O prefeito do município operário de Saint-Denis, Bally Bagayoko, da França Insubmissa (LFI), enfrentou a polícia francesa na terça-feira (6) para impedir uma investida contra estudantes que protestavam em Paris. Diante dos agentes, o prefeito gritava para que parassem de avançar. Pouco depois, foi atingido por gás e precisou ser retirado da manifestação, amparado por manifestantes que lhe aplicaram colírio nos olhos. As imagens correram pelas redes sociais e se tornaram um retrato da situação política francesa: enquanto o governo reprime violentamente a juventude, representantes de uma esquerda que se desloca da política de colaboração com a burguesia participam das manifestações.
A participação do prefeito ocorre durante a maior mobilização estudantil registrada na França em muitos anos. Os protestos começaram em 21 de setembro, nos subúrbios de Paris, contra a falta de professores, a superlotação das salas de aula e as péssimas condições das escolas. Em pouco mais de duas semanas, espalharam-se por todo o país, incorporando universitários, professores, sindicatos e outros setores da população.
Na terça-feira (6), a jornada nacional reuniu 450 mil, segundo os organizadores. Centenas de escolas foram bloqueadas, ocorreram confrontos com policiais e as reivindicações escolares passaram a se combinar com palavras de ordem diretamente contra o presidente Emmanuel Macron.
A repressão assumiu proporções extraordinárias. Até quinta-feira (8), mais de 6.600 pessoas haviam sido detidas, a maioria menores de idade. Segundo o governo, 215 estudantes, 85 professores e 715 policiais ficaram feridos. A violência contra adolescentes provocou indignação em todo o país.
Em Lens, no norte da França, um estudante de 15 anos perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada lançada pela polícia. Outro jovem, de 14 anos, perdeu vários dentes quando uma bomba de gás lacrimogêneo explodiu próximo de seu rosto. Somente depois desses acontecimentos o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou a suspensão temporária do uso de granadas de efeito moral contra estudantes secundaristas.
Manuel Bompard, coordenador nacional da França Insubmissa, denunciou a medida tardia: “Foi preciso que vários jovens ficassem mutilados para o resto da vida para que Nuñez desistisse de usar granadas contra estudantes do ensino médio”.
A polícia abriu 18 investigações sobre denúncias de abusos praticados durante os protestos. O governo, entretanto, continua defendendo a atuação das forças de repressão. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu chegou a negar a existência de repressão policial, apesar dos milhares de detidos e dos ferimentos sofridos pelos estudantes.
‘Greves, bloqueios, Macron, fora!’
A violência não conseguiu interromper a revolta. Nesta quinta-feira (8), dezenas de milhares de estudantes ocuparam a praça da Bastilha, em Paris, acompanhados por professores, sindicatos e trabalhadores. O governo apostava no desgaste das manifestações, mas encontrou um movimento que continua crescendo e se politizando.
Uma das palavras de ordem registradas pelo jornal L’Humanité foi: “Luís XVI? Nós o decapitamos. Macron? Podemos repetir!”
A referência à Revolução Francesa, feita justamente na praça da Bastilha, expressa a hostilidade crescente contra o presidente. Os jovens não estão mais discutindo apenas a contratação de professores ou reformas escolares. O governo tornou-se o alvo político das manifestações.
Desde 1789, a França é o coração pulsante da revolução na Europa. O Partido da Causa Operária (PCO) realizará, em janeiro, mais um curso da Universidade Marxista, atividade de mais de 30 anos da organização. O tema será justamente “A História da Revolução Francesa à luz do Marxismo”. O curso será ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente do PCO e candidato nas últimas eleições presidenciais. Para se inscrever no curso, basta entrar em contato pelo número (11) 99928-3695 ou acessar a loja de cursos da Universidade Marxista.
Em Lille, no norte do país, os manifestantes gritavam nessa quinta “Greves, bloqueios, Macron, fora!”. Segundo o sindicato SUD, 10 mil pessoas participaram do ato.
A mobilização chegou também aos estabelecimentos privados católicos, conforme reportagem publicada pelo Le Monde. A adesão demonstra que a crise da educação atinge setores sociais distintos, embora os protestos tenham começado nas regiões operárias e mais pobres. É uma rebelião generalizada da juventude contra o governo neoliberal e identitário de Macron.
As reivindicações incluem contratação de professores, ampliação das vagas universitárias, melhores instalações, assistência financeira e moradia estudantil. Os jovens exigem ainda o fim do Parcoursup, sistema que seleciona os candidatos ao ensino superior, e a interrupção da repressão policial. Suas organizações apresentaram dez exigências, cujo atendimento custaria aproximadamente um bilhão de euros, segundo suas próprias estimativas.
