Mais de 204 mil eleitores do Rio de Janeiro digitaram 13 para governador no primeiro turno das eleições. Como o PT não apresentou candidato próprio e apoiou Eduardo Paes (PSD), número 55, os votos foram anulados. Levantamento feito a partir dos Registros Digitais de Voto (RDVs) encontrou exatamente 204.309 ocorrências do número do PT.
O dado chama atenção não apenas pelo tamanho absoluto. Entre todos os números inexistentes digitados para governador, o 13 ficou em segundo lugar, atrás somente do 00, usado 344.840 vezes. Depois vem uma queda brusca: foram 15.990 votos no 12 e 10.702 no 99.
A hipótese mais significativa é a de um voto nulo de protesto de uma parcela do eleitorado petista. Quem desejasse apenas produzir um voto inválido tinha dezenas de combinações possíveis. Centenas de milhares escolheram justamente o 13, número que identifica o PT há décadas, numa eleição em que a direção do partido havia decidido retirar uma candidatura própria e pedir votos para Eduardo Paes.
O próprio levantamento divulgado pela imprensa reconhece como uma das explicações possíveis a existência de petistas que decidiram anular propositalmente o voto por não aceitarem Paes. O abismo entre o 13 e todos os números nulos posteriores ao 00 impede que o resultado seja simplesmente descartado como uma sucessão de erros aleatórios.
Há também uma segunda possibilidade, que tampouco favorece a política adotada pelo PT. Parte desses eleitores pode ter acreditado que Eduardo Paes era o candidato petista e digitado 13 por associação com Lula. O presidente participou diretamente da campanha de Paes, subiu em seu palanque e procurou transferir para o candidato do PSD o apoio de seu eleitorado.
Em agosto, num ato eleitoral em Bangu, Lula apareceu ao lado de Paes e de candidatos da coligação. O próprio Paes apresentou a união com o presidente como uma aliança necessária e lembrou que mantém relações políticas com Lula desde 2008.
Se parte dos 204 mil votos decorreu dessa confusão, a conclusão política também é reveladora: haveria eleitores dispostos a votar em Paes apenas porque procuravam Lula na urna. Seriam votos produzidos pela identificação com o petista, e não pela força própria do candidato do PSD.
A explicação de protesto, porém, corresponde diretamente a uma contradição que acompanhou a campanha. O PT decidiu que a melhor maneira de enfrentar a direita no Rio seria não disputar o governo com candidato próprio e entregar seu apoio a um político da direita e promotor de medidas neoliberais.
Na Prefeitura do Rio, Paes entrou em choque com os profissionais da educação. Em 2024, professores municipais realizaram uma greve contra o PLC 186, que alterava regras de carga horária, férias, licenças e contratos. A Câmara aprovou medidas propostas pela prefeitura enquanto trabalhadores protestavam do lado de fora, e houve repressão policial às manifestações.
Mesmo com esse histórico recente, a direção petista transformou Paes em seu candidato ao governo estadual. Foi uma aplicação direta da política de frente ampla: o argumento de que, para derrotar o bolsonarismo, seria necessário abandonar uma política própria da esquerda e formar alianças eleitorais cada vez maiores com partidos e figuras tradicionais da direita.
O resultado foi justamente o contrário do esperado. Douglas Ruas (PL) terminou em primeiro lugar, com 4.271.199 votos, equivalentes a 49,27% dos válidos. Paes ficou atrás, com 3.706.984 votos, ou 42,76%.
A situação de Paes ficou ainda pior com o problema jurídico envolvendo Anthony Garotinho. O candidato do Republicanos recebeu 274.411 votos enquanto sua candidatura estava sub judice e, depois da eleição, desistiu do recurso que mantinha no Tribunal Superior Eleitoral. A retirada desses votos do cálculo elevaria Ruas para 50,88%, percentual suficiente para uma vitória no primeiro turno. O destino definitivo da votação ainda depende da Justiça Eleitoral; nesta terça-feira (6), os votos continuavam sub judice enquanto o caso permanecia no TSE.
É aí que os 204 mil votos anulados com o 13 assumem peso ainda maior. Segundo o levantamento sobre os RDVs, bastaria que aproximadamente 72% desse grupo tivesse votado em Paes para assegurar a realização do segundo turno mesmo com a eventual retirada dos votos de Garotinho. Se todos os votos no 13 fossem válidos e destinados ao candidato do PSD, Ruas ficaria abaixo de 50%.
Não significa que esses 204 mil votos pertenciam a Paes. Pelo contrário: é justamente esse o problema político. O PT abriu mão de seu próprio candidato, fez campanha pelo número 55 e tentou colocar sua força eleitoral a serviço de um picareta do PSD. No dia da eleição, mais de 200 mil pessoas escolheram digitar exatamente o número que a direção petista havia retirado da disputa.
O Rio tampouco é um caso isolado sobre a frente ampla. Ocorreram derrotas de candidaturas sustentadas por alianças semelhantes em diferentes estados e a tentativa de fortalecer a esquerda por meio de acordos com partidos burgueses terminou fortalecendo os próprios “aliados” da direita. No Rio, Paes foi um dos exemplos dessa política: apesar da enorme coligação montada ao seu redor, terminou atrás do candidato do PL.
Na eleição presidencial, o argumento de que a frente ampla produziria uma vantagem decisiva contra a direita também não apareceu no resultado do primeiro turno. Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, enquanto Lula teve 53.876.617, ou 45,16%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Portanto, os 204 mil votos no 13 são mais do que uma curiosidade da urna eletrônica. Eles dão uma dimensão concreta da resistência que existe dentro do próprio eleitorado identificado com o PT a uma política que manda trabalhadores votarem em seus inimigos históricos.
A direção petista acreditou que retirar sua candidatura e apoiar Eduardo Paes seria uma maneira inteligente de bloquear a direita. A eleição deixou um quadro bem diferente.





