado na conta de Daniela Faveno, no Instagram, pretende dar uma aula de biologia para contestar a existência objetiva dos sexos masculino e feminino. A autora recorre à medicina grega, à história do sufrágio feminino e até à reprodução das bactérias. Seu argumento parte da mudança das teorias científicas para sugerir que o sexo biológico não seria uma realidade estável da natureza. Ocorre que a história das explicações científicas não é a história dos fenômenos que elas procuram explicar.
A exposição começa com a afirmação de que “até meados de 1750” teria prevalecido um modelo de sexo único, vindo da Antiguidade. Nele, a mulher seria uma espécie de homem incompleto, com órgãos semelhantes aos masculinos, porém localizados no interior do corpo. Depois, “por volta de 1850”, a medicina teria desenvolvido o modelo de dois sexos opostos, justamente quando as mulheres passavam a exigir participação política. A descrição insinua que a distinção biológica entre homens e mulheres foi estabelecida para justificar sua desigualdade social.
A primeira dificuldade da versão divulgada no vídeo está na própria Antiguidade. Aristóteles, no século IV antes de Cristo, já distinguia explicitamente o macho e a fêmea na reprodução dos animais. Em Da geração dos animais, atribuiu ao macho o princípio formador do embrião e à fêmea a matéria necessária ao seu desenvolvimento. Era uma interpretação equivocada, entre outras razões porque desconhecia a contribuição genética materna. Mas seria absurdo concluir que Aristóteles não reconhecia a diferença entre os sexos. Sua teoria partia precisamente dessa diferença para tentar explicá-la.
Nem era preciso ser filósofo para perceber a diferença. Na reprodução humana, a participação de um homem e de uma mulher era conhecida antes dos microscópios e da genética. Os antigos não conheciam gametas, cromossomos e hormônios, mas sabiam, pela experiência, que os sexos desempenhavam funções reprodutivas diferentes. Desconhecer o mecanismo de um processo não equivale a ignorar sua existência. Isso já contraria a tentativa de apresentar a diferenciação sexual como uma criação do século XIX.
Galeno, o médico grego que viveu no Império Romano, é utilizado no víde por sua comparação entre órgãos masculinos e femininos que ajudou a difundir a interpretação segundo a qual a mulher seria uma versão menos perfeita do homem. Mas comparar estruturas internas e externas não significa afirmar que machos e fêmeas sejam indistinguíveis. O próprio Galeno reconheceu diferenças que ultrapassavam a posição dos órgãos genitais. A tese de que a medicina antiga se resumia a um único modelo homogêneo não corresponde ao que seus textos mostram.
Foi Thomas Laqueur quempopularizou, no seu Making Sex, de 1990, a ideia de uma longa passagem histórica do modelo de sexo único ao de dois sexos. Helen King criticou essa hipótese em The One-Sex Body on Trial, de 2013. A historiadora demonstrou que concepções diferentes coexistiam na medicina antiga, inclusive em Galeno, e que textos Hipócrates distinguiam os corpos de homens e mulheres. A versão apresentada como fato histórico incontroverso, portanto, é contestada por especialistas que estudaram diretamente os documentos.
A biologia contemporânea não depende de Galeno nem das peculiaridades políticas de 1850. Nos animais, a reprodução sexuada se realiza, em geral, pela união de dois tipos de gametas: o grande, o óvulo, e o pequeno, o espermatozoide. Essa diferença, chamada anisogamia, fundamenta os papéis reprodutivos masculino e feminino. A ciência investiga hoje gônadas, hormônios, genes e desenvolvimento embrionário. Nada disso supõe, obviamente, que todos os indivíduos apresentem características idênticas ou negar variações do desenvolvimento sexual.
Para fugir desse terreno, Favero menciona “organismos, bactérias” e formas de reprodução que não se dão “entre macho e fêmea”. O argumento é completamente forçado. Bactérias, em sua maioria, multiplicam-se por divisão celular e podem trocar material genético por outros processos. Não possuem óvulos e espermatozoides como os seres humanos. Apontar um organismo que se reproduz de outra maneira não altera a reprodução humana. Seria como argumentar que, porque determinados animais respiram por brânquias, os pulmões dos mamíferos são uma invenção cultural.
A comparação com as aves seria muito mais instrutiva. Nesse grupo, machos e fêmeas constituem indivíduos separados, e o sistema cromossômico habitual é ZZ nos machos e ZW nas fêmeas, diferente do sistema XX/XY característico dos mamíferos. Os mecanismos genéticos variam, mas a reprodução sexual permanece organizada em torno de óvulos e espermatozoides. Com dois casos raríssimos de partenogênese.
Isso, claro, não torna as aves, os mamíferos ou os seres humanos modelos universais de reprodução. Existem organismos assexuados, animais hermafroditas e espécies cujos gametas não são diferenciados como os nossos. Reconhecer essa diversidade é indispensável. O erro está em passar da afirmação correta de que nem toda a vida se reproduz por machos e fêmeas à conclusão, sem fundamento, de que a diferenciação sexual humana seria uma invenção histórica. A variedade dos seres vivos não apaga a organização reprodutiva de cada espécie.
A autora também afirma que o sexo biológico “não é uma estátua”. Evidentemente, não é. Corpos sofrem transformações e podem apresentar diferentes condições de desenvolvimento sexual. Confundir um processo biológico com uma estátua seria um erro. Mas confundir transformação com inexistência de determinações materiais é igualmente um equívoco. A puberdade modifica profundamente o organismo sem transformar a reprodução humana numa convenção arbitrária. Nem a infertilidade, a menopausa ou uma variação cromossômica criam um terceiro tipo de gameta humano.
A referência a Ludwik Fleck também exige cuidado. Esse médico investigou como grupos de pesquisadores elaboram conceitos, métodos e critérios para reconhecer os fatos científicos. Sua obra ajuda a compreender por que o conhecimento muda e por que determinadas interpretações se impõem. Não fornece, entretanto, uma demonstração biológica de que a distinção reprodutiva entre machos e fêmeas tenha sido fabricada por um grupo social. O desenvolvimento histórico do conhecimento não implica que a realidade dependa da consciência dos pesquisadores para existir.
Não é necessário forçar que a biologia é uma invenção para defender a liberdade individual, das pessoas trans, ou a igualdade de direitos. Reconhecer esse princípio democrático é perfeitamente compatível com descrever, sem distorções, como funciona a reprodução dos seres humanos.
A reprodução humana, observada durante milhares de anos, bastava para impedir a confusão. Os gregos não precisavam conhecer o DNA para distinguir homens e mulheres. Mas a insistência do ativismo trans em querer subverter essa realidade evidente e impor seus conceitos acaba indispondo grande parte da população contra ele.