Mas a luta já ultrapassou os limites da educação. Os estudantes se preparam para participar de uma nova jornada nacional de greves e protestos em 17 de outubro, ao lado de sindicatos que combatem os cortes orçamentários, o congelamento dos salários do funcionalismo e o aumento do custo de vida.
A Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a França Insubmissa apoiam a convocação. Outra mobilização está prevista para 20 de novembro, com a participação de organizações juvenis de diferentes países europeus.
A comparação com Maio de 1968 começou a aparecer entre estudantes, sindicalistas e analistas. Naquele ano, manifestações universitárias deram origem a uma greve geral que envolveu milhões de trabalhadores e colocou em xeque o regime comandado por Charles de Gaulle. A situação atual ainda possui diferenças importantes, mas a entrada dos sindicatos na luta contra Macron abre a possibilidade de uma ampliação da luta.
A mobilização empurra Mélenchon para a esquerda
A presença da França Insubmissa nas manifestações merece atenção especial. O partido de Jean-Luc Mélenchon é uma organização reformista, que procura realizar transformações políticas e sociais por meio das instituições do regime. Entretanto, a crise francesa está empurrando a LFI para posições mais à esquerda, sob a pressão da mobilização popular.
Não foi Mélenchon quem colocou centenas de milhares de estudantes nas ruas. Foram as condições de ensino, os ataques aos direitos sociais e a própria política de Macron que provocaram a revolta. A dimensão adquirida pelo movimento obriga os partidos que reivindicam representar os trabalhadores a se posicionarem diante de um confronto aberto com o governo.
A França Insubmissa está acompanhando essa radicalização. Seus dirigentes participam das manifestações, denunciam a polícia e apoiam a organização de novas greves. O caso de Bally Bagayoko é especialmente significativo porque mostra um representante eleito da esquerda atuando ao lado dos manifestantes, mesmo quando isso significa enfrentar as forças policiais.
A aproximação com a luta popular não elimina as contradições reformistas da organização. Mélenchon, por exemplo, defendeu que seus militantes se colocassem diante da repressão, mas também fez apelos à não violência. A LFI oscila entre a pressão exercida pelos estudantes e trabalhadores e sua própria política de atuação dentro do regime.
Apesar dessas limitações, seu crescimento é um resultado político importante da crise francesa. Os partidos tradicionais, inclusive o PS e o PCF, perderam sua autoridade, enquanto a França Insubmissa ganhou espaço como oposição ao governo. Nas eleições municipais de março, conquistou prefeituras como Saint-Denis, Roubaix e Creil, municípios com forte presença operária e popular.
O Partido Socialista, ao contrário, procurou preservar acordos com os partidos tradicionais e impedir o crescimento de Mélenchon. Nas disputas municipais, organizou alianças das quais a LFI foi excluída, aprofundando a divisão entre os setores da esquerda vinculados ao regime e aqueles que procuram apoio nas mobilizações.
Essa diferença tem consequências para as eleições presidenciais de 2027. Com o desgaste de Macron e o enfraquecimento da direita, Mélenchon aparece entre os principais dirigentes da oposição. O avanço da França Insubmissa entre os trabalhadores e os estudantes amplia suas possibilidades eleitorais, ao mesmo tempo que provoca uma reação cada vez maior dos partidos burgueses.
A burguesia francesa teme não apenas as propostas reformistas de Mélenchon, mas principalmente a pressão de um movimento de massas que poderá acompanhá-lo. Um governo de esquerda eleito sobre a base de uma grande mobilização popular enfrentaria reivindicações muito mais profundas que aquelas normalmente discutidas no Parlamento.
A extrema direita deixa de ser um inimigo inaceitável
A reação da burguesia francesa ao crescimento da LFI começa a revelar o caráter oportunista da política de frente ampla contra a extrema direita.
Durante anos, Macron e seus aliados exigiram que a esquerda apoiasse candidatos burgueses para impedir a vitória do Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen. Nas eleições legislativas de 2024, essa política levou à retirada de 217 candidaturas no segundo turno, das quais 130 pertenciam à Nova Frente Popular, favorecendo a eleição de representantes do centro e da direita conservadora.
Depois de receber essa ajuda, Macron recusou-se a entregar o governo à frente de esquerda, que havia conquistado o maior bloco parlamentar. Preferiu conservar o Executivo sob controle dos partidos tradicionais, ignorando o resultado político produzido pela própria aliança eleitoral.
