O Comitê Militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reuniu representantes dos 32 países integrantes do bloco em Quieve nesta terça-feira (6). A delegação encontrou-se com o comando das Forças Armadas ucranianas para discutir necessidades militares, novas formas de combate e experiências acumuladas na guerra contra a Rússia. Foi a primeira visita do órgão à Ucrânia em oito anos.
A comitiva foi chefiada pelo almirante italiano Giuseppe Cavo Dragone, presidente do Comitê Militar, órgão que reúne os representantes dos chefes das Forças Armadas dos países da OTAN e constitui a principal autoridade militar permanente da organização. Depois da reunião com os ucranianos, Dragone declarou:
“Estamos aqui com força total, enviando uma mensagem clara: o vínculo entre a OTAN e a Ucrânia é forte e inquebrável.”
A declaração foi acompanhada de atividades bastante concretas. Segundo a própria OTAN, os militares discutiram as prioridades das Forças Armadas ucranianas e as “lições aprendidas” com as novas formas de guerra. A delegação visitou instalações de defesa antiaérea, unidades dedicadas à utilização de drones e sistemas terrestres não tripulados, com o objetivo declarado de aproveitar a experiência ucraniana na preparação militar do próprio bloco.
O encontro ocorreu justamente quando a entrada da Ucrânia na organização continua bloqueada. Na véspera, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou que a adesão ucraniana “não está sobre a mesa” neste momento. O governo norte-americano já havia reiterado que não pretende colocar a incorporação do país entre as condições para um eventual acordo de encerramento da guerra.
A situação criada pelas potências ocidentais é peculiar. A Ucrânia não recebe as garantias reservadas aos membros da OTAN, mas suas Forças Armadas trabalham cada vez mais estreitamente com a organização. Os generais do bloco vão até Quieve, estudam o funcionamento do Exército ucraniano, avaliam as técnicas desenvolvidas durante quatro anos de guerra e discutem diretamente suas necessidades militares.
A visita também ocorre poucas semanas depois de o Comitê Militar reunir-se em Copenhague. Naquele encontro, realizado em setembro, a direção militar da OTAN discutiu o fortalecimento de suas capacidades de combate, novas tecnologias, produção de armamentos e a continuidade do apoio à Ucrânia. O próprio Dragone afirmou que a organização precisava transformar os compromissos políticos e financeiros assumidos por seus governos em capacidade militar efetiva.
Esses acontecimentos reforçam a caracterização de que a guerra não pode ser compreendida apenas como um confronto entre dois países. A Ucrânia funciona como frente de uma disputa muito maior entre a Rússia e as principais potências imperialistas agrupadas na OTAN.
O problema não começou em fevereiro de 2022. Na cúpula de Bucareste de 2008, os governos da organização declararam que Ucrânia e Geórgia acabariam entrando na aliança. Depois da derrubada do governo de Víctor Ianucóvitch, em 2014, a colaboração militar entre Quieve e os países ocidentais foi ampliada. Em 2019, a entrada na OTAN já figurava na Constituição ucraniana como objetivo estratégico do Estado.
A Rússia, por sua vez, colocou a neutralidade da Ucrânia entre suas principais exigências e afirma há anos que a expansão da OTAN em direção às fronteiras russas representa uma ameaça à sua segurança. Os governos do bloco rejeitam essa posição e sustentam que a escolha de alianças militares cabe a cada país.
A disputa em torno da OTAN, portanto, antecede a entrada das tropas russas na Ucrânia. A participação das potências ocidentais também não se resume ao fornecimento de dinheiro. Armamentos, treinamento, sistemas de defesa antiaérea, munição, tecnologia militar e diversos mecanismos de coordenação foram colocados à disposição do governo ucraniano ao longo da guerra.
A própria estrutura do Comitê Militar mostra a importância da visita. Cada membro envia um representante que atua em nome do respectivo chefe das Forças Armadas. O presidente do órgão é o principal conselheiro militar do secretário-geral e transmite às instâncias políticas da OTAN as avaliações dos comandos militares nacionais. Não se tratou, portanto, de uma visita protocolar de funcionários secundários.
Em maio, o Comitê já havia discutido a guerra diretamente com o comando ucraniano durante uma reunião em Bruxelas. A diferença agora é que os representantes viajaram em conjunto para a Ucrânia, encontraram os responsáveis pelas operações no terreno e examinaram instalações militares utilizadas durante o conflito.
Essa aproximação ocorre ao mesmo tempo em que os principais governos da organização evitam conceder a Quieve a condição de membro. A razão possui consequências militares evidentes. O artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte estabelece o princípio da defesa coletiva dos países integrantes. Incorporar um Estado que já está em guerra com a Rússia criaria uma situação muito diferente daquela produzida pelo apoio militar realizado até agora.
É precisamente nessa diferença que a atual política pode operar: integração militar crescente sem a incorporação jurídica que colocaria diretamente a aliança diante das obrigações previstas para seus membros.
A visita desta semana torna difícil apresentar a OTAN como simples observadora da guerra. Seus representantes militares foram a Quieve para discutir prioridades das forças ucranianas e retirar do próprio conflito ensinamentos destinados ao aperfeiçoamento dos exércitos do bloco. Um mês antes, reunidos em Copenhague, os chefes militares já haviam colocado o apoio à Ucrânia entre as principais tarefas da organização.
A Ucrânia continua, assim, numa posição que interessa às potências da OTAN: suficientemente integrada para combater com armamentos, dinheiro e apoio militar ocidental, mas ainda do lado de fora quando se trata das garantias previstas pelo tratado. Enquanto Washington diz que a adesão não está em discussão, os representantes militares de todos os integrantes do bloco já discutem a guerra dentro da própria capital ucraniana.



