Fernando Sarti Ferreira e Lincoln Secco publicaram nesta terça-feira (7), em A Terra é Redonda, o artigo A normalização do fascismo. O problema começa no uso que fazem da palavra. De tanto ampliar o conceito, os autores transformam “fascismo” num rótulo geral para quase toda manifestação política com a qual discordam.
No texto, fascismo aparece associado ao questionamento da eleição de 2014, ao antipetismo, ao bolsonarismo, ao ultraliberalismo, ao “agrarismo”, à submissão aos Estados Unidos, ao “colaboracionismo”, a ressentimentos sociais e ao comportamento de milhões de eleitores. Em certo momento, o definem como “uma ação política e uma rede de relações”, uma “técnica de mobilização, pura tática”, extremamente flexível.
A definição é tão larga que perde justamente aquilo que deveria oferecer, a distinção de um fenômeno político específico de outras formas de reação.
Fascismo não é sinônimo de qualquer direita radical, regime autoritário ou política repressiva. Trótski insistia nessa diferença. Ao analisar Itália e Alemanha, caracterizou o fascismo como movimento de massas, apoiado sobretudo na pequena burguesia arruinada, mobilizado em benefício dos grandes capitalistas e voltado contra as organizações independentes da classe operária.
Se qualquer liberal reacionário, conservador, eleitor antipetista ou apoiador de Bolsonaro pode ser chamado de fascista, como identificar um movimento fascista propriamente dito?
Ferreira e Secco começam sua genealogia em 2014. Aécio Neves e o PSDB questionaram o resultado da eleição; daí teria se desenvolvido um processo que passaria pelo golpe de 2016, pelo bolsonarismo, pelo 8 de Janeiro e chegaria à situação atual.
Mas a própria esquerda tratou de embaralhar essa história. Marina Silva declarou apoio explícito a Aécio no segundo turno de 2014: “Votarei em Aécio e o apoiarei”. Anos depois, tornou-se ministra de Lula e passou a integrar o campo político que os autores identificam com a defesa da “democracia”.
Então o que aconteceu com a genealogia do fascismo? Se apoiar Aécio fazia parte da abertura da porta para o fascismo, por que incorporar politicamente quem estava daquele lado recebe tratamento tão diferente? O fascismo se dissolve quando entra numa frente ampla?
A própria prática da frente ampla desmonta a genealogia montada pelos autores. Em julho, Fernando Haddad chegou a dizer que queria que o PSDB “voltasse a existir” e lamentou seu desaparecimento, afirmando que tucanos e petistas tinham “conceitos e valores comuns” e que a disputa entre ambos ocorria em outro nível. Ora, se o PSDB de Aécio é apresentado como ponto de partida da “normalização do fascismo”, o que significa essa saudade tucana de Haddad?
Quanto ao STF, os autores recordam a prisão de Lula e usam uma alegoria sobre alguém que abre as jaulas de um zoológico e depois descobre que não consegue recolocar os animais dentro delas. Mas quem participou institucionalmente da ofensiva que levou Lula à cadeia?
Foi o próprio STF que, em 2016, passou a admitir prisão após condenação em segunda instância. Em abril de 2018, o Tribunal negou o habeas corpus de Lula e abriu caminho para sua prisão.
Depois, quando Alexandre de Moraes e o STF passaram a perseguir dirigentes e apoiadores do bolsonarismo, amplos setores da esquerda promoveram uma operação política extraordinária. A Corte que participou da ofensiva contra Lula transformou-se em “bastião da democracia”. Quase um milagre.
A parte mais grave aparece quando os autores tratam do 8 de Janeiro. Chamam o episódio de “intentona golpista” e escrevem que, caso o fascismo não tivesse sido normalizado, o Partido Liberal deveria ter sido proscrito, sua direção encarcerada e seu patrimônio confiscado.
O que ocorreu em Brasília foi uma manifestação que terminou em invasão e vandalismo nos prédios dos Três Poderes. Mesmo que participantes desejassem uma ruptura institucional, desejar não é possuir os meios para realizar. Não havia sob comando dos manifestantes forças militares, aparato armado capaz de tomar o Estado ou qualquer possibilidade concreta de substituir o governo.
As pessoas deveriam responder pelos atos que efetivamente praticaram, com pleno direito de defesa. O salto entre depredar prédios públicos e tentar tomar o Estado é justamente o tipo de inflação conceitual que impregnou o artigo.
A proposta dos autores de proibir um partido, prender sua direção e confiscar seu patrimônio é absurda. Lembra o AI-2 de 1965 que extinguiu os partidos existentes e cancelou seus registros.
A banalização da palavra “fascismo” produz aqui uma consequência prática. Uma vez carimbado o inimigo como fascista, quase qualquer repressão contra ele passa a parecer aceitável. O rótulo substitui a análise e depois substitui também a defesa das liberdades democráticas.
Mais adiante, os próprios autores admitem que a frente ampla foi um erro. Milhões de trabalhadores julgam governos pelo salário, emprego, aluguel, transporte, dívida e pelo que efetivamente perderam ou ganharam. Se os próprios autores reconhecem que a esquerda ofereceu pouco a uma parcela decisiva da população, por que recorrer tantas vezes ao “irracionalismo”, ao ressentimento e ao fascismo para explicar o voto dessas pessoas?
Enquanto os adversários são tratados como fascistas, “nós”, dizem os autores, erramos.
Carimbar o resultado de “normalização do fascismo” é útil porque cobre com uma palavra muito forte uma explicação muito fraca. E um carimbo tem uma enorme vantagem, pois dispensa a necessidade de se explicar por que tantos trabalhadores rejeitaram a política que a esquerda os quer fazer engolir.





