Eleições 2026

1º turno comprovou que institutos de pesquisa enganam o eleitor

Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Real Time Big Data e Meio/Ideia colocaram Lula na frente, mas quem venceu foi Flávio Bolsonaro

Os institutos de pesquisa mais promovidos pela burguesia chegaram à véspera da eleição presidencial apresentando Lula como primeiro colocado. Datafolha, Quaest, AtlasIntel, Real Time Big Data e Meio/Ideia, apesar das diferenças de metodologia e percentuais, tinham uma coisa em comum: todos davam vantagem numérica ao candidato do PT. No domingo (4), a apuração produziu a ordem inversa. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, enquanto Lula ficou com 53.876.617, ou 45,16%.

A diferença entre o quadro divulgado e a votação apareceu com clareza justamente nas pesquisas feitas mais perto do pleito. O Datafolha atribuía 45% dos votos válidos a Lula e 42% a Flávio. A Quaest indicava 46% a 45%. O AtlasIntel registrou 47% para Lula e 44,1% para Flávio. No Real Time Big Data, a distância era ainda maior: 46% a 41%. O Meio/Ideia trabalhava com votos totais e também colocava Lula numericamente à frente, por 39,4% a 38,4%. Nenhum dos cinco levantamentos colocou em primeiro lugar quem efetivamente terminou em primeiro.

Felipe Nunes, diretor da Quaest, reagiu afirmando que seu instituto não havia errado porque os dois resultados ficaram dentro da margem de erro de dois pontos. Segundo ele, os 46% de Lula e os 45% de Flávio teriam sido os números mais próximos do resultado oficial. É um esforço louvável para maquiar o vexame, mas não altera aquilo que foi publicado e repercutido na véspera: Lula aparecia numericamente na frente; Flávio terminou a votação quase dois pontos à frente do petista.

Reduzir a discussão à margem de erro esconde o papel político adquirido pelas pesquisas dentro da eleição. Uma sondagem não fica guardada numa gaveta até a abertura das urnas. Seus resultados viram manchetes, orientam entrevistas, são repetidos em programas de televisão e ajudam a estabelecer diariamente quais candidaturas devem ser tratadas como “competitivas”. Os próprios números passam a interferir sobre o eleitorado que deveriam apenas medir, pois muita gente vota em quem está na frente, ou conhece os candidatos ao ver uma pesquisa eleitoral.

A campanha de 2026 forneceu um exemplo mais direto desse mecanismo. Em julho, a Quaest realizou levantamentos para a Presidência e para os governos de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Pará. Rui Costa Pimenta e os candidatos do PCO aos seis estados em que o Partido disputava o governo não foram apresentados aos entrevistados. Izadora Dias, Luan Monteiro, Adriano Teixeira, Henrique Áreas, Victor Assis e Maria Bona simplesmente desapareceram dos questionários.

Numa pesquisa estimulada, essa decisão tem consequência material: o entrevistado escolhe entre os nomes que aparecem diante dele. Quem foi retirado da lista não pode receber voto. A empresa apresenta depois o percentual produzido por esse questionário como uma fotografia da preferência do eleitorado. A fotografia, porém, já foi enquadrada antes de o entrevistador fazer a primeira pergunta.

A Quaest alegou inicialmente que não havia recebido do PCO informação formal sobre suas pré-candidaturas. A explicação entrou em contradição com outros fatos. César Pontes, então pré-candidato do Partido no Rio Grande do Sul, havia aparecido em outro levantamento do instituto. Rui Costa Pimenta, por sua vez, já tinha sido lançado pelo PCO à Presidência. Mesmo depois de o Partido procurar a empresa para informar seus nomes, novas pesquisas continuaram sem algumas dessas candidaturas. Em setembro, Adriano Funileiro, candidato ao governo do Paraná, foi entrevistado por uma funcionária da Quaest, que não sabia que ele era candidato, e percebeu que ele não constava no questionário mesmo depois de sua candidatura já estar oficializada.

