Polêmica

Identitarismo começa a colher os frutos de seu autoritarismo

Ao pedir que o Estado contenha o conservadorismo, articulista ignora como a judicialização das divergências políticas alimentou a reação que agora lamenta

De Chirico - A Comédia e a Tragécia

O artigo Feminicídio, pautas de costumes e “esquerda radical”: a nova guerra cultural no Brasil, publicado por Sara York no Brasil 247 nesta quinta-feira (8), reconhece o crescimento extraordinário da direita conservadora nas eleições de 2026, mas deixa de lado a questão principal: por que milhões de brasileiros estão votando em candidatos que fazem do combate ao identitarismo uma de suas principais bandeiras?

Lucas Pavanato, do PL, recebeu 3.038.438 votos para deputado federal em São Paulo, quase o dobro dos 1.596.472 obtidos por Erika Hilton, do PSOL. Eduarda Campopiano, também do PL, conquistou 1.956.238 votos para deputada estadual. São números gigantescos. Milhões de eleitores decidiram apoiar candidatos que enfrentam diretamente as posições defendidas por York.

A articulista atribui o fenômeno à capacidade dos conservadores de transformar influência nas redes sociais em votos. Segundo ela, “o ecossistema digital do eleitorado conservador conseguiu converter influência nas redes sociais em capital eleitoral”.

Mas por que essas posições encontram tamanho apoio? York descreve o crescimento da direita, mas não examina a responsabilidade da própria política identitária nesse resultado.

Durante anos, o identitarismo procurou transformar discussões políticas em questões policiais. Em vez de convencer a população, seus representantes passaram a exigir censura, processos judiciais, punições e novas leis penais. A tentativa de impor determinadas concepções pela força do Estado produziu uma reação que agora se manifesta nas urnas.

A direita encontrou um público insatisfeito com uma política que procura estabelecer quais palavras podem ser utilizadas, quais opiniões podem ser expressas e quais divergências devem ser punidas.

Mulheres questionam políticas referentes ao uso de banheiros e prisões femininas, à participação de transexuais em competições esportivas femininas e aos procedimentos médicos de transição de gênero, especialmente quando envolvem menores de idade. Existem também denúncias de perseguição contra mulheres que contestam determinadas concepções sobre identidade de gênero.

Essas questões atingem interesses reais e não vão desaparecer porque seus críticos foram classificados como transfóbicos. É necessário discuti-las publicamente, apresentar argumentos e procurar convencer a população. Transformar cada discordância em crime apenas fortalece aqueles que denunciam o autoritarismo do movimento identitário.

O caso de Isabella Cêpa tornou-se um exemplo conhecido. Depois de criticar a eleição de Erika Hilton para a Câmara Municipal de São Paulo, em 2020, Isabella passou a responder a uma acusação de transfobia. A questão chegou à Justiça Federal e, posteriormente, ao Supremo Tribunal Federal.

O processo foi arquivado, mas Erika Hilton tentou reabri-lo. Em setembro de 2025, Gilmar Mendes rejeitou a reclamação apresentada pela deputada, mantendo o arquivamento decidido pela Justiça Federal.

Isabella chegou a deixar o País e pediu asilo político na Europa. Em setembro deste ano, apresentou uma notícia-crime ao Ministério Público de Santa Catarina contra um assessor parlamentar de Erika Hilton, acusando-o de tentar obter depoimentos falsos contra ela.

O mesmo problema aparece na discussão sobre o “feminicídio”. Setores identitários depositaram enorme confiança no aumento das penas e na criação de novos crimes, como se o Código Penal fosse capaz de solucionar problemas sociais.

Em outubro de 2024, Lula sancionou a Lei nº 14.994, que tornou o feminicídio crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos de prisão. Apesar do endurecimento, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aumento de 4,7% em relação ao ano anterior e recorde da série histórica.

Nos primeiros sete meses de 2026, os dados do Ministério da Justiça apontaram 848 vítimas, contra 876 no mesmo período de 2025, uma redução de 3,2%. A pequena queda não altera o fato de que o País continua registrando mais de uma centena desses assassinatos por mês.

Mesmo assim, a resposta continua sendo pedir penas maiores. O Projeto de Lei 896/2023, aprovado pelo Senado e encaminhado à Câmara, pretende incluir a misoginia entre os crimes previstos na legislação que pune o racismo. A proposta estabelece novas possibilidades de punição penal para manifestações consideradas discriminatórias contra mulheres.

Categorias políticas amplas e sujeitas a interpretações distintas passam a ser entregues à polícia e aos tribunais. A esquerda deveria combater essa ampliação do poder repressivo, não comemorá-la.

O aspecto mais contraditório do artigo de Sara York surge quando ela apresenta sua resposta ao crescimento conservador. Em vez de discutir por que essas posições ganharam tanto apoio, passa a enumerar os instrumentos institucionais disponíveis para conter as decisões de uma maioria parlamentar.

A articulista escreve que “o Executivo federal não controla sozinho a agenda nacional, mas possui instrumentos constitucionais capazes de impedir que determinadas maiorias legislativas convertam automaticamente suas pautas em políticas de Estado”.

Em seguida, apresenta o veto presidencial, a atuação dos ministérios e a relação entre Executivo e Judiciário como mecanismos para enfrentar as propostas conservadoras.

A defesa de direitos não pode depender dos mesmos tribunais e instituições que reprimem a população. A conquista de direitos precisa estar apoiada na organização e na mobilização popular.

York deposita suas esperanças na estrutura institucional do regime político. É uma confiança particularmente perigosa para qualquer setor oprimido.

O Estado não é neutro. O mesmo Judiciário que hoje pode atender a uma reivindicação do movimento identitário amanhã poderá utilizar os mesmos instrumentos contra seus integrantes. A legislação repressiva não pertence a quem a reivindicou. Uma vez criada, passa a integrar o arsenal de força do Estado.

A luta pelos direitos dos transexuais, das mulheres e dos demais setores oprimidos  precisa estar ligada à defesa das liberdades democráticas de toda a população. Ninguém ganha direitos efetivos entregando ao Estado o poder de decidir quais ideias podem circular.

Uma minoria, por mais legítimas que sejam suas reivindicações, precisa ganhar apoio político e social. Não pode substituir a persuasão pela ameaça de processo, nem tratar toda discordância como crime.

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