Um incêndio de grandes proporções atingiu a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na noite de quarta-feira (7), e foi imediatamente transformado pela campanha eleitoral do presidente Lula em uma suposta ação terrorista da direita. Antes de qualquer investigação, perfis já apontavam bolsonaristas como responsáveis pelo fogo. A acusação se espalhou rapidamente pelas redes sociais, envolvendo até mesmo um deputado federal recém-eleito.
A história, porém, começou a desmoronar quando surgiram relatos de estudantes de que o incêndio teria começado em um aparelho de ar-condicionado. A informação foi divulgada pelo próprio Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFPE, em vídeo no qual seus integrantes aparecem com adesivos em apoio a Lula. Imagens publicadas nas redes também mostraram chamas na região onde estavam instalados aparelhos de climatização. Embora a causa ainda dependa de perícia, a versão de um atentado bolsonarista não tinha qualquer comprovação.
O incêndio atingiu um prédio onde funcionavam laboratórios de pesquisa nas áreas de fármacos, informática e genética. Segundo o reitor Alfredo Gomes, os prejuízos podem chegar a R$100 milhões. Equipamentos, materiais científicos e pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas foram destruídos. Não houve feridos.
Nas redes sociais, começaram a circular capturas de mensagens atribuídas a participantes de grupos de WhatsApp contrários a Lula. Em uma delas, um usuário escrevia: “Vamos explodir o departamento de vocês”. Em outra, aparecia a ameaça: “Fiquem espertos com a bomba”.
Uma das publicações afirmava que o deputado federal eleito Thiago Medina (PL), de Pernambuco, havia sido flagrado em um grupo que articulou ameaças de bomba na universidade. A associação entre o parlamentar, as mensagens e o incêndio foi apresentada de maneira a sugerir a existência de uma ação criminosa organizada.
A vereadora do Recife Jô Cavalcanti (PSOL) acionou a Polícia Federal para investigar mensagens publicadas em um grupo no qual Medina aparecia apontado como administrador. O pedido de investigação mencionava inclusive a reacionária Lei Antiterrorismo.
A campanha de acusações ganhou velocidade precisamente porque se encaixava na propaganda eleitoral do lulismo: apresentar a direita como uma ameaça permanente à sociedade e Lula como o único capaz de impedir uma catástrofe.
A propaganda começou a enfrentar problemas quando os próprios estudantes da universidade apresentaram outra versão.
Segundo relatos divulgados pelo DCE da UFPE, o incêndio poderia ter começado em um aparelho de ar-condicionado antigo. Vídeos publicados nas redes mostravam chamas próximas aos equipamentos instalados na fachada do edifício.
A hipótese ainda depende de confirmação. A Polícia Federal, responsável pela investigação, precisou suspender os trabalhos periciais após constatar riscos na estrutura do prédio.
O incêndio de quarta-feira foi o terceiro ocorrido na UFPE em pouco mais de uma semana. Os dois anteriores tiveram causas identificadas pela universidade: um experimento malsucedido no Departamento de Física e um curto-circuito no Centro de Biociências. Nada disso impediu a fabricação de uma história sobre o “terrorismo” da direita.
A tentativa de explorar eleitoralmente o incêndio acabou dando munição aos próprios bolsonaristas. Thiago Medina reagiu às acusações e afirmou que processaria os responsáveis por associá-lo ao incêndio. Em vídeo divulgado nas redes, o deputado eleito denunciou a tentativa de responsabilizá-lo pelo ocorrido.
“Teve um incêndio na UFPE hoje, estão colocando a culpa em mim e na direita, como se eu tivesse organizado criminosamente para botar fogo no prédio da UFPE. Olha o nível que esses caras estão chegando para ganhar uma eleição”, declarou.
A direita passou então a ironizar a propaganda da esquerda. Uma montagem que circulou nas redes imitava uma manchete do portal G1 e anunciava: “Bolsonaro Hipotético é flagrado incendiando o prédio da UFPE”.
Perfis de direita começaram a divulgar notícias sobre os cortes de verbas promovidos pelo próprio governo Lula contra as universidades federais. Uma das publicações associava a fotografia do presidente a imagens do incêndio e destacava o bloqueio de R$1,6 bilhão no orçamento do Ministério da Educação em 2026.
Em julho de 2025, o reitor Alfredo Gomes já havia anunciado medidas de contenção de despesas para manter a universidade funcionando. Na ocasião, informou que seria necessário receber uma suplementação de R$23,9 milhões para concluir o ano.
A administração anunciou a redução de gastos em contratos, além de outras medidas de economia. O orçamento disponível, segundo a reitoria, seria suficiente apenas até outubro daquele ano. A notícia voltou a circular depois do incêndio, desta vez impulsionada por perfis bolsonaristas.
A situação obrigou o governo a anunciar providências. Na quinta-feira (8), o ministro da Educação, Leonardo Barchini, visitou a UFPE e anunciou a construção de um novo prédio, a reposição de equipamentos destruídos, a extensão de bolsas e medidas para permitir a continuidade das pesquisas.
A tentativa de explorar o incêndio da UFPE faz parte de uma política que vem se tornando cada vez mais evidente na campanha de Lula. Diante das dificuldades eleitorais do PT, a orientação de setores da esquerda é substituir o debate sobre os problemas reais dos trabalhadores pela criação de um estado permanente de medo em relação à direita.
O desemprego, os baixos salários, o endividamento das famílias, o custo de vida e os problemas das universidades são colocados em segundo plano. No lugar dessas questões, a população recebe uma sucessão de histórias sobre o suposto perigo extraordinário representado pelos bolsonaristas.
É uma política profundamente reacionária. Em vez de convencer os trabalhadores por meio de um programa que atenda às suas necessidades, pretende-se obrigá-los a apoiar o governo por medo do adversário.
O caso é particularmente escandaloso porque o PT e seus aliados passaram anos defendendo a censura nas redes sociais, a intervenção do Judiciário nas eleições e punições contra seus adversários sob o pretexto do combate às chamadas fake news.
Agora, quando surge uma oportunidade de atacar a direita, os mesmos setores que exigem punições contra a divulgação de notícias falsas não demonstram qualquer preocupação em verificar aquilo que estão espalhando.
Ainda mais grave é a disposição de mobilizar a Polícia Federal e a legislação antiterrorista em uma disputa eleitoral. O resultado dessa política é o oposto daquele pretendido pelos seus defensores.
Ao apresentar acusações sem provas, a campanha lulista oferece aos bolsonaristas a oportunidade de se apresentarem como vítimas de uma campanha de mentiras.
O trabalhador que vê uma notícia sobre terrorismo bolsonarista e, logo depois, encontra informações sobre uma possível falha elétrica tem motivos para desconfiar de quem apresentou a primeira versão como verdade.
Em plena disputa do segundo turno, a campanha de Lula consegue, assim, transformar uma tragédia ocorrida em uma universidade federal em mais uma demonstração de sua própria falência política.



