Virada à direita

Depois de vender a alma ao diabo, PCdoB aumenta bancada na Câmara

Legenda elegeu 11 deputados, mas sua votação cresceu apenas 13% desde 2022 e continua 53% abaixo de 2010

O PCdoB saiu das eleições de 2026 comemorando um crescimento de 83% de sua bancada federal: 11 deputados eleitos contra seis no resultado original de 2022. A votação, porém, aumentou muito menos. A legenda passou de 1.154.712 para 1.306.368 votos para deputado federal, alta de 13,1%. A própria direção atribuiu o desempenho à “tática de concentração em candidaturas mais fortes”.

A comparação com 2022 exige uma precisão. Uma retotalização feita pela Justiça Eleitoral no Amapá em 2025 passou a considerar Marcivânia Flexa eleita pela Federação Brasil da Esperança, elevando posteriormente para sete o número de deputados ligados ao PCdoB naquele pleito. A direção do PCdoB, entretanto, compara os 11 atuais com os seis proclamados originalmente e daí retira os 83%.

Os números mostram uma decadência iniciada muito antes de Bolsonaro. Em 2010, o PCdoB recebeu 2.791.694 votos para deputado federal e elegeu 15 parlamentares. Em 2014, caiu para 1.913.015 votos e 10 cadeiras. Em 2018, foram 1.329.575 votos e nove deputados. Quatro anos depois, chegou a 1.154.712 votos e seis eleitos no resultado original. Agora obteve 1.306.368 votos e 11 mandatos.

Entre 2010 e 2022, perdeu 58,6% de sua votação para a Câmara. Mesmo depois do crescimento deste ano, continua 53,2% abaixo do resultado de 2010. O número de deputados subiu muito mais que o número de eleitores conquistados.

A luta popular contra o golpe de 2016 deu alguma sobrevida à legenda. A ofensiva contra Dilma Rousseff e posteriormente contra Lula empurrou uma parcela importante da população para a esquerda. Manuela d’Ávila ganhou enorme projeção como vice de Fernando Haddad em 2018 e Flávio Dino foi reeleito governador do Maranhão. Nem isso interrompeu a queda eleitoral. No balanço das eleições de 2018, a própria direção do PCdoB chamou de “revés estratégico” a incapacidade de superar a cláusula de desempenho e reconheceu que sua votação vinha caindo “progressivamente desde 2014”.

A situação levou à incorporação do PPL, uma organização originada do antigo MR-8 e apoiadora dos mais reacionários governos desde então, como os do MDB e PSDB em vários estados. Em maio de 2019, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou a operação e determinou que os votos das duas siglas em 2018 fossem somados para efeito de Fundo Partidário e tempo de rádio e televisão. Poucos meses depois de participar de uma campanha presidencial que deu ao PCdoB grande exposição nacional, o partido precisava incorporar outra legenda para manter-se pendurado ao aparelho do Estado burguês.

Foi durante esse processo que sua guinada para a direita ficou mais nítida.

No final de 2019 surgiu o Movimento 65. Os materiais passaram a usar verde e amarelo, enquanto a foice e o martelo e até o nome Partido Comunista do Brasil desapareciam de várias peças de propaganda. A operação procurava abrir o partido para candidatos e setores que não aceitariam ingressar abertamente numa organização identificada como comunista.

Flávio Dino foi uma das figuras mais importantes dessa transformação. Hoje ditador no STF, censor de jornalistas e membro da quadrilha dos sócios de Vorcaro, Dino defendia substituir o vermelho pelo verde e amarelo e trocar a foice e o martelo por um símbolo supostamente moderno, chegando a mencionar “um chip”. A proposta não se tornou uma mudança formal do símbolo partidário, mas indicava claramente o caminho pretendido: esconder aquilo que identificava historicamente a legenda com o comunismo.

Era uma tentativa de repetir o movimento que faliu de uma vez por todas o antigo PCB. Em 1992, a maioria reunida no X Congresso do Partido Comunista Brasileiro abandonou a antiga identidade, a foice e o martelo e o próprio nome do partido para criar o PPS. O PCdoB não repetiu juridicamente a mesma operação, mas o Movimento 65 apontava na mesma direção política: preservar a máquina eleitoral retirando dela tudo que pudesse dificultar acordos com a direita.

A abertura produziu situações grotescas. Em 2020, o PCdoB lançou em Marituba, no Pará, Enaldo Rodrigues, conhecido como “Bolsonaldo” pela semelhança física com Jair Bolsonaro. O candidato declarava não ser comunista, elogiava Bolsonaro e explicou ao UOL por que escolhera o PCdoB: “esse foi o meio mais fácil de chegar à eleição”.

O caso era folclórico, mas a política não era. Desde a derrota da Guerrilha do Araguaia e da Chacina da Lapa, ainda na ditadura militar, o PCdoB passou a se integrar ao regime político, aos sindicatos pelegos da ditadura, sabotando a formação da CUT, até fazer os acordos mais espúrios para alcançar cargos no Estado. Como demonstra a comemoração da eleição deste ano, os dirigentes do PCdoB não estão preocupados com o número de eleitores, apenas com o número de cadeiras no parlamento.

Nas mesmas eleições municipais de 2020, o PCdoB apoiou, em Campo Grande, Marquinhos Trad, do PSD, numa coligação que reunia também DEM, Republicanos e Patriota. Em Salvador, Olívia Santana disputou a prefeitura tendo um vice do PP. Rodrigo Pereira, candidato do PCO, denunciou nos debates a aliança do PCdoB com um partido ligado ao latifúndio e integrante do bloco que apoiara o golpe contra Dilma Rousseff.