Agora, diante da crise, setores da burguesia começam a considerar acordos com a extrema direita. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu procurou negociar propostas orçamentárias defendidas pelo Reagrupamento Nacional, enquanto Marine Le Pen admitiu a possibilidade de um entendimento parlamentar para sustentar o governo.
A mudança é reveladora. O partido apresentado durante anos como uma ameaça intolerável à “democracia” pode tornar-se um aliado quando a burguesia precisa de apoio contra a esquerda.
Ao mesmo tempo, cresce a campanha contra Mélenchon. A França Insubmissa é acusada de estimular a violência estudantil, de ameaçar as instituições e de representar uma força política radical demais para participar do governo. A hostilidade contra o partido aumentou também por causa de suas posições contra o sionismo e em defesa do povo palestino.
A aproximação de setores burgueses com Le Pen ocorre justamente quando os estudantes e trabalhadores aumentam a pressão contra Macron. Para a classe dominante, a possibilidade de uma vitória eleitoral da LFI apoiada em uma grande mobilização popular coloca problemas que não são resolvidos pela simples alternância dos partidos no governo.
No Brasil, a esquerda se agarra à burguesia
A situação francesa oferece um contraste com o comportamento da esquerda brasileira. Enquanto a França Insubmissa, pressionada pelas massas, se desloca para a esquerda e participa do enfrentamento com o governo, o PT e seus satélites (PSOL, PCdoB, UP, PSTU e PCB) se aproximaram cada vez mais da burguesia e da direita tradicional para combater o bolsonarismo.
A política da frente ampla levou a esquerda a apoiar políticos responsáveis por ataques aos trabalhadores, grandes empresários e representantes das instituições repressivas do Estado. O combate à extrema direita transformou-se em justificativa para alianças com setores que, até poucos anos atrás, eram apresentados pelos próprios petistas como inimigos do povo.
O exemplo mais expressivo é o Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes foi transformado por setores da esquerda em um símbolo da democracia, apesar de sua atuação repressiva e dos escândalos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia de sua mulher.
A crise do STF mostra, entretanto, que a burguesia não tem compromisso permanente com os personagens que a esquerda decidiu apoiar. As disputas entre os ministros, as revelações sobre o caso Master e o enfraquecimento político de Moraes já provocaram modificações nas relações de força dentro do tribunal.
A candidatura de Flávio Bolsonaro também passou a ser tratada como uma alternativa viável por setores da classe dominante. A possibilidade de uma vitória do bolsonarismo leva a burguesia a reconsiderar seus acordos políticos, inclusive nas instituições que foram apresentadas como uma barreira contra a direita.
A esquerda brasileira corre, portanto, o risco de ficar órfã da própria burguesia. Depois de subordinar sua política à defesa das instituições e às alianças com os partidos da direita, poderá descobrir que esses mesmos aliados não têm qualquer dificuldade em estabelecer relações com um governo bolsonarista.
O problema não é apenas eleitoral. Ao concentrar seus esforços na frente ampla, os partidos da esquerda brasileira se afastaram da organização independente dos trabalhadores e deixaram em segundo plano a luta por salários, empregos, melhores condições de vida e direitos democráticos.
Na França, a trajetória da LFI vem sendo diferente. Ainda que seja um partido reformista, a organização de Mélenchon está sendo pressionada pela mobilização popular e procura acompanhá-la. Sua importância política cresce na medida em que se aproxima dos estudantes e trabalhadores que enfrentam Macron.
A esquerda brasileira, ao contrário, procura garantias de sobrevivência política junto aos representantes da classe dominante. Na França, é a própria movimentação das massas que altera as relações entre os partidos e aprofunda a crise do regime.
A mobilização francesa mostra que a força da esquerda não depende de conquistar a confiança da burguesia, mas da relação que estabelece com os trabalhadores em luta. Os estudantes não esperaram uma autorização parlamentar para ocupar as ruas, bloquear escolas e enfrentar a polícia. Sua iniciativa arrastou professores, sindicatos e organizações políticas, obrigando o governo a responder a reivindicações que havia ignorado durante anos.
Com milhares de presos, centenas de escolas paralisadas e manifestações que já exigem a saída do presidente, a luta contra Macron prepara uma nova etapa. Em 17 de outubro, estudantes e trabalhadores pretendem realizar outra jornada nacional de greves, ampliando o movimento que começou nas escolas dos subúrbios parisienses.



