O Supremo Tribunal Federal passou os últimos anos apresentado como o grande defensor da “democracia” contra o bolsonarismo. A quase totalidade da esquerda comprou essa história e tratou Alexandre de Moraes como herói. Censura, bloqueio de contas, prisões, inquéritos abertos pelo próprio tribunal e interferência direta na luta política foram aceitos porque o alvo era identificado como “fascista”. Sob essa justificativa, o STF acumulou poderes excepcionais e consolidou uma ditadura judicial no país.
Bastou mudar a situação política para aparecer a fragilidade de toda essa propaganda. Primeiro, o Brasil inteiro pôde ver a sujeira do STF quando Alexandre de Moraes foi pego na cama com Daniel Vorcaro. As investigações, revelações e o faroeste dentro da própria Corte acabaram por disseminar os casos de amor entre praticamente todos os ministros e o banqueiro do Master.
Isso impulsionou a própria campanha eleitoral bolsonarista. Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O PL, além disso, chegará a 2027 com 28 das 81 cadeiras do Senado. Há pelo menos 49 futuros senadores que já se declararam favoráveis ao impeachment de algum ministro do Supremo, enquanto são necessários 54 votos para afastá-lo.
É uma força muito diferente daquela enfrentada pelo STF nos últimos quatro anos. Flávio já anunciou que pretende aproveitar a nova composição do Congresso para alterar a Constituição e promover mudanças no Judiciário. A própria Folha de S.Paulo informou, depois da eleição, que ministros do Supremo trabalham com a possibilidade de uma “acomodação” com o bolsonarismo.
Onde foi parar a ameaça mortal à democracia?
Os canais para um acordo, na realidade, já estavam sendo abertos antes mesmo da votação. Segundo revelou Bela Megale, de O Globo, Flávio Bolsonaro teve uma conversa reservada com Gilmar Mendes cerca de um mês antes do primeiro turno. Rogério Marinho, coordenador da campanha bolsonarista, também procurou o ministro e transmitiu a informação de que um eventual governo Flávio não teria “espírito de revanchismo” contra o STF. Ao mesmo tempo, teria deixado claro que Alexandre de Moraes não estaria necessariamente protegido de investigações relativas a Daniel Vorcaro nem de um processo de impeachment.
A conversa é esclarecedora. Enquanto a esquerda era convocada a acreditar numa batalha histórica entre “democracia” e “fascismo”, dirigentes bolsonaristas e ministros do Supremo já procuravam estabelecer as condições de convivência entre os dois lados.
Outros movimentos seguem na mesma direção. A PGR não se opôs ao pedido para que Flávio voltasse a visitar Jair Bolsonaro. Moraes havia proibido os encontros durante 90 dias depois de acusar o senador de violar as restrições impostas ao pai. Passado o primeiro turno, a Procuradoria informou não ver obstáculo à visita.
Até a composição futura do próprio Supremo entrou nessa aproximação. Segundo o ICL, Marianna Fux, filha de Luiz Fux e desembargadora no Rio de Janeiro, circula entre os nomes cogitados no entorno de Flávio Bolsonaro para uma eventual indicação ao STF. Trata-se, por enquanto, de uma informação de bastidor, não de uma indicação anunciada.
A sucessão desses fatos desmente o papel atribuído ao Supremo pela esquerda. Os ministros não formavam uma resistência heroica ao fascismo. Utilizaram o discurso da “defesa da democracia” enquanto ele servia para ampliar o poder político do tribunal e justificar medidas que, em outras circunstâncias, seriam reconhecidas imediatamente como arbitrárias.
O teste veio quando o bolsonarismo conquistou votos, bancadas e instrumentos institucionais para pressionar diretamente a Corte. Em vez de uma cruzada final para salvar a democracia, aparecem conversas reservadas, emissários, propostas de convivência e expectativa de acomodação.
É aí que a farsa se revela. A esquerda ajudou a entregar poderes extraordinários ao STF acreditando que os ministros fariam, por meios judiciais, aquilo que ela não conseguiu fazer politicamente. Quando o equilíbrio de forças mudou, os supostos heróis da democracia trataram de negociar sua própria sobrevivência.
O bolsonarismo não deixou de representar, da noite para o dia, aquilo que esses ministros e seus defensores diziam que ele representava. O que mudou foi sua força. E, diante dela, a Suprema Corte começou a tremer.