Flávio Dino já havia percorrido esse caminho no Maranhão. Sua eleição para governador em 2014 foi apresentada como derrota da oligarquia Sarney, mas a frente que o elegeu incluía abertamente o PSDB. Carlos Brandão, então presidente estadual dos tucanos, foi seu candidato a vice. Aécio Neves, presidente nacional do PSDB e candidato à Presidência, viajou ao Maranhão para anunciar oficialmente o apoio do partido a Dino.

Dino tornou-se depois a principal figura nacional do PCdoB. Passou a defender alianças cada vez mais amplas com forças tradicionais da direita e teve papel destacado na orientação que desembocou no Movimento 65. O princípio era simples: quanto mais o PCdoB apagasse sua antiga identidade e se agarrasse ao regime político, maior seria sua margem para ocupar governos, secretarias, mandatos e postos administrativos.

A eleição de 2026 mostra até onde essa política avançou.

Desde 2022, o PCdoB integra com PT e PV a Federação Brasil da Esperança. Para a eleição proporcional, os três partidos funcionam como uma única organização. Os votos são somados para a distribuição das cadeiras. Em 2026, a federação elegeu 88 deputados federais. O PCdoB deixou, portanto, de depender exclusivamente de sua própria votação para superar o quociente em cada estado.

A direção acrescentou outro método: concentrar recursos em poucos nomes competitivos. Os 11 deputados federais eleitos receberam juntos 944.625 votos, 72,3% de toda a votação do PCdoB para a Câmara. Não houve uma expansão uniforme da legenda pelo País. Houve a concentração de dinheiro, estrutura e propaganda em candidatos capazes de disputar mandato. A carreira de uma dúzia de parlamentares vale mais que a construção do partido, embora esse partido se venda (com um preço cada vez mais baixo) como “comunista”.

A relação dos eleitos ajuda a compreender o resultado. Daniel Almeida e Alice Portugal, na Bahia, são antigos parlamentares. Olívia Santana já exercia mandato estadual. Perpétua Almeida, no Acre, retornou à Câmara depois de vários mandatos e passagens pelo Executivo. Marcivânia, no Amapá, também já havia sido deputada federal. Márcio Jerry, no Maranhão, foi secretário de Flávio Dino e um dos principais operadores políticos de seu governo.

No Rio Grande do Sul, Daiana Santos foi reeleita. Em Santa Catarina, Giovana Mondardo chegou à Câmara depois de dois mandatos como vereadora em Criciúma. Jandira Feghali conquistou seu nono mandato pelo Rio de Janeiro.

Elias Jabbour estreou como deputado federal, mas já vinha de uma trajetória dentro do aparelho estatal. Foi assessor de Dilma Rousseff no Banco dos Brics e presidente do Instituto Pereira Passos, órgão da Prefeitura do Rio durante a administração Eduardo Paes.

Gervásio Maia é um caso ainda mais transparente. Quando entrou no PCdoB, em março de 2026, já estava no segundo mandato de deputado federal pelo PSB. Sua filiação foi festejada num ato com cerca de 20 prefeitos da base aliada. Sete meses depois, reelegeu-se com 96.918 votos. O PCdoB não formou politicamente esse mandato: incorporou um parlamentar pronto, com votação, máquina e relações construídas em outro partido.

Isto é, os deputados federais eleitos pelo PCdoB já eram burocratas do Estado capitalista, servidores dos patrões (inclusive pertencentes a partidos dos patrões).

A legenda encontrou também um novo filão entre influenciadores de esquerda.

Humberto Matos, eleito deputado estadual no Rio Grande do Sul com 40.122 votos, é um exemplo particularmente revelador. Ao apresentar sua candidatura, o próprio PCdoB deu destaque aos 47 milhões de visualizações no YouTube, mais de 285 mil inscritos e mais de 260 mil seguidores no Instagram.

Não se apresentava como dirigente de uma grande greve, de um sindicato de massas ou de uma organização revolucionária da classe operária. Sua principal credencial eleitoral era ter público na Internet.

O “webcomunista”, como alguns críticos da esquerda o chamam, não é um defensor do calote da dívida pública com o parasitismo financeiro e é contra o princípio democrático básico da presunção de inocência. Na verdade, Matos pertence a uma camada de influenciadores e acadêmicos que utiliza uma linguagem socialista sem organizar uma política revolucionária independente do Estado e dos partidos integrados ao regime.

É assim que se explica a aparente contradição de 2026. O PCdoB acrescentou apenas 151.656 votos à votação obtida em 2022, mas quase dobrou o número de deputados proclamados. Não reconquistou os mais de 1,4 milhão de votos perdidos desde 2010. Encontrou uma maneira mais eficiente de transformar uma votação muito menor em cargos.

A Federação Brasil da Esperança fornece o quociente eleitoral. A direção concentra recursos nos nomes mais competitivos. Políticos antigos preservam suas bases. Parlamentares vindos de outras máquinas são incorporados. Influenciadores chegam com público previamente acumulado. As alianças com a direita, que antes seriam apresentadas como exceções, transformaram-se em método permanente.

O crescimento da bancada não representa o fortalecimento de um partido comunista. Representa justamente o resultado de sua transformação. Quanto mais a legenda se afastou da perspectiva de organizar uma política de esquerda independente e se acoplou às instituições, às federações e às alianças com os partidos da direita, melhores ficaram as condições de seus caciques para disputar um lugar dentro do regime.

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