Para Valerio Arcary, a cada nova eleição o Brasil se aproxima do abismo e a esquerda precisa abandonar alguma coisa para impedir a catástrofe. Primeiro, a independência diante dos partidos burgueses; depois, a crítica às instituições; agora, até o balanço de uma derrota. De urgência em urgência, o dirigente da Resistência, corrente do PSOL, passou da defesa do socialismo à defesa da democracia liberal. Seus próprios artigos documentam essa trajetória.
Em Lutar até o fim, publicado em 7 de outubro no sítio A Terra é Redonda, a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno aparece como prenúncio de uma calamidade. Arcary anuncia um “inverno siberiano” e determina: “Não é hora de fazer os balanços. Não temos tempo.” Promete aprender com os erros, mas só depois. Até lá, os trabalhadores devem aceitar a linha de Lula sem examinar por que tantos eleitores se afastaram do governo.
A ordem de suspender o balanço não chega por acaso. Em 6 de março de 2025, no artigo Três critérios de análise da situação mundial, publicado no Esquerda Online, Arcary já havia anunciado sua escolha política com todas as letras: “Estamos no campo da democracia liberal em unidade na ação, nas ruas e nas eleições com as fissuras burguesas contra a ameaça neofascista.” Não falava apenas em defender liberdades democráticas. Colocava a esquerda num campo burguês e propunha unidade eleitoral com setores da burguesia.
Democracia liberal, para quem não sabe, é o nome fantasia do imperialismo, o pior inimigo da classe trabalhadora. São aqueles que estão mantendo uma guerra suja na Ucrânia, atacando o Irã e promovendo há décadas o genocídio do povo palestino.
Talvez Arcary tenha se esquecido, mas não se combe a censura, a repressão e os ataques aos direitos populares dando de presente os trabalhadores aos liberais. A democracia parlamentar e fascismo, além de preservam a dominação capitalista são ambos inimigos declarados da esquerda. Arcary coloca essa disputa acima da contradição entre capital e trabalho.
Nove dias depois, em 15 de março de 2025, veio o complemento teórico. No artigo Trotsky não era infalível, também publicado no Esquerda Online, Arcary endossou uma crítica de Perry Anderson à posição de Trótski durante a Segunda Guerra Mundial. Escreveu “Perry Anderson tem razão” e sustentou que o revolucionário havia subestimado a necessidade de alianças mais amplas em defesa de uma república democrática. A polêmica não se limitava à possibilidade de um dirigente revolucionário errar: atingia o princípio da independência operária diante dos campos imperialistas e das direções burguesas.
A divergência fica clara ao se consultar o próprio Trótski. Em textos escritos quando o nazismo ameaçava esmagar as organizações operárias alemãs, o dirigente revolucionário defendeu a frente única entre comunistas e social-democratas para a luta efetiva contra o fascismo. Não entregava, porém, a direção operária à burguesia liberal. Em 1932, advertiu contra acordos feitos ao preço de concessões de princípios ou do silêncio sobre divergências fundamentais.
Para um marxista, se é assim que Arcary se considera, soa estranho levantar essa questão da infalibilidade, e seja do que for, a menos que tenha uma concepção religiosa do mundo. E quem abandona a independência de classe deve explicar que princípio colocou em seu lugar. Arcary aderiu ao campo da democracia liberal. A cada nova ameaça fornece outra justificativa para permanecer ali.
Seu método se repete em 2026. Em maio, no artigo Giro de emergência, Arcary advertiu que a possibilidade de derrota de Lula exigia uma reação imediata do governo. Em agosto, em Cinco semanas dramáticas, publicado no Esquerda Online, voltou a apresentar a eleição como batalha de sobrevivência. Chamou de “realismo revolucionário” a necessidade de unir os mais moderados e os mais radicais em torno da vitória de Lula e afirmou que a defesa do legado do presidente seria indispensável. Em outubro, depois do primeiro turno, o prazo voltou a vencer: já não seria possível sequer discutir as causas do resultado.
O expediente serve para apresentar cada concessão como temporária. Mas a excepcionalidade se renova a cada votação, crise parlamentar ou decisão do STF. A ocasião de recuperar os princípios nunca chega. A política provisória vira programa permanente, subordinado às necessidades eleitorais do PT.
Daí o julgamento que Arcary faz das últimas medidas de Lula. Considera correto o aumento tardio do Bolsa Família – uma tentativa escancarada de compra de votos –, o Desenrola e a proibição das apostas, lamentando apenas que tenham sido anunciados tarde demais. Não questiona por que o benefício permaneceu desvalorizado nem por que a população continua endividada. Até a proibição das apostas vira virtude eleitoral. A situação dos trabalhadores se submete à contabilidade dos votos.
A subordinação às instituições burguesas aparece de maneira crua quando Arcary comemora a atuação de Flávio Dino na disputa entre André Mendonça e Alexandre de Moraes. Segundo ele, uma ofensiva de Mendonça teria preparado uma campanha contra o governo. Sobre a intervenção de Dino, escreve que “felizmente, foi interrompida pela lucidez de Flávio Dino.” Dito de outro modo, comemorou uma decisão contra o bolsonarista em favor de Alexandre de Moraes, atolado até o pescoço no escândalo do Banco Master.
O caso do Master envolve informações sobre relações de Daniel Vorcaro com integrantes do STF e com o escritório de advocacia da mulher de Moraes. Em vez de exigir investigação, Arcary oferece absolvição política antecipada. Ele que em setembro já havia reconhecido como “indefensável” a relação atribuída a Moraes e Vorcaro. Agora encontra em Dino um protetor da democracia justamente porque, em sua interpretação, deteve o ataque a Moraes. Joga-se fora a defesa dos direitos democráticos e sobra a conveniência eleitoreira.
Arcary reconhece que a cláusula de barreira ameaça o próprio PSOL, mas trata o Judiciário, formado por magistrados não eleitos e vitalícios, como muralha contra o autoritarismo. Além de depositar esperanças no aparelho estatal que deveria submeter à crítica de classe.
O aprofundamento da adesão de Arcary à democracia liberal, ao imperialismo, está registrada. Em março de 2025, adesão declarada ao campo liberal; dias depois, revisão de Trótski para justificar alianças burguesas; em 2026, emergências sucessivas para disciplinar a esquerda em torno da campanha de Lula; por fim, elogio a Flávio Dino e suspensão do balanço eleitoral.
A urgência, como se vê, não é uma circunstância passageira. É o método com o qual Arcary procura justificar a substituição da política socialista pela defesa do regime burguês.





