Uma ala da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva quer Geraldo Alckmin no Ministério da Fazenda caso o petista vença o segundo turno. A proposta, revelada pela Reuters e confirmada pelo Estadão/Broadcast, apareceu depois de Lula terminar o primeiro turno com 45,16% dos votos válidos, atrás dos 47,03% de Flávio Bolsonaro.
Segundo o Estadão, integrantes do governo defendem Alckmin como instrumento para atrair o chamado “centro”. Não é difícil entender o que isso significa. O antigo dirigente do PSDB, partido das grandes privatizações dos anos 1990, seria colocado no principal ministério econômico para oferecer aos bancos e aos grandes empresários mais uma garantia de que seus interesses estarão protegidos.
Alckmin tem currículo para o serviço. Como vice-governador de Mário Covas, presidiu o Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização de São Paulo. Em outras palavras, participou diretamente do comando da política de privatizações aplicada pelos tucanos no Estado.
Foi durante esse processo que a Eletropaulo foi privatizada, em 1998. Não se tratava de uma medida isolada. O PSDB transformou a venda de empresas estatais em uma de suas principais políticas, tanto no governo federal de Fernando Henrique Cardoso quanto em São Paulo.
Quando assumiu o governo paulista, Alckmin aprofundou essa orientação. Em 2004, sancionou a lei que criou o Programa de Parcerias Público-Privadas do Estado de São Paulo. As PPPs passaram a permitir que empresários explorassem serviços, obras e atividades ligadas ao Estado por contratos de longa duração.
A mudança de nome não altera o conteúdo. Em vez de vender diretamente determinada empresa, o governo entrega sua exploração aos capitalistas por décadas. O Estado financia, garante contratos e disponibiliza patrimônio público; os empresários recebem a parte lucrativa do negócio.
O governo Alckmin também ampliou as concessões no transporte. Em 2016, autorizou novas concorrências internacionais para a exploração privada de grandes conjuntos de rodovias estaduais. No mesmo período, avançou a concessão de parques estaduais.
O projeto aprovado em São Paulo permitia entregar 25 parques à iniciativa privada por períodos que poderiam chegar a 30 anos. Áreas pertencentes ao patrimônio público seriam transformadas em fonte de renda para empresas particulares.
Esse é o homem que setores do PT querem colocar à frente do Ministério da Fazenda.
A proposta não apareceu porque Alckmin tenha apresentado algum programa para recuperar salários, ampliar os serviços públicos ou recuperar empresas privatizadas. Seu nome surgiu por motivo muito mais simples: o PT considera que ele pode agradar à direita. À direita que realmente interessa, não os pé-rapados que votam na direita. Os banqueiros, os empresários, os latifundiários: essa é a direita.
A operação já foi tentada antes. Em 2022, Alckmin foi colocado na chapa de Lula como garantia oferecida aos setores da burguesia que temiam uma eventual volta do petista ao governo. Um dos principais líderes tucanos, adversário de Lula durante décadas, foi transformado de uma hora para outra em parceiro indispensável da “democracia”.
A justificativa era derrotar Jair Bolsonaro.
Passados quatro anos, a concessão temporária virou presença permanente. Alckmin ocupou a vice-presidência e comandou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços durante boa parte do mandato. Foi ele que assegurou acordos com Trump para entregar parte da soberania nacional em troca da redução de tarifas contra empresários brasileiros que exportam para os EUA. Ficou comprovado publicamente que Lula desistiu de criar uma empresa estatal de terras raras por exigência do imperialismo.
Agora, antes mesmo de uma eventual vitória de Lula, já aparece uma proposta para promover Alckmin ao comando da política econômica.
O Estadão informa ainda que Lula encarregou o vice tucano de trabalhar politicamente no interior paulista durante a campanha. O resultado não foi animador. Lula havia recebido 10,5 milhões de votos em São Paulo no primeiro turno de 2022. Neste ano, obteve 9,5 milhões, cerca de um milhão a menos.
Alckmin não conseguiu entregar os votos prometidos. A resposta de uma ala petista é dar mais poder a Alckmin, o fracassado.
Depois do primeiro turno, o picolé de chuchu declarou que pretendia procurar inclusive eleitores que haviam votado no adversário. “Segundo turno é uma nova eleição. E vamos conversar com todas as pessoas, com aqueles que votaram em todos os outros candidatos, até no adversário, para reverter esses votos”, afirmou.
A política do PT transforma a derrota eleitoral da frente ampla em motivo para aprofundar a própria frente ampla. Se a presença de Alckmin não conquistou a direita, seria preciso oferecer ainda mais espaço à direita. Se o tucano na vice-presidência não bastou, coloca-se o tucano no controle da economia.
É uma política de concessões sem limite.
Durante décadas, o PT apresentou o PSDB como partido das privatizações, dos banqueiros e dos grandes empresários. A crítica tinha fundamento. Os governos tucanos promoveram uma enorme liquidação do patrimônio estatal e ataques contra os trabalhadores.
Alckmin não assistiu a essa política pela televisão. Foi um de seus executores em São Paulo.
Agora, setores do próprio petismo querem entregar a ele o ministério responsável pelas finanças do governo, tributação, dívida pública, política fiscal e outras áreas decisivas da economia nacional.
Paulo Guedes tornou-se símbolo da política econômica de Jair Bolsonaro justamente por defender abertamente privatizações, cortes e vantagens para o grande capital. Era um homem da direita colocado por um governo de direita para realizar um programa de direita.
Alckmin oferece uma combinação politicamente mais perigosa. O programa pode ser aplicado por um personagem saído do velho PSDB dentro de um governo eleito, em sua maioria, por trabalhadores e setores populares que votaram para derrotar a direita.
Para convencer o trabalhador a votar em Lula, diz-se que é preciso impedir Flávio Bolsonaro de governar com os representantes dos grandes capitalistas. Ao mesmo tempo, dentro da campanha de Lula discute-se entregar a Fazenda justamente a um dos mais conhecidos representantes políticos desses interesses.
A contradição não poderia ser maior.
Primeiro, pediu-se aos trabalhadores que aceitassem Alckmin como vice para derrotar Bolsonaro. Depois, o tucano tornou-se ministro. Agora querem colocá-lo na Fazenda para derrotar Flávio Bolsonaro.
Se a política continuar nessa direção, em pouco tempo a única diferença entre derrotar a direita e entregar o governo à direita será a legenda do presidente.
Alckmin já mostrou em São Paulo o que pretende quando recebe poder sobre o patrimônio público: privatizações, concessões, PPPs e exploração empresarial de serviços e bens pertencentes à população. Não existe surpresa possível.
Paulo Guedes, pelo menos, nunca fingiu ser outra coisa, nem conseguiu realizar todas as façanhas do tucanato, recordista em privatizações. Basta lembrar que, em pleno governo Bolsonaro, o PSDB se gabou de ter privatizado mais. O PSDB de Alckmin, o Geraldo Mãos de Tesoura.