Rui Costa Pimenta respondeu durante a campanha sobre ele próprio não constam nas pesquisas:

“Segundo eles, não sabiam que eu era candidato. Mas isso é uma empresa de pesquisa eleitoral. Se eles não conseguem nem saber quem são os candidatos a presidente e, particularmente, nunca ouviram falar da minha candidatura, não sei se estão habilitados para fazer pesquisa. Não parece que tenham competência suficiente para fazer uma pesquisa.”

A exclusão dos questionários se soma a um sistema mais amplo de seleção das candidaturas pela burguesia. Os maiores partidos dispõem de enormes fundos, estruturas profissionais e exposição permanente. As emissoras e os grandes jornais decidem quem receberá entrevistas, reportagens e espaço político. Depois, o desempenho nas sondagens é utilizado para conceder ainda mais destaque aos mesmos nomes e tratar os demais como candidatos sem importância. Não há nessa engrenagem um eleitor soberano recebendo de maneira igual as propostas existentes, mas uma eleição previamente filtrada pelos capitalistas.

Também não há a independência social que a propaganda desses institutos procura sugerir. O Datafolha nasceu em 1983 como departamento de pesquisas e informática do Grupo Folha da Manhã, destinado a produzir conteúdo e planejamento para a Folha de S.Paulo e outros serviços do grupo. A própria história oficial do instituto registra sua origem dentro do conglomerado jornalístico.

No caso de Ibope e Quaest, a relação com a Globo aparece reiteradamente na contratação e divulgação de pesquisas eleitorais. Em 2026, levantamentos estaduais da Quaest foram encomendados pela emissora; em eleições anteriores, pesquisas do Ibope também foram contratadas pela TV Globo. A Globo utiliza essas pesquisas para planejar toda a sua cobertura. Os grandes grupos de comunicação não estão separados da indústria de sondagens: são alguns de seus principais clientes e transformam seus resultados em material central da cobertura eleitoral.

O fiasco de 2026 tampouco surgiu do nada. No primeiro turno de 2022, o Datafolha publicado às vésperas da votação dava Lula com 50% dos votos válidos e Jair Bolsonaro com apenas 36%, uma diferença de 14 pontos. A votação terminou com Lula em 48,43% e Bolsonaro em 43,20%: vantagem de 5,23 pontos. Bolsonaro recebeu mais de sete pontos percentuais acima do número indicado pela pesquisa, enquanto a distância entre os dois candidatos foi quase nove pontos menor que a apresentada ao público.

Durante semanas, setores da esquerda trataram como real a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno, apoiados justamente nos levantamentos divulgados pelos grandes institutos. Quando as urnas foram abertas, Bolsonaro apareceu muito acima do que indicavam várias das principais sondagens. Transformar pesquisa em substituto da mobilização política deixava a esquerda desarmada diante da realidade eleitoral.

Em 2018, o problema apareceu outra vez. Na véspera do primeiro turno, o Datafolha dava 40% dos votos válidos para Jair Bolsonaro e 25% para Fernando Haddad. O Ibope apontava 41% a 25%. Bolsonaro terminou com 46,03%, aproximadamente cinco a seis pontos acima dos dois levantamentos. Haddad alcançou 29,28%, também acima das previsões.

Em 2018 e 2022, os institutos mais conhecidos terminaram o primeiro turno com diferenças importantes entre suas últimas medições e a urna. Em 2026, cinco dos levantamentos destacados pela própria grande imprensa erraram até mesmo a ordem dos dois primeiros colocados. Paralelamente, houve o caso documentado de candidatos do PCO que nem sequer foram oferecidos como opção aos entrevistados.

Empresas privadas, de propriedade de grandes capitalistas que manipulam as eleições de diversas formas, e estreitamente relacionadas à grande imprensa burguesa, receberam um poder desproporcional para estabelecer diante de milhões de pessoas qual seria o “quadro real” da eleição. Quando ainda escolhem quem entra ou não em determinados questionários, deixam de ser simples observadores e passam a interferir diretamente naquilo que pretendem medir. Assim como quando eles deixam um candidato com previsão de votos muito maior ou muito menor do que ele realmente terá: isso afeta a voto do eleitor.

Depois do show de horrores das pesquisas nas três últimas eleições presidenciais, tratar os institutos de pesquisa como árbitros neutros da vontade popular significa ignorar como a própria burguesia organiza e controla a disputa eleitoral.

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