O mapa da eleição presidencial no Rio de Janeiro mostra uma inversão política importante. Lula, um operário que chegou à Presidência apoiado historicamente pelos trabalhadores e os setores pobres do País, teve seu melhor resultado justamente nos bairros de renda mais alta. Flávio Bolsonaro avançou no sentido contrário: quanto menor a renda média do bairro, maior sua votação.
O levantamento da inPulso.ai, divulgado pela CNN Brasil no dia 6, cruzou os votos das eleições de 2026 com os dados de renda do Censo de 2022. No quinto dos bairros de menor renda, Flávio recebeu 51% dos votos válidos e Lula, 41,2%. No quinto de maior renda, Lula chegou a 49,7%, enquanto Flávio caiu para 41,3%.
A pesquisa não permite saber a renda individual de cada eleitor. Há bairros pobres onde Lula foi muito bem — a Rocinha, por exemplo, deu ao petista 63,5% dos votos. O dado importante está na tendência geral: os dois candidatos caminham em direções opostas quando os bairros são ordenados pela renda.
É muito mais útil procurar a explicação desse resultado na vida dos trabalhadores do que repetir a cantilena de que a eleição seria simplesmente uma luta entre “democracia” e “fascismo”. Quem ganha pouco está preocupado com comida, aluguel, emprego, salário, saúde, transporte, dívida e moradia. Não é possível substituir essas necessidades por uma campanha permanente em defesa das instituições.
O problema já aparecia antes do primeiro turno. O PT usa há muito a fracassada fórmula “civilização ou barbárie” justamente porque ela transforma qualquer cobrança feita ao governo numa ajuda à direita. O mecanismo acaba sendo circular: a direita cresce, a direção petista responde ampliando sua aliança com a direita, faz novas concessões para manter a aliança e, quando uma parcela dos trabalhadores se decepciona, usa novamente o crescimento da direita para exigir mais concessões e mais disciplina eleitoral.
Quatro anos de governo deram a Lula tempo suficiente para apresentar alguma medida que modificasse a situação material da população. Não houve aumento geral dos salários. Não houve redução da jornada. Não houve uma ofensiva para libertar os trabalhadores do endividamento com os bancos. Foi um governo dos patrões, dos banqueiros e dos latifundiários, traindo a base lulista.
O Bolsa Família é talvez o exemplo mais claro da política seguida pelo governo. O piso ficou em R$ 600 desde 2023. O reajuste somente foi anunciado em 17 de setembro de 2026, quando faltavam 17 dias para o primeiro turno. O governo elevou o mínimo para R$ 691 a partir de outubro, correção de 15,04%.
O aumento era necessário. O problema é que veio depois de mais de três anos de congelamento e deixou o benefício num patamar miserável. Para uma família sem outra fonte de renda, R$ 691 não resolvem aluguel, alimentação, gás, transporte e todas as demais despesas do mês. Além disso, o anúncio, feito na reta final da eleição, depois de o governo atravessar quase todo o mandato sem reajustar o piso, foi uma clara tentativa de compra de votos e mais nada.
Ao invés de aplicar e de indicar que um novo mandato seguiria uma política popular, a direção do PT escolheu outro caminho. Quanto mais a direita crescia, mais buscava ampliar sua aliança com setores burgueses apresentados como defensores da democracia. Geraldo Alckmin, tucano privatizador e repressor, virou vice-presidente. A defesa do STF passou a ocupar um lugar cada vez maior na propaganda da esquerda da frente ampla. A política econômica permaneceu limitada pelos compromissos fiscais, enquanto as reivindicações dos trabalhadores eram rebaixadas em nome da necessidade de conservar uma coalizão cada vez mais à direita.
Essa política é uma das causas da perda de apoio de Lula. É patética a tentativa de explicar as dificuldades da campanha como simples problema de comunicação. O avanço de Flávio entre setores de menor renda está relacionado justamente à política de colaboração do PT com a direita e à identificação crescente da campanha petista com o STF.
O primeiro turno deu uma dimensão nacional ao problema. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos. Lula terminou com 53.876.617, ou 45,16%, e os dois passaram para o segundo turno. Comparado a 2022, Lula perdeu cerca de 3,38 milhões de votos depois de quatro anos novamente instalado no Palácio do Planalto, fruto da política frente-amplista, apresentada como a única capaz de conter o bolsonarismo.
O resultado carioca ajuda a mostrar por que a explicação baseada apenas no “perigo fascista” é insuficiente. A direita não precisa ter um programa favorável aos trabalhadores para aproveitar seu descontentamento. Basta que a esquerda institucional deixe de organizar politicamente esse descontentamento e apareça diante de uma parcela da população como representante das instituições que ela vê funcionando contra seus interesses.
Flávio Bolsonaro não passou a representar os interesses da classe operária porque recebeu mais votos nos bairros pobres. Sua votação mostra, porém, que o bolsonarismo conseguiu penetrar num terreno que deveria ser disputado pela esquerda com salários, empregos, moradia, saúde, terra e melhores condições de vida. Tratar esse eleitor como simples vítima da propaganda da direita é fugir da discussão sobre o que o governo fez durante quatro anos.
A política da frente ampla agrava justamente esse problema. Em nome de impedir a direita, o PT se desloca para a direita. Para conseguir apoio dos grandes empresários, apresenta responsabilidade fiscal. Para conservar sua aliança institucional, defende o STF. Para responder ao crescimento do bolsonarismo, procura mais partidos burgueses. Ao trabalhador, pede que deixe suas reivindicações para depois porque é preciso primeiro salvar a falaciosa “democracia”.
O mapa do Rio mostra onde esse caminho está levando. A esquerda procurou conquistar os setores de cima fazendo concessões absurdas aos capitalistas e apresentando-se como garantia da ordem. Enquanto fazia isso, entregou à direita a oportunidade de falar com uma parte cada vez maior dos que estão embaixo.



