Quase três em cada dez eleitores do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições, realizado no domingo (4). As mudanças nos locais de votação determinadas pela Justiça Eleitoral criaram dificuldades adicionais para moradores da região, incluindo deslocamentos maiores e longas filas.
Segundo levantamento publicado pela Agência de Notícias das Favelas (ANF), a abstenção na Maré chegou a 28,46%, acima dos 21,08% registrados nacionalmente. A região possui aproximadamente 92 mil eleitores.
O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) determinou mudanças em seis locais de votação, atingindo seções que atendiam uma parcela expressiva do eleitorado da comunidade. Moradores passaram a precisar deslocar-se para bairros vizinhos, entre eles Bonsucesso.
A reportagem da ANF ouviu eleitores que não conseguiram concluir a votação. Ana Cássia, mãe de uma menina de três anos, permaneceu uma hora e quarenta minutos na fila, mas teve de voltar para casa sem votar.
“Tive que ir embora porque já estava há 1h40 na fila e ainda estava longe de chegar a minha vez. Eu precisava voltar para casa para ficar com a minha filha e meu esposo poder trabalhar”, declarou.
O caso mostra uma dificuldade enfrentada especialmente pelos trabalhadores. Quem depende de transporte público, possui filhos pequenos ou precisa cumprir uma jornada de trabalho não dispõe de tempo ilimitado para procurar uma seção eleitoral distante e enfrentar horas de espera.
O TRE-RJ justificou as transferências afirmando que pretendia retirar locais de votação de áreas submetidas à influência do tráfico de drogas e das milícias. Em todo o estado, as alterações atingiram 72 locais, distribuídos por 20 municípios, e aproximadamente 202 mil eleitores.
A medida, apresentada como uma providência de segurança, transferiu parte dos problemas para a própria população. A obrigação de garantir a segurança durante a votação pertence ao Estado, não aos trabalhadores que vivem nas comunidades.
Os dados da abstenção não permitem atribuir todas as ausências às transferências. Os depoimentos recolhidos, entretanto, confirmam que eleitores dispostos a votar encontraram obstáculos que os impediram de exercer esse direito.
O episódio também expõe uma contradição da Justiça Eleitoral. O aparato judicial possui amplos poderes para fiscalizar campanhas, impor multas, retirar candidatos da disputa e alterar resultados eleitorais. Quando se trata de garantir condições para o povo pobre votar, porém, a própria organização da eleição pode converter-se numa dificuldade.



