O PSTU conseguiu produzir um documento pitoresco. Nesta quarta-feira (7), sua Direção Nacional publicou no Opinião Socialista o artigo Contra Bolsonaro: Voto crítico no 13, e nenhum apoio ao governo Lula. A orientação é votar em Lula para impedir a vitória de Flávio Bolsonaro. Poucos parágrafos depois, o próprio texto denuncia a “permanente política de votar mal menor a cada quatro anos”, afirmando que ela “leva sempre a uma derrota estratégica”.
O partido condena o mal menor e escolhe o mal menor. Defende independência de classe e chama voto numa candidatura que ele próprio classifica como burguesa. Afirma que confiar em qualquer setor da burguesia prepara a derrota dos trabalhadores e, na hora da decisão concreta, orienta os trabalhadores a ajudarem eleitoralmente um desses setores. Para tentar fazer desaparecer a contradição desaparecer, acrescenta um adjetivo: o voto é “crítico”.
O documento afirma que Lula governa com a burguesia, manteve privatizações, aplicou o arcabouço fiscal, não revogou a reforma trabalhista, governa com a direita e ajudou a alimentar o próprio fortalecimento do bolsonarismo. Logo depois, diz que é preciso votar em Lula contra Bolsonaro. Em seguida, retorna à tese de que os trabalhadores precisam manter “independência política dos diferentes projetos capitalistas”.
O radicalismo do PSTU parece aquele cachorro que late furiosamente atrás do portão. Enquanto existe uma separação confortável entre a retórica e uma decisão política concreta, parece disposto a enfrentar o mundo inteiro. Quando o portão se abre e é preciso sustentar até o fim a independência proclamada, o latido acaba. Toda a independência de classe desemboca, mais uma vez, num “voto crítico” no candidato apresentado como mal menor. E não é a primeira vez.
Em outubro de 2022, o PSTU publicou Para derrotar Bolsonaro nas eleições, PSTU chama voto crítico em Lula. O argumento era quase idêntico ao atual. Afirmava que Lula-Alckmin representava um projeto capitalista, de conciliação com empresários, banqueiros e o “agronegócio”, mas que Bolsonaro ameaçava as liberdades democráticas e, portanto, seria necessário votar no 13 no segundo turno.
O partido chegou a fazer campanha pelo voto. Em seu balanço daquele segundo turno, escreveu que havia ido “com tudo fazer a campanha” para derrotar Bolsonaro. Quatro anos depois, o PSTU apresenta seu próprio balanço: Lula venceu, mas o bolsonarismo não foi derrotado; pelo contrário, segundo o documento atual, encontra-se “muito mais forte”. O governo do PT teria inclusive contribuído para esse fortalecimento.
A experiência, portanto, teria confirmado, segundo a própria direção do PSTU, que a política adotada não resolveu o problema. Mas a solução encontrada em 2026 é repetir a política adotada em 2022. Depois, naturalmente, condena-se a política de repetir o voto no mal menor a cada quatro anos, etc. Essa capacidade de sustentar duas políticas incompatíveis simultaneamente é um traço antigo do PSTU.
Em 2016, quando se desenvolvia o golpe que derrubaria Dilma Rousseff e colocaria Michel Temer na Presidência, José Maria de Almeida publicou um artigo na Folha de S.Paulo afirmando categoricamente: “Não estamos diante de uma ameaça de golpe no país, como alardeia o PT”. O PSTU defendia “Fora todos eles” e incluía Dilma entre aqueles que deveriam ser derrubados.
O PSTU insistiu que não apoiava Temer, Cunha ou o PSDB. Sua palavra de ordem, pelo menos no papel, era contra todos. Politicamente, porém, existia uma ofensiva concreta organizada para derrubar Dilma. O partido negou a existência do golpe enquanto pedia também a saída da presidenta.
Foi um apoio político ao golpe, levantou “Fora Dilma” justamente quando essa era a exigência central da direita que conduzia o impeachment. Depois que Dilma caiu, o PSTU continuou, meia boca, dizendo “Fora Temer”. Mas a situação já havia sido decidida. A presidente fora e Temer instalado no Planalto.
Em julho de 2013, as Forças Armadas egípcias depuseram Mohamed Morsi, presidente eleito no ano anterior. No dia seguinte, o portal do PSTU publicou: “Morsi caiu! Grande vitória da mobilização do povo egípcio!”. O artigo reconhecia explicitamente que a deposição final ocorrera por uma “intervenção direta ou golpe político do Exército”, mas sustentava que o conteúdo principal do acontecimento era uma “imensa vitória das massas”. Acredite quem quiser.
O general Abdel Fattah al-Sisi consolidaria depois uma ditadura militar brutal.
Na Ucrânia, algo semelhante ocorreu com o Euromaidan. A corrente internacional do PSTU, a LIT-QI, caracterizou a queda de Viktor Ianucóvitch como “uma enorme vitória da mobilização revolucionária do povo ucraniano” e uma “dupla vitória democrática”. No mesmo documento, reconheceu que a direção do movimento estava nas mãos de setores burgueses pró-imperialistas e correntes fascistas, que o governo surgido era “ainda mais pró-imperialista”, que assinara acordos com União Europeia e FMI e que gangues nazistas haviam sido incorporadas à Guarda Nacional.
Em Cuba, o PSTU e a LIT chegaram à conclusão de que houve restauração capitalista e passaram a caracterizar o governo cubano como uma “ditadura capitalista”. Em 2021, apoiaram os protestos ocorridos na ilha.
O mesmo aparece em relação ao chavismo e a outros governos de países oprimidos: em nome de uma independência absoluta entre campos, o PSTU costuma formular o conhecido “nem um, nem outro”. No papel, é muito ‘revolucionário’. Na luta concreta, porém, sempre está ao lado do imperialismo.




